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Assassinato no Expresso do Desfiladeiro Khyber

28 julho 2010 Sem Comentários

Por David P Goldman (Spengler), Asia Times Online

Os 92 mil documentos secretos do exército dos EUA divulgados por WikiLeaks [e pelo jornal Guardian, britânico (NT)] somam-se à evidência de que o serviço secreto paquistanês apóia os Talibã, a ponto de colaborar em planos dos Talibãs para assassinar funcionários norte-americanos e afegãos.

E surge a questão: quem encobriu esse acerto escandaloso conhecido por todos, com avaliação superficial e desleixada da situação? A resposta é a mesma de Agatha Christie, na novela policial de 1934 sobre um assassinato no Orient Express, isso é, todos: um ex-presidente dos EUA, George W Bush, e seu vice-presidente Dick Cheney; e um atual presidente dos EUA, Barack Obama, e seu vice-presidente Joe Biden; além de Índia, China e Irã. Todos esses estão aterrorizados ante a ideia de terem de enfrentar um Estado fracassado armado com bombas atômicas. Então se alinham com um Estado funcional, embora traiçoeiro.

Os documentos agora divulgados – no que parece ser um dos maiores vazamentos de informação secreta de toca a história militar dos EUA – detalham operações militares entre 2004 e 2009. Alguns dos documentos publicados dia 25/7 mostram como as forças da OTAN mataram centenas de civis em incidentes nunca divulgados, no Afeganistão. Segundo aqueles documentos, 195 civis teriam sido assassinados e 174 feridos, no período coberto pelos documentos. Muitos motociclistas ou motoristas, que são mortos a queima roupa, porque alguém desconfia que sejam homens-bombas.

A Casa Branca condenou a divulgação, porque ameaçaria a segurança das forças da coalizão. E o embaixador do Paquistão nos EUA disse que seu país está empenhado em combater os guerrilheiros. Para Husain Haqqani, a divulgação teria sido “irresponsável”, e que se tratava de relatórios de campo, “ainda não processados”.

O “todos” implicados nesse caso parece excluir quem (seja quem for) realmente fez vazarem dos documentos, presumivelmente algum militar norte-americano, que se viu obrigado a engolir o efeito do duplo jogo do Paquistão sob a forma de cadáveres ensacados de soldados norte-americanos e reputações destroçadas de comandantes.

Como as entrevistas publicadas na revista Rolling Stone que levaram à demissão do general Stanley McChrystal, comandante no Afeganistão, os documentos divulgados pelo website WikiLeaks [e pelo jornal britânico Guardian (NT)] sugerem um grau de insatisfação dos líderes civis, em relação aos chefes militares norte-americanos muito mais profundo do que jamais se viu na memória dessa e de várias gerações.

Para sair do Afeganistão de modo um pouco menos humilhante, os EUA precisam da ajuda do Paquistão, para persuadir os Talibã a não se aproveitarem da vantagem imediata de uma retirada dos soldados dos EUA, para que não se repitam as cenas da era Vietnã, com helicópteros abarrotados de fugitivos norte-americanos, tentando escapar pelo telhado da Embaixada dos EUA em Saigon.

Os políticos em Washington sabem que perderam e deram aos Talibãs um papel garantido no Afeganistão pós-EUA. Podem esperar, no máximo, que, depois de o país mergulhar no caos, o público já estará ocupado com outros temas, como aconteceu depois de o governo de Bill Clinton ter entregado o Kosovo a uma gangue de albaneses muito suspeitos, em 1998.

A Índia não quer que os EUA chamem o Paquistão às falas. No pior dos mundos, o Paquistão pode decidir apoiar os Talibã e outras organizações terroristas – inclusive os resistentes da Caxemira – declaradamente e às claras, não mais às escondidas. O primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, de quem a revista Economist de 25 de julho escreveu que “a força de sua coalizão depende de o quanto [Singh] seja primeiro-ministro fraco”, não sabe enfrentar o Paquistão. Se o apoio do Paquistão ao antiterrorismo indiano tornar-se evidente e inegável, a Índia terá de agir, e agir é a última coisa que deseja a coalizão de partidos que comanda o Congresso em Nova Delhi.

A China não tem qualquer interesse em desestabilizar o Paquistão. Ao contrário, Pequim teme que os muçulmanos radicais no Paquistão contagiem os seus sempre instáveis uigures. E o Irã, que partilha os divididos baluques com o Paquistão, em sua área de fronteira comum, vive em pânico, com medo de que um Paquistão desestabilizado libere os baluques para criar confusão no Baluquistão.

Os baluques constituem mais de 2% da população iraniana, mas já demonstraram grande talento para a fabricação de explosivos em várias ocasiões recentes, inclusive esse mês, na explosão em uma mesquita xiita no sudoeste do Irã, quando 28 pessoas foram mortas e centenas, feridas. O Irã acusou o Paquistão de patrocinar os ataques terroristas dos baluques, mas fontes da comunidade de inteligência em Washington insistem em que os paquistaneses jamais seriam tão idiotas a ponto de por bombas em mãos de baluques.

Com população de 170 milhões – maior que a da Rússia – e um arsenal de bombas atômicas, o Paquistão é grande demais para falir, quer dizer: é grande demais para falir sem conseqüências traumáticas para seus vizinhos. Que seja possível impedir a falência, eis a questão. Metade da população paquistanesa vive com menos de 1 dólar/dia; metade são analfabetos. O país é dividido por disputas religiosas – um sétimo dos paquistaneses são xiitas – e étnicas.

A patética campanha do governo paquistanês contra elementos pró-Talibã na fronteira afegã implica, só, que punjabis matem pashtuns. Arrancar os Talibã, a sério, da fronteira de fala pashtun nas áreas tribais do Waziristão, implica alto risco de rachar o Paquistão ao meio. E é verdade também que o Paquistão precisa dos Talibã, como escudo anti-Índia. Mas é erro grave separar os objetivos da política externa de Islamabad, da exigência de manter a coesão doméstica, dado que a agitação dos guerrilheiros anti-Índia é parte da solda que mantém coeso um grupo fracionado e fanático de tribos locais.

O fato de que o Paquistão alegue contar com o apoio e confiança dos vizinhos e com o patrocínio de patrocinadores estrangeiros, EUA e China, é o que mais o enfraquece. A política norte-americana ainda aspira a manter o equilíbrio de poder entre Índia e Paquistão. É ato de tolice extrema. Quanto mais os poderes regionais adiam um acerto com o Paquistão, mais danoso o resultado. Como escrevi ano passado, dia 29/12, em balanço do ano:

“Há um grande paralelo, mas também uma grande diferença entre os Bálcãs da véspera da Primeira Guerra Mundial e o caldeirão de bruxas que são Paquistão, Afeganistão, Irã e territórios contíguos. O fracasso do Estado mais populoso da região – naquele caso, o Império Otomano, nesse, o Paquistão – põe abaixo qualquer pretendido equilíbrio do poder e deixa a iniciativa nas mãos de guerrilheiros radicais que ameaçam arrastar com eles as grandes potências suas patrocinadoras. Mas em 1914, ambas, França e Alemanha consideraram mais vantajoso combater mais cedo, do que mais tarde. Não importa quão seja grande a provocação, Índia e China, hoje, querem adiar qualquer conflito. O problema é que, assim, promovem pequenos conflitos.”[1]

Dada a total evidência de que o Paquistão recebe a ajuda dos EUA, ao mesmo tempo em que ajuda os Talibã a assassinar soldados norte-americanos, talvez oferecendo fogo de cobertura aos amigos afegãos e mísseis guiados a calor, o governo Obama fez a única coisa que pode fazer: negou que os 92 mil documentos contenham informação nova; além de insistir que sua “revisão”, de novembro de 2009, da estratégia para a guerra do Afeganistão seria resposta adequada aos problemas detalhados nos documentos. O governo Obama tem uma história e tenta agarrar-se a ela. A Casa Branca, depois da divulgação dos documentos, dia 25 de julho, declarou:

“Desde 2009, os EUA e o Paquistão aprofundaram nossa importante parceria bilateral. A cooperação antiterrorismo levou a significativas perdas na liderança da al-Qaeda. Os militares paquistaneses estão na ofensiva no Swat e no Waziristão Sul, com alto custo para os soldados e o povo paquistaneses. Os EUA e o Paquistão também iniciaram um Diálogo Estratégico, que expandiu a cooperação para questão que vão de segurança a desenvolvimento econômico (…) e o governo paquistanês – os militares e os serviços de inteligência – devem prosseguir o movimento estratégico contra grupos insurgentes. A balança deve pender decisivamente contra a al-Qaeda e seus aliados extremistas. O apoio dos EUA ao Paquistão continuará focado em construir capacidade paquistanesa para erradicar os grupos extremistas violentos, ao mesmo tempo em que apoiamos as a spirações do povo paquistanês.”

Isso não faz sentido algum, como Obama sabe e como sabemos todos, em todo o mundo. Em algum momento a brincadeira terá de acabar, e seria novidade nos negócios mundiais se acabar por causa da relutância dos comandantes dos EUA em regar a brincadeira com sangue de norte-americanos. Muito melhor fariam os EUA se parassem o jogo agora e buscassem declarada e aberta aliança com a Índia, a maior democracia do mundo e parceiro natural dos EUA na Ásia Central.

David P Goldman é editor-sênior de First Things (www.firstthings.com)

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