Integrante da AE, ex-secretário da Juventude que articulou o 1º Congresso da JPT reflete sobre os atuais desafios e afirma que as políticas públicas “estão perdendo o caráter etário”

O goianiense Rafael Pops, 46 anos, foi o secretário nacional da Juventude do PT de 2005 a 2008, único período em que a AE liderou esse setor. Pops atuou na SNJ num tempo em que a população de 15 a 29 anos de idade crescia no Brasil. Foi testemunha da criação da Secretaria Nacional de Juventude na Presidência da República e do boom de novos organismos para o setor em instâncias municipais e estaduais.
Mas é olhando para a projeção de envelhecimento da população e o encolhimento da fatia jovem nas próximas décadas que Pops reflete sobre os desafios da JPT e do PT com a juventude. E nos lembra que, “pela primeira vez na história do planeta Terra, seis gerações estarão convivendo ao mesmo tempo”[1]. E alerta que devemos refazer os pactos de políticas públicas. “Quando a pirâmide for um retângulo, o corte etário vai ter muito menos importância. Eles têm que ser muito mais multigeracionais. Falar de políticas públicas de juventude vai perder sentido. A juventude do PT tem o desafio de promover políticas públicas não só para a juventude”.
Rafael considera que os pactos que temos de organização partidária e de políticas públicas são moldados numa outra era e estão baseados em uma base maior de uma pirâmide etária. E explica que não fala apenas do ponto de vista orçamentário. “Eu falo, por exemplo, de uma política da cidade”. Ele exemplifica: “A noite da cidade, a economia da noite, os espaços de fruição da cidade estão acabando. E a juventude está sendo alijada disso, desses espaços de fruição, porque a minha geração está envelhecendo, está reprimindo os barulhos e tudo isso. Então a gente tem que refazer esses pactos de políticas públicas para a cidade.”
E ilustra seus argumentos também com uma experiência pessoal: “Eu cresci em uma quadra em Brasília em que tinha um gramadão que era o nosso campo de futebol. A galera mais velha começou a plantar árvores porque não gostava que a gente jogasse futebol ali. Ficaram árvores gigantes. Eu passei lá este ano de bicicleta. Derrubaram parte dessas árvores para fazer uma estação de exercício para idosos”. Rafael considera que esse episódio fez “cair a ficha” sobre esse debate. “O pacto da cidade não pode ser só a opressão desse pico populacional que está envelhecendo sobre uma narrativa sobre os jovens que estão perdendo [em participação populacional]. Eu acho que a juventude do PT precisa mirar nesse novo pacto de políticas públicas.”
Rafael avalia que essa inversão da pirâmide “reverbera e vai reverberar muito”. “Se pegar experiências da Alemanha e do Japão, a gente já vê como isso reverberou não só nos idosos, mas nos jovens. Porque a gente vai começar a fechar escola. Qual é a política que vai ter para isso? Porque senão vai fechar a escola para montar uma academia do Bell Marques[2]. Em Brasília, tem quem reclame de escola na frente de casa. ‘Tinha que tirar essa escola daqui porque faz muito barulho’, dizem.”
Para os que virão depois
Rafael reconhece que a transitoriedade da condição de jovem não permite que os próprios protagonistas das mudanças usufruam dessas mesmas mudanças. “A gente tem que ser protagonista de um pacto que a gente não vai viver. Assim como não viveu as cotas para jovens [na direção do PT]. Mas a gente precisa refazer o pacto para o bem da juventude que está vindo. A gente teve uma facilidade de ser protagonista porque a gente era a maioria. Agora tem o desafio de serem protagonistas de debates transformadores, igual todas as juventudes são, não só a minha.”
[1] As seis gerações seriam: a Silenciosa ou “babyboomers” (1946-64); a Geração X (1965-1980); a Geração Y ou “Mileniuns” (1981-96); a Geração Z (1997-2010); a Geração Alpha (2011-2024) e a Geração Beta (2025*-39). *Ou 2020, a depender da fonte.
[2] Cantor brasileiro de 72 anos que treina regularmente e é visto frequentemente em academias de esportes.
