2026 e a batalha da Bahia

Página 13 publica o seguinte texto-base ao congresso estadual da AE na Bahia.

No ano de 2026, em que o Brasil atravessará eleições Presidênciais, na Bahia teremos nossa própria batalha. Assim, se a história se repete, como drama ou como farsa, do ponto de vista cultural, social e ideológico, temos em solo baiano a reprodução contínua da batalha de Pirajá, que levou (de fato) à independência do Brasil no 2 de julho de 1823.

Desde 2002, a Bahia se consolidou como território decisivo das vitórias de Lula, expressando eleitoralmente uma tradição política forjada na luta territorial e popular que remonta à Independência. Em 2006, Lula obteve cerca de 62% dos votos válidos no estado; em 2018, mesmo preso e substituído por Haddad, o lulismo alcançou mais de 72% no segundo turno; e, em 2022, Lula venceu na Bahia com 72,12% dos votos, uma das maiores margens do país, decisiva para reverter derrotas no Sul e Sudeste e garantir a vitória nacional. Essa recorrência não é acidental: ela revela uma cultura política enraizada, na qual o povo baiano reconhece, no voto, a continuidade de uma mesma lógica histórica que deu base para que no 2 de Julho de 1823, se expulsou as tropas coloniais de Salvador por meio do cerco popular vindo do Recôncavo e do interior.

Assim como na Independência, quando não foi a capital isolada, mas o território mobilizado que decidiu a guerra, também nas eleições contemporâneas é a Bahia interiorizada, popular e politizada que sustenta Lula como liderança nacional. O voto baiano funciona, portanto, como reprodução política da memória do 2 de Julho. A afirmação reiterada de que a soberana se decide quando o povo entra em cena e transforma o território em trincheira democrática: ontem contra a colonização portuguesa, hoje contra os herdeiros coloniais do autoritarismo inerente ao tecido social brasileiro.

Na batalha eleitoral baiana que ocorrerá em 2026, três forças políticas exercerão influência: 1) o campo amplo de forças hoje no governo, liderado pelo PT; 2) o campo liberal-conservador representado por ACM Neto e pelo União Brasil; 3) os representantes do bolsonarismo local como João Roma e Capitão Alden.

No campo governista, liderado pelo PT e sustentado por uma ampla coalizão política, a principal fortaleza estratégica para a disputa de 2026 na Bahia está na engenharia institucional construída a partir da aliança entre o partido, setores do capital e partidos de direita, tanto em âmbito federal quanto estadual e municipal.

As alianças permitiram consolidar uma convergência entre governo federal, governo estadual e a ampla maioria das prefeituras, produzindo uma base de governabilidade extensa, financeiramente robusta e politicamente funcional. Trata-se de uma coalizão que garante previsibilidade administrativa, acesso a investimentos, estabilidade fiscal e capacidade de coordenação territorial, elementos decisivos para sustentar o poder no interior do estado e neutralizar crises institucionais abertas.

A articulação entre o governo e o capital — especialmente nos setores de infraestrutura, energia, agronegócio, serviços e finanças públicas — e com partidos de centro e direita ampliou o raio de governabilidade do campo governista, mas também redefiniu o conteúdo do projeto político em curso. O Estado passou a operar como mediador entre demandas populares e limites impostos pela lógica da acumulação, convertendo políticas públicas em instrumentos de conciliação e não de enfrentamento estrutural. Essa opção estratégica garantiu estabilidade institucional, mas ao custo de compressão do horizonte transformador, sobretudo nas áreas em que o conflito entre interesse social e racionalidade econômica se apresenta de forma mais aguda.

É nesse ponto que emerge a principal fragilidade do campo governista: o desgaste político produzido pela frustração de expectativas populares, geradas e reiteradas por um discurso histórico de mudança, mas contidas na prática pela aliança com o capital e com forças conservadoras. A classe trabalhadora identifica o governo como seu, mas se expressam limites claros na capacidade de enfrentar problemas estruturais, o que produz uma tensão permanente entre expectativa e resultado. Esse descompasso se expressa de maneira mais intensa nas políticas públicas que exigiriam ruptura com interesses econômicos consolidados.

Entre essas políticas, segurança pública e educação concentram os principais focos de desgaste. Em ambas, a conciliação com o capital e com setores conservadores restringe a adoção de medidas mais profundas, produzindo respostas graduais, tecnocráticas ou defensivas, que não acompanham a urgência vivida no cotidiano social. O governo mantém a estabilidade, mas paga o preço político de parecer incapaz de produzir mudanças substantivas nos pontos mais sensíveis da vida popular.

A segurança pública é hoje o núcleo mais agudo dessa contradição. O avanço da violência, a consolidação de economias criminais e a intensificação de disputas territoriais colocam o Estado diante de um dilema estrutural: enfrentar o problema exigiria não apenas ação policial, mas investimentos massivos, reforma institucional, políticas sociais integradas e enfrentamento de circuitos econômicos ilegais que se articulam, direta ou indiretamente, com o próprio capital formal.

A opção predominante tem sido por políticas de contenção e gestão do conflito, compatíveis com a lógica da estabilidade, mas insuficientes para produzir sensação de controle e segurança. A oposição explora esse limite com eficácia, convertendo a insegurança em crítica direta à capacidade do governo, enquanto o campo governista se vê aprisionado entre a pressão popular por resultados imediatos e os limites impostos por sua própria coalizão.

Na educação, o desgaste assume forma menos explosiva, porém igualmente persistente. As alianças com setores privados, os limites fiscais e a prioridade conferida à estabilidade macroeconômica restringem investimentos estruturais mais ousados e a valorização efetiva dos profissionais. O resultado é um sistema que avança de forma incremental, mas que não responde à expectativa social de transformação profunda, especialmente nas áreas urbanas e entre famílias trabalhadoras que veem a educação como principal via de mobilidade social.

Assim, o campo governista chega a 2026 sustentado por uma coalizão institucional ampla e funcional, mas atravessado por uma contradição central: a mesma aliança com o capital e com partidos de direita que garante governabilidade e estabilidade é também a fonte principal de desgaste político, na medida em que limita a capacidade de responder às expectativas populares que historicamente sustentam sua base social.

A batalha eleitoral se dará, portanto, em torno dessa tensão: manter o projeto de esquerda rompendo com a base política de direita ou aprofundar a conciliação ao custo de ampliar o afastamento entre governo e povo.

No campo liberal-conservador, liderado por ACM Neto e organizado em torno do União Brasil e de partidos de direita associados, a principal fortaleza estratégica reside na articulação orgânica com o capital urbano, com setores empresariais e com a lógica gerencial do Estado. Diferentemente do campo governista, cuja governabilidade se ancora na conjugação entre os três níveis de governo, o campo de ACM Neto construiu sua força a partir do controle concentrado de territórios-chave, especialmente a capital e seu entorno metropolitano, onde se encontram os principais circuitos econômicos, midiáticos e simbólicos do estado.

Esse campo dispõe de uma capacidade singular de produção, difusão e enquadramento da narrativa pública, operando com vantagem no debate político cotidiano. A posse e influência sobre veículos de comunicação — combinadas com forte presença nas redes digitais — permitem antecipar agendas, definir temas sensíveis, amplificar fragilidades do adversário e apresentar a si próprio como alternativa natural de poder. Trata-se de uma força que não apenas disputa eleições, mas organiza o senso comum político, sobretudo nos grandes centros urbanos e nas cidades médias.

Além da capital, esse campo não se restringe a Salvador como território exclusivo. Aliados políticos governam cidades centrais da Bahia, como Feira de Santana, Vitória da Conquista e outros municípios de porte médio, o que amplia significativamente sua base institucional e territorial. Essas cidades funcionam como pontes entre o mundo urbano e o interior, articulando redes empresariais, eleitorais e administrativas.

A presença nesses municípios confere ao campo liberal-conservador uma capacidade real de interiorização, ainda que distinta daquela exercida pelo governo estadual, permitindo-lhe dialogar com demandas regionais, formar quadros políticos e disputar hegemonia fora da Região Metropolitana de Salvador.

Outra fortaleza importante é a coerência programática da aliança com o capital e com partidos de direita. Diferentemente do campo governista, cuja base social histórica convive com tensões decorrentes da conciliação, o projeto liderado por ACM Neto apresenta consistência interna: sua base eleitoral reconhece, aceita e espera uma política orientada pela lógica da eficiência administrativa, pela centralidade do mercado e pela redução do papel redistributivo do Estado. Isso reduz o risco de frustração interna e confere estabilidade discursiva à sua candidatura.

Entretanto, esse campo enfrenta uma fragilidade estrutural decisiva, que incide diretamente sobre a figura de ACM Neto: a memória popular de rejeição ao carlismo enquanto forma de governo autoritária, centralizadora e historicamente negadora de direitos. Essa memória não se expressa de modo uniforme, mas permanece latente no imaginário político baiano, especialmente entre as classes populares, no interior e nos territórios historicamente excluídos do poder. Ainda que o carlismo tenha se modernizado em sua forma, suavizado seu discurso e atualizado suas estratégias, a associação simbólica entre o projeto político de ACM Neto e esse passado autoritário continua operando como limite à sua expansão hegemônica.

Essa rejeição não é apenas histórica, mas afetiva e cultural, transmitida por gerações e reativada em momentos de polarização. Ela dificulta a construção de uma identificação popular profunda com o projeto liberal-conservador, funcionando como barreira simbólica à sua legitimação enquanto alternativa “natural” de poder estadual. Em contextos eleitorais acirrados, essa memória tende a ser reativada pelo campo adversário, recolocando em disputa não apenas programas de governo, mas formas de exercer o poder.

Há, ainda, uma tensão adicional: embora o campo liderado por ACM Neto possua forte controle comunicacional e capilaridade institucional em cidades médias, sua expansão depende da capacidade de neutralizar essa memória negativa sem romper com sua base econômica e política. Trata-se de um equilíbrio delicado: distanciar-se demais do legado carlista pode fragilizar a coesão do campo; assumi-lo abertamente tende a reativar rejeições populares profundas.

Assim, o campo liberal-conservador chega a 2026 com fortes instrumentos de poder simbólico, comunicacional e institucional, presença relevante para além da capital e apoio consistente do capital. Contudo, carrega uma fragilidade estrutural que não se resolve apenas com gestão ou marketing político: a sobrevivência, no imaginário popular baiano, da rejeição ao carlismo como forma histórica de dominação, que incide diretamente sobre ACM Neto e limita sua capacidade de conversão eleitoral plena em escala estadual.

A essa fragilidade soma-se um impasse político incontornável, que atravessa o campo liberal-conservador e condiciona sua estratégia para 2026: a relação com o bolsonarismo no plano nacional. Em um estado marcado por alta rejeição eleitoral a Jair Bolsonaro, o apoio explícito a uma candidatura presidencial bolsonarista tende a produzir custos imediatos, reativando rejeições amplas entre setores populares, no interior e mesmo entre eleitores moderados das cidades médias. Ao se associar diretamente a esse campo, ACM Neto corre o risco de reforçar a leitura de alinhamento com um projeto autoritário derrotado socialmente na Bahia, comprometendo sua capacidade de ampliar a base estadual.

Por outro lado, a opção por não apoiar nenhuma candidatura presidencial competitiva, ou por sustentar um nome inexpressivo, também implica perdas. Parte do eleitorado conservador exige alinhamento nacional claro e tende a se desmobilizar ou a migrar para candidaturas bolsonaristas autônomas, enfraquecendo a coesão do campo liberal-conservador na disputa estadual. Trata-se, portanto, de uma escolha estruturalmente desfavorável: qualquer decisão implica perda de base social. Esse impasse reduz a margem de manobra política de ACM Neto e introduz um fator permanente de instabilidade em sua campanha, limitando sua capacidade de converter força institucional e comunicacional em maioria eleitoral no conjunto do território baiano.

No campo bolsonarista, representado na Bahia por lideranças como João Roma e Capitão Alden, a principal característica é a dissociação entre identidade ideológica forte e base eleitoral minoritária. Trata-se de um campo que possui alta capacidade de mobilização simbólica, forte apelo moral e discurso agressivo contra o sistema político tradicional, mas que enfrenta limites estruturais evidentes em um estado marcado por reiteradas derrotas do bolsonarismo em disputas majoritárias. Na Bahia, o bolsonarismo não se apresenta como força capaz de vencer, mas como força de pressão permanente, organizada mais por identidade do que por viabilidade eleitoral.

A base social bolsonarista é segmentada e territorialmente dispersa, concentrando-se em parcelas do eleitorado evangélico, setores das forças de segurança, pequenos grupos do agronegócio e frações conservadoras urbanas. Diferentemente do campo governista e do liberal-conservador, o bolsonarismo não dispõe de uma arquitetura institucional robusta nem de controle relevante de prefeituras ou estruturas administrativas. Sua atuação se dá prioritariamente no plano discursivo, nas redes sociais e em campanhas de agitação política, operando como vetor de radicalização do debate e deslocamento da agenda pública para temas morais, identitários e antipolítica.

Na dinâmica da eleição de 2026, o bolsonarismo tende a cumprir um papel desorganizativo, mais do que agregador. Sua presença fragmenta o campo da direita, pressiona ACM Neto por alinhamento nacional e dificulta a construção de uma frente liberal-conservadora estável. Ao mesmo tempo, sua rejeição social ampla na Bahia impede que se converta em alternativa de poder estadual, tornando-o dependente de alianças assimétricas ou de candidaturas presidenciais externas ao estado. Assim, o campo bolsonarista atua como fator de tensão e instabilidade na disputa, influenciando agendas e estratégias dos demais campos, mas sem capacidade real de hegemonizar o processo político baiano em 2026.

Diante desse quadro, o papel do Partido dos Trabalhadores em 2026 não pode ser o de mero fiador passivo da governabilidade existente, nem o de porta-voz acrítico das justificativas institucionais do governo. Cabe ao PT atuar como agente político organizado, capaz de mediar conscientemente a relação entre governo, coalizão e base social histórica. Isso implica reconhecer as contradições reais da aliança em curso e disputar seus rumos, afirmando que a estabilidade institucional é um meio e não um fim, cuja legitimidade depende da resposta efetiva às demandas da classe trabalhadora e dos setores populares.

Nesse sentido, o PT deve operar simultaneamente em dois planos. No primeiro, precisa defender o campo governista frente à ofensiva liberal-conservadora e bolsonarista, que busca capitalizar o desgaste social para impor uma agenda regressiva e autoritária. Essa defesa, porém, não pode se confundir com a negação dos problemas concretos vividos pela classe trabalhadora. Ao contrário, o partido deve assumir o conflito, qualificar o debate público e territorializar a política, transformando demandas sociais em agenda programática e comunicação política enraizada.

No segundo plano, igualmente decisivo, o PT deve pressionar o próprio governo e a coalizão, disputando a orientação estratégica do projeto em favor das pautas da classe trabalhadora. Isso significa tensionar os limites impostos pela aliança com o capital e com partidos de direita, recolocando no centro do debate temas como emprego, renda, serviços públicos, direitos sociais e valorização do trabalho. Sem essa disputa interna e pública, a conciliação tende a se naturalizar, convertendo a estabilidade em fim em si mesma e esvaziando o sentido histórico do projeto petista.

O horizonte estratégico que deve orientar o Partido dos Trabalhadores é a construção de um governo alinhado às pautas da classe trabalhadora, capaz de combinar governabilidade com iniciativa política transformadora. Esse caminho não passa por rupturas voluntaristas nem por acomodação permanente, mas por uma disputa consciente dentro e fora das instituições, sustentada por organização partidária, diálogo com movimentos sociais e presença cotidiana nos territórios. Em 2026, a batalha da Bahia não será vencida apenas nas urnas, mas pela capacidade do PT de reafirmar que a estabilidade só tem valor quando serve à ampliação de direitos, à redução das desigualdades e à reconstrução de um projeto de esquerda enraizado na classe trabalhadora.

Ao final, a disputa de 2026 na Bahia se resolve no mesmo ponto em que historicamente se resolvem as grandes escolhas políticas do estado: pois se “nasce o sol a 2 de julho”, não é como memória distante, mas como afirmação concreta da vitória da classe trabalhadora sobre projetos de exclusão. Assim como se “com tiranos não combinam brasileiros corações”, não é como metáfora abstrata, mas como recusa direta às formas contemporâneas de autoritarismo representadas pelo bolsonarismo. É nesse cruzamento entre classe trabalhadora, território e projeto que a batalha volta a se decidir.

Com luta, venceremos.

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