Análise da conjuntura internacional (com foco nos EUA)

Por Jana Silverman (*)

-Estamos em tempos “interessantes” agora, de fato temos vividos tempos “interessantes” desde pelo menos uma década atrás, aqui no Brasil. Mas estamos vivenciando agora um colapso iminente e talvez final das instituições multilaterais que foram criados após a 2a Guerra Mundial (Bretton Woods, OAS e sobretudo a ONU), que juntos, criarem a “ordem mundial baseada em regras” (“rules-based international order”). Os legados principais dessa ordem mundial são: o direito internacional público usado para resolver disputas entre as nações sem ter que recorrer a forca bélica, e as normas do direito internacional que promovem os direitos humanos, os direitos trabalhistas, e os direitos dos migrantes, além de promover o direito a autodeterminação dos povos.

-Não devemos ter tanto saudosismo para essa “ordem mundial baseada em regras,” pois em grande parte do mundo (especificamente nos países do Sul Global) essas regras não foram plenamente operantes durante a Guerra Fria. Depois da queda da Uniao Soviética, houve um momento curto em que os EUA tiveram interesse em fortalecer esse sistema (e assim vimos alguns avanços, como a criação da Corte Penal Internacional, os Objetivos do Milênio, etc.), mas esse momento curto acabou rapidamente com a guerra unilateral e inventada dos EUA contra o Iraque a partir do ano 2003. E claro o respeito para o direito internacional nunca existia para os povos que até hoje ainda estão colonizados, como os Portoriquenhos, o povo da Saara Ocidental, e sobretudo o povo Palestino, vítima de um genocídio de duração longíssima.

-Agora estamos vivenciando um novo momento, marcado por dois elementos principais – 1) com os EUA tentando reforçar seu poder unilateral (seja através de mecanismos multilaterais como na época Biden, seja através de ações puramente unilaterais, mas não necessariamente isolacionistas, como na época de George Bush Jr e agora com o Trump) e 2) com a tentativa de construção de um polo geopolítico opositor aos EUA, vis-à-vis os BRICS, com a China como carro chefe. Claro que essa construção acontece em condições de assimetrias políticas e econômicas (alguns países dos BRICS são mais hostis aos EUA do que outros, e a aliança entre China, Rússia e outros países do Sul Global parece bem mais econômica do que política – como exemplo podemos citar a falta de ações mais contundentes da China após ao ataque a Venezuela no dia 3/1.) Também e importante lembrar que esses processos estão acontecendo num momento de auge da policrise, que contempla a crise ambiental, a crise social, a crise econômica (já que os “anos dourados” do capitalismo neoliberal globalizado tem produzido grandes desigualdades econômicas entre e dentro dos países), a crise política (expressada na perda generalizada de confiança nas instituições politicas tradicionais, como os partidos, os Congressos, e as organizações da sociedade civil) e ate uma crise cultural, com os grupos sociais antes privilegiados sentindo seu poder declinar, como por exemplo, os trabalhadores brancos com baixa escolaridade nos EUA. Essa convergência de crises, alimentada pelo Big Techs e suas máquinas de produzir fake news, e sobre tudo pelo medo, tem levado ao crescimento da extrema direita a escala global. Mas é importante sempre lembrar que num contexto de polarização política extrema, e o papel das organizações que representam a classe trabalhadora de levar esse descontentamento para a esquerda, para que nossos companheiros de trabalho e os nossos vizinhos não caem nas armadilhas da extrema direita e entram na polarização pela direita.

-Os EUA podem ser chamados corretamente como um império em declive. Diante desse cenário, o Trump está na defensiva, atacando tanto os inimigos reais quanto os imaginados como uma onça pintada encurralada. Trump se encontra numa saia justa, com dificuldades de satisfazer os desejos políticos e econômicos dos 3 pilares que sustentam o seu governo – os Tech Bros (neoliberais e neolibertários), as supremacistas brancas (a fração mais religiosa racista e xenofóbica), e os neopopulistas que sustentam o voto para o projeto MAGA entre a classe trabalhadora branca, através de propagar a possibilidade ilusória de poder recomeçar os processos de industrialização que foram abandonados mais de 40 anos atrás.

-Com respeito a política doméstica dos EUA – estamos vendo uma queda de braço entre o desejo para um “estado mínimo” e qualquer possibilidade de implementar uma política industrial. Mesmo com as tarifas, o aumento na produção industrial era pequeno (apenas 3,1% em 2025) e o saldo neto de criação de empregos encolheu, com uma perda de 68.000 empregos no ano de 2025. De fato, segundo um estudo da Federal Reserve, parece que as tarifas inibiram a criação de 19 mil novos empregos/mês. O desemprego no pais continua muito baixo (4,4% para 2025), devido à falta de mão de obra de baixa qualificação (devido em grande parte a deportação e autodeportação dos imigrantes) e ao aumento de ofertas de emprego na área da saúde e serviços pessoais, causado pelo envelhecimento da população. Não temos dados ainda sobre a sindicalização nos EUA para o ano 2025 mas com certeza continuou baixo, com a demissão dos ministros pro-sindicais no National Labor Relations Board. O direito à negociação coletiva foi totalmente eliminado para mais de 1 milhão de servidores federais, com mais de 500.00 empregos no setor efetivamente eliminados nos primeiros 6 meses do governo Trump 2.

-Para o núcleo mais ideológico do governo (os supremacistas brancas), o primer alvo político na mira era a população negra, que conseguiu a implementação de novas políticas para promover a igualdade racial no governo Biden, como produto do movimento Black Lives Matter. Outro alvo principal desse grupo e a população LGBTQI e em particular a população trans. Agora, na grande maioria dos estados dos EUA, as pessoas trans não podem competir em deportes universitários nas categorias que correspondem a sua identidade de gênero, e as pessoas trans menores de idade não tem mais acesso a cirurgias de afirmação de gênero,

-Mas a alvo principal dos supremacistas brancas do MAGA, sem lugar a dúvidas, é a população migrante. Um numero recorde de 52 milhões de pessoas que nasceram fora do país atualmente moram nos EUA. Desse numero, 55% são migrantes latino-americanos (incluindo aproximadamente 2 milhões de brasileiros), e aproximadamente 13 milhões de migrantes estão indocumentados. Estamos presenciando uma onda massiva de repressão direta contra os migrantes que remite as politicas xenofóbicas da época pos-1ª Guerra Mundial (os “Palmer Raids”). Estamos vendo um excesso de racismo misturado com xenofobia, o ICE e o BPS agora tem a permissão de abordar pessoas na rua, sem ordem judicial de captura, perfilando racialmente os residentes, em essência criminalizando o fato de ser latino em muitas localidades. Estamos vendo o sequestro generalizado de homens, mulheres e crianças, jogados dentro de campos de detenção sem o direito ao devido processo. Quase 70 mil pessoas atualmente estão nesses campos de detenção, incluindo 3800 crianças. 70% das pessoas detidas não possuem antecedentes judiciais – seu único “crime” e ser migrante latino. A guerra externa conduzido pelos EUA contra outros povos agora esta virado contra sua própria populacao, algo inedito desde os anos 60 quando vimos a repressão brutal contra o movimento dos direitos civis, e grupos de esquerda como o Black Panthers Party e Students for a Democratic Society.  Agora resta saber se os Democratas serão capazes de frear essa violência contra os migrantes nas ruas e nas urnas em novembro (nas eleições de meio-termo para o Congresso).

-A nível internacional, a política externa dos EUA sob o governo de Trump 2 se caracteriza por seu unilateralismo, sua violência simbólica, discursiva e física e sua imprevisibilidade. O Trump abandonou o “soft power” com a quase eliminação do USAID (que tem resultado na falta de distribuição de ajuda humanitária para 25 milhões de pessoas devido ao corte de financiamento da USAID em mais de 90%). A política externa via a política comercial (imposição das tarifas) não está sendo muito bem-sucedido, primeiro pela ausência de uma política industrial para reerguer os EUA como potência de Industria de alta complexidade, e segundo devido aos caprichos do Trump, quem usou a politica tarifaria para fomentar jogos de especulação financeira. Claro que as tarifas tem tido algum impacto negativo, em grande parte para países que são aliados históricos dos EUA, como a Europa e o Canada.

-Trump agora está optando pela política militar direta além da guerra híbrida praticada há anos em países como Cuba e o Ira. Mas o sentimento dos estadunidenses vai em contra de invasões terrestres, após os fracassos das guerras contra o Afeganistão e o Iraque, Segundo uma pesquisa YouGov de 19/1, 56% dos estadunidenses diziam que tem uma opinião negativa da invasão da Venezuela no dia 3/1, e 63% dos respondentes diziam que os EUA esta “se envolvendo demais” na politica interna da Venezuela. Os EUA não utiliza mais as justificativas de “trazer democracia” aos paises para qualificar suas guerras hibridas e militares, voltamos a “diplomacia dos corsários de guerra” do fim do século 19.  Cuba parece ser uma exceção a essa regra, com uma guerra econômica e discursiva sendo implementada com esmero e crueldade extrema, em nome do “anticomunismo” impulsado por Marco Rubio.

-Qual a agenda política para a esquerda no Brasil, dado esse panorama? Primeiro e essencial entrar na defensa dos direitos dos migrantes, tanto dos migrantes brasileiros que atualmente estão nos EUA e outros paises do Norte Global, quanto os migrantes e refugiados aqui no Brasil, por mais do que a nova lei de migrações no país eliminou muitas medidas discriminatórias contra os migrantes no país. Trabalhar juntos com outros movimentos sociais e políticos em defesa da soberania de todos os países latino-americanos e a favor do aprofundamento da integração latino-americana, em apoio a paz e contra o militarismo no mundo inteiro, porque um mundo desestabilizado nos impacta politicamente, economicamente e ate emocionalmente. Devemos fortalecer o alcance das ações dos movimentos sociais, para poder ter uma base social que possa se contrapor a extrema direita e qualquer ingerência estadunidense que esta por vir nos processos eleitorais e políticos na região (especialmente as eleições presidenciais na Colômbia e no Brasil este ano). E claro, esforçar muito para garantir a continuidade dos projetos democráticos-populares no Brasil com a reeleição do Presidente Lula e a recomposição do poder legislativo nas eleições de outubro deste ano.

(*) Jana Silverman é professora da Universidade Federal do ABC (UFABC)

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