
Em sua primeira disputa por um mandato legislativo, dirigente sindical bancário leva à campanha um plano construído em debates com trabalhadores, especialistas e representantes de áreas como saúde, educação, cultura, trabalho e meio ambiente
A necessidade de ampliar a representação da esquerda na Câmara Legislativa foi uma das principais mensagens de Jacy Afonso (PT) no lançamento oficial de sua candidatura a deputado distrital, nesta terça-feira (25), no Teatro dos Bancários, em Brasília. O ato reuniu sindicalistas, movimentos sociais, representantes de partidos de esquerda e aliados.
Para explicar a importância que atribui à composição da CLDF, Jacy citou o caso envolvendo o BRB e o Banco Master. Ele criticou parlamentares que apoiaram a operação e avaliou que uma bancada de esquerda mais numerosa teria ampliado a fiscalização e a capacidade de reação dentro da Casa. “Nós precisamos ampliar essa bancada”, defendeu.
O candidato estendeu o argumento às demais disputas de 2026. Pediu apoio a nomes de esquerda para a Câmara dos Deputados e o Senado, relacionou essas bancadas à sustentação de um novo governo Lula e, no Distrito Federal, declarou apoio à chapa de Leandro Grass e Dora Gomes para o Palácio do Buriti.
A disputa pela CLDF é a primeira candidatura de Jacy a um mandato eletivo depois de décadas dedicadas ao movimento sindical e à organização partidária. Segundo ele, a possibilidade de concorrer já havia surgido em outros momentos, mas a decisão foi tomada após deixar a presidência do PT-DF e avaliar o cenário político do Distrito Federal.
O lançamento ocorreu em um espaço ligado à própria trajetória do candidato. Jacy integrava a direção do Sindicato dos Bancários quando o teatro foi inaugurado, em 1996, com Fernanda Montenegro em “Dona Doida”. O local tem palco de formato elisabetano, baixo e cercado pela plateia em três lados, uma configuração que reduz a hierarquia entre quem ocupa a cena e quem acompanha, criando uma relação mais direta com o público.
Érika Kokay, hoje deputada federal e candidata ao Senado, lembrou que o teatro nasceu da proposta de um “sindicato cidadão”, aberto à população, à cultura e aos debates da cidade. “Nós inauguramos esse teatro para ofertar um espaço para a cidade, um espaço de construção de ideias e de encontros”, recordou.
A ligação de Jacy com o local também apareceu na fala de Ivan Amarante, representante do Sindicato dos Bancários. Ao recebê-lo no palco, chamou o candidato de “filho da casa” e recuperou sua passagem pela presidência da entidade e pela CUT. “Esta é uma casa de luta”, afirmou.
A trajetória começou antes dos cargos sindicais. Nascido em João Pinheiro, em Minas Gerais, Jacy perdeu o pai aos oito anos. Em 1974, sua mãe, viúva e responsável por uma família de 12 filhos, mudou-se com parte da família para Taguatinga. No discurso, ele relacionou aquela experiência ao sentido de cooperação e pertencimento que mais tarde encontraria na militância.
A aproximação com a política ocorreu no Banco do Brasil, onde começou a trabalhar como menor aprendiz em 1977. Ali conviveu com funcionários que estudavam na Universidade de Brasília em um período de mobilizações contra a ditadura militar. “Encontrar essa juventude da Universidade de Brasília foi uma injeção na veia do ponto de vista da consciência política”, contou.
Já funcionário de carreira do banco, acompanhou a reorganização sindical e os primeiros anos do PT. Foi nessa época que encontrou Lula pela primeira vez, durante uma atividade de apoio a uma chapa de oposição no Sindicato dos Bancários. Jacy se filiou ao partido e, aos 20 anos, já atuava como tesoureiro da legenda no Distrito Federal.
“Minha atuação é fruto disso, não é fruto de ação individual”, resumiu. Depois, presidiu a CUT no Distrito Federal, comandou o Sindicato dos Bancários, integrou a direção nacional da central e chegou à presidência do PT-DF.
Ruth Venceremos, candidata a deputada federal pelo PT, lembrou que sua entrada no partido teve participação direta do candidato. “Cheguei no PT pelas mãos do companheiro Jacy Afonso”, relatou.
A memória das lutas trabalhistas ganhou peso quando Jacy homenageou Gildo da Silva Rocha, trabalhador do Serviço de Limpeza Urbana e dirigente sindical morto em 2000, durante uma atividade relacionada à organização de uma greve dos garis. Jacy afirmou que Gildo foi assassinado pela polícia e associou sua morte à história de enfrentamentos do movimento sindical no Distrito Federal.
Ao recordar o sindicalista, retomou a defesa da organização dos trabalhadores. “É por isso que a gente luta para organizar o sindicato, para organizar a CUT, para organizar o partido”, declarou.
Rosilene Corrêa, dirigente sindical e candidata a deputada federal pelo PT, recuperou a convivência com Jacy no movimento sindical. “Ele é o amigo, o companheiro de luta, aquele de todas as horas, aquele que a gente tem como referência”, afirmou.
As propostas da campanha começaram a ser formuladas antes do lançamento. Nos últimos meses, Jacy promoveu debates no Sindicato dos Bancários com trabalhadores, especialistas, militantes e representantes de diferentes áreas. Os encontros trataram de saúde, educação, cultura, direitos das mulheres, desenvolvimento econômico, empresas estatais, serviço público e desigualdade.
Segundo o candidato, essas discussões serviram de base para a elaboração do plano de mandato. Uma das propostas surgidas no processo é a criação de um salário mínimo distrital. Outro encontro tratou do papel das empresas públicas, com discussões sobre Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Correios.
A pauta ambiental também apareceu entre os compromissos. Um dos materiais apresentados no lançamento traz a proposta de plantar uma muda de árvore para cada voto recebido nas eleições, dentro de uma agenda socioambiental prevista para o período de 2027 a 2030.
A chegada da Juventude do PT mudou o ritmo do ato. O grupo entrou no teatro cantando, batucando e carregando bandeiras antes de ocupar parte da plateia. Mais tarde, Jacy citou jovens que se organizaram para tirar o título de eleitor, promover atividades políticas e se filiar ao partido.
“Nós temos que investir na juventude e não temos que tutelar a juventude. Temos que dar liberdade para que esses jovens se organizem e disputem os caminhos da nossa nação”, afirmou.
Na parte final do discurso, Jacy explicitou o horizonte político de sua militância. “Para que a gente tenha uma sociedade sem explorados e sem exploradores, nós defendemos uma sociedade socialista. Esse é o meu horizonte: Brasil socialista.”
No mesmo teatro onde parte de sua trajetória sindical foi construída, Jacy encerrou o lançamento cercado por trabalhadores, antigos companheiros e uma nova geração de militantes. O lema escolhido para a campanha retoma a ideia que atravessou seu discurso ao longo da noite: “Na luta coletiva, sempre.”
Foto e texto: Michelle Catarine Machado
