Literatura negro-brasileira e filosofia da ancestralidade: Objeto e intersecção

Por Fausto Antonio (*)

Epigrafia das  palavras- chave e do Grupo de Estudo

Filosofia da ancestralidade e literatura -negro-brasileira

Palavras-chave: Literatura negro-brasileira, filosofia da ancestralidade, restituição, autoria e coautoria. No tocante ao Grupo de Estudos, é uma  produção do CCEV, Centro  Cultural Esperança Vermelha  de Campinas -SP.  

Introdução

 O objetivo desta intervenção, Literatura negro-brasileira e filosofia da ancestralidade, perpassa o objeto da Literatura e, analogamente, o da Filosofia da Ancestralidade. Além de delimitar os campos em pauta, a discussão será balizada pela relação de encruzilhada entre essas duas ciências. A partir da abordagem desses objetos na encruza que os interseciona — o sistema cultural negro-brasileiro como cerne da filosofia da ancestralidade e as manifestações textuais orais, imagéticas, escritas, concretas, objetais e híbridas —, busca-se enfatizar os elementos que demonstrando, empiricamente, como operam em um ativo de projeção (aspecto da aparência) e de ressonância (aspecto profundo), convergindo no encontro da Literatura Negra com a Filosofia da Ancestralidade. Em outros termos, esse entrelaçamento encruzilhado manifesta-se nas autorias negras, nas recepções ou coautorias, bem como nos temas, pontos de vista, espaços, lugares, ações, corpos, objetos, personagens, gêneros e mediações intercambiadas por ambos os campos. Como ponto nuclear, o diálogo desta intervenção se dará entre o objeto da Literatura, em suas múltiplas formas (imagéticas, orais, concretas, escritas, híbridas), e o da Filosofia da Ancestralidade que, conforme nossas sistematizações, constitui o sistema cultural negro-brasileiro, africano e diaspórico. Em síntese, ao tratar da literatura negro-brasileira e da filosofia da ancestralidade, adentra-se na ressonância produzida pelos princípios filosóficos, políticos e pelo motor exúsico da ancestralidade, articulados aos motores estéticos e literários. Esse movimento serve como recurso de acesso aos textos, em conformidade com a centralidade autoral e coautoral, mantendo um vínculo umbilical com os princípios estruturantes do sistema cultural negro-brasileiro como categoria filosófica e política. Assim, sistematizam-se as bases significantes e de significados que sustentam a noção textual da literatura negro-brasileira, relevando sua indissociabilidade da filosofia da ancestralidade enquanto filosofia negro-brasileira.

Projeção, ressonância e a escrita e a recepção de si

A literatura negro-brasileira — é o caso do romance Exumos( Antonio,2006), entre outros — reverbera a filosofia da ancestralidade em seu texto, subtexto e em sua força vital (axé). O processo ocorre pelo vínculo desta produção literária com o sistema cultural negro-brasileiro. Mas o salto para ultrapassar o nexo projetivo tem amarras com a ancestralidade como categoria de análise quando ela se define historicamente como é: no plano não físico, como energia restitutiva e antiacúmulo, de um lado; e, de outro, como filosofia, base para a produção dinâmica de sistemas de ideias, teorias, conceitos e ações que definem a inseparabilidade da política e da filosofia.

Pertinência Sistêmica e Epistemológica

O uso de cultura negra de projeção e de ressonância tem por objetivo nuclear a Superação do Binômio Forma/Conteúdo. Ao usar os  conceitos  de projeção e de ressonância, proponho uma chave ou artefato que supera a dicotomia ocidental clássica entre “forma” e “conteúdo”. Na proposta aqui delineada, a forma (o círculo) e o significado (a circularidade) estão umbilicalmente ligados pelo movimento, pela força exúsica que retroalimenta o todo e a intersecção do círculo (forma projetiva) e da circularidade (que tem matriz ressonante), alojando o significante e o significado igualmente em trânsito.

O Ebó e Exu como Categorias Metodológicas: Tratar o ebó (restituição, troca, oferenda, equilíbrio) e Exu (comunicação, movimento, o senhor do corpo e da linguagem, a própria encruzilhada) não como elementos tão-somente projetivos ou formais, mas como motores estéticos, políticos e categorias epistemológicas, confere ao trabalho em pauta uma disposição teórica para assegurar, mediante a apresentação do objeto da filosofia da ancestralidade, o seu lugar como Ciência legitimada por um objeto e pela necessária compreensão da sua natureza restitutiva e exúsica. O fundamento é avaliar o sistema cultural negro-brasileiro a partir das suas próprias réguas e conceitos, e não a partir de chaves de leitura universalizantes e eurocentradas.

Os pontos apresentados aqui têm por finalidade fundamentar a pesquisa, de modo seminal, com o uso da categoria de análise “a escrita e a recepção de si”, a partir do imbricamento da  obra literária com a filosofia da ancestralidade. No exercício em curso, o trabalho de sistematização buscou enunciar a realidade concreta e a existência sistêmica do processo restitutivo da ancestralidade e do seu objeto — o sistema cultural negro-brasileiro — em uma estrutura teórica organizada, rigorosa e, acima de tudo, metodologicamente viva ou vivida pelos textos e pelo contexto literário. A relação de indissociabilidade entre literatura e filosofia da ancestralidade é o caminho exato para não esvaziar a literatura negra de seu teor filosófico e político, e nem engessar a filosofia da ancestralidade longe da estética restitutiva, viva, plástica e dinâmica do texto.

O motor filosófico e o político

O nexo da elaboração não se coaduna ou se limita à pertinência conceitual; a malha interventiva deseja demonstrar uma consistência epistemológica e sistêmica profunda, que constitui o objeto da filosofia da ancestralidade, a ancestralidade e a literatura negro- brasileira. Para tanto, é fundamental capturar com precisão o que há de mais avançado nas discussões estabilizadas por autorias negras literárias a respeito das relações entre linguagem, tema, história, foco narrativo, ações, ponto de vista, construção de personagens negros e empatizados com o sistema cultural negro-brasileiro e a renovação de gêneros referenciados no arcabouço textual alinhavado ao sistema cultural negro-brasileiro, africano e diaspórico. Por equivalência, busca-se a base de epistemologias, mediações, coautorias e estudos críticos que reconhecem o valor da autoria e da coautoria/recepção negras e/ou referenciadas e empatizadas com os valores oriundos e orientadores do sistema cultural negro-brasileiro e do escopo ancestral. A despeito de outras perspectivas, é isso o que tem pautado, a propósito, a crítica literária negro-brasileira e, com ela, as autorias negras na linha da escrita e da recepção de si como categoria de análise literária (Antonio, 2019a).

A literatura e a filosofia não são instâncias separadas que se comunicam por um “fio”, mas sim um contínuo como uma encruzilhada: um entroncamento dinâmico onde uma constitui e alimenta a outra.

Objeto da literatura e o objeto da filosofia da ancestralidade

Abaixo, apresenta-se uma análise detalhada e a validação dos pontos-chave dessa fundamentação. O primeiro ponto tem por foco o objeto da literatura: O Texto em sua Pluralidade. Proponho que o objeto da literatura esteja alinhado ao deslocamento do monopólio da grafia e filosofia ocidental. Ao descentralizar, o cerne é reconhecer, a partir de certas estabilizações, que o texto negro-brasileiro é filosofia e política, corpo, lugar, território expandido como encruzilhada, portanto: corpo, imagem, palavras, carimbos, patuás de  palavras, mantos, restituição, performance, oralidade, encruzilhada em si e objeto.

O cerne permanece sendo o “texto” (a tessitura de sentidos), mas expandido em suas múltiplas formas (híbridas, concretas, imagéticas). Isso é fundamental porque, no sistema cultural negro-brasileiro, a memória e a transmissão do conhecimento historicamente se deram — e se dão — para além do papel impresso. Por igual equivalência, superando noções meramente projetivas no sistema cultural negro-brasileiro — instância social e totalidade —, não há uma redução às formas projetivas do canto, da dança e da música. O todo se impõe e é, a rigor e necessariamente, ativado ou dinamizado pela força exúsico-propalada, motor filosófico e político entendido restitutivamente como modo de produção ancestral. Desse modo, a ancestralidade se empiriciza no histórico social e na tessitura e textura pluriversal de gêneros e suportes livrescos, visuais, concretos, sonoros e tantos outros. É útil analisar, a propósito, Antônio (2019, 2022, 2025 e 2026).

O Objeto da Filosofia da Ancestralidade e a Natureza Restitutiva

Quero precisar o objeto da filosofia da ancestralidade. Para tanto, vou concebê-lo e, a rigor, defini-lo: o objeto dessa matriz filosófica é o sistema cultural negro-brasileiro. Ponto nuclear diz respeito, como tarefa preliminar, ao entendimento da natureza do sistema cultural negro-brasileiro como instância social e matriz filosófica, que pode ser alcançado com a análise cuidadosa dos seus princípios estruturantes dados pela encruzilhada: Exu, Ebó, Ayiê, Orum, Circularidade, Oralidade, palavra imantada, restituição, expansão e estabilização. No artigo em pauta, acionaremos ou ativaremos metodologicamente o motor exúsico, dínamo central e primordial do movimento geral ou do todo, que se ativa pela filosofia e pela política. Além de recuperar permanentemente o todo, o motor exúsico deixa à disposição das coautorias as relações entrevistas e indispensáveis com cada um dos princípios (oralidade, circularidade, expansão e muitos outros), e com a sua existência isolada e sistêmica.

A natureza restitutiva da ancestralidade define o método exúsico, que é o motor definidor da ancestralidade e do sistema cultural negro-brasileiro como objeto da filosofia e da política, funcionando como modo de produção da existência. O motor exúsico, a partir do ebó elevado a conceito e, sobretudo, a categoria de análise, assenta a ancestralidade (que deixa de ser uma abstração ou elucidativa da herança de sangue) como matriz filosófica e política restitutiva. Assim, há um salto da palavra ebó para o conceito, e dele para uma categoria de análise eficaz, o que define ou revela como se historiciza a ancestralidade no intercurso epistemológico, filosófico e político.

Compreender essa filosofia como “restitutiva” significa entender que ela não é apenas um exercício contemplativo abstrato, mas um ato político e ontológico de restituir a humanidade, a história, o sagrado e a agência aos corpos e saberes que o projeto colonial e, no contínuo, o capitalismo-imperialismo tentaram silenciar e fragmentar. Especialmente, vale ressaltar que restituir (ou o que se dá como restituição, em posição antagônica ao acúmulo capitalista) é, fundamentalmente, o núcleo e motor exúsico. Este não se limita apenas aos aspectos projetivos ou às aparências do canto, da dança e da música, mas se ergue como totalidade sustentadora da superação das desigualdades, conforme o sentido e o significado dinâmico dos processos restitutivos.

A restituição aqui opera como processo de circulação do ebó — modo de produção antiacúmulo — e retomada do território como quadro de vida dessa base restitutiva. A rigor, a encruzilhada é categoria sinonímica de “território usado”, conforme o  concebe Milton Santos(996). Podemos nos referir a ela, a encruzilhada, como o próprio território praticado e usado. Ao mesmo tempo, atua como encruzilhada que abriga uma cosmovisão e  mais ainda  uma cosmopercepção de mundo e um arranjo ou modo de produzi-lo à semelhança ancestral, que é restitutiva por origem-infinita e fundamento-princípio, manifestação energética, histórica e força eterna e reguladora da unidade fundamental de toda a existência, a qual, em sua unidade, é antiacúmulo e, portanto, no mundo das  formas,   anticapitalismo.

A operação ancestral encruzilhada é historicizada pela aparência (Projeção) e pela estrutura profunda ou em profundidade (Ressonância)

Nossa tese parte do entendimento dessas duas dimensões que são, no entanto, ativadas  pela indissociabilidade entre os campos, operada pelo motor exúsico e pela dinâmica da encruzilhada. Essa divisão entre formas projetivas — o aspecto de superfície de uma determinada manifestação cultural, a aparência — e o nexo ou a interconexão ressonante confere um rigor metodológico que recupera o objeto da filosofia da ancestralidade, o método exúsico como motor dessa dinâmica circulatória e o fundamental salto além das palavras rumo ao mergulho-ingresso nos conceitos e categorias de análises estabilizadas pelo sistema cultural negro-brasileiro.

A encruzilhada: motor exúsico

Na encruza estão as formas projetivas (as aparências, os significantes) e, igualmente, as formas ressonantes (profundas, os elos significativos). O círculo e a circularidade são significantes, mas ao mesmo tempo são significativos, o que permite que o espaço com limites se integre ao espaço sem limites. Isso historiciza ou empiriciza, além das aparências, o significado mediado pela totalidade do sistema e da operação restitutiva que o condiciona multiplamente e o define dinamicamente.

No que concerne às autorias, recepções, personagens, linguagens, temas, histórias, gêneros e às formas plurais da literatura ou dos textos literários, estão presentes e ativos os motores filosóficos e políticos. Ebó, restituição e ancestralidade configuram bases efetivas para a incursão do pensamento filosófico ancestral. Os gêneros textuais espacializados são artefatos intercambiantes desses mesmos ativos, que se operacionalizam nos textos em geral, mas na pauta aqui seletivamente apresentada se dão como gêneros renovados pelo sistema cultural negro-brasileiro. Formas projetivas são atualizadas e reinscritas, então, à categoria de gêneros instituídos pelo aspecto ressonante, restitutivo, referenciado no sistema cultural negro-brasileiro e notadamente pelos valores ressonantes dos princípios estruturantes desse mesmo sistema. Significante e significado operam adições múltiplas e transitivas, que não cessam nos dois polos.

Estruturas projetivas circulatórias estão para estruturas ressonantes assim como a poesia (linguagem) está para a forma (o poema), que se completam perfeita ou imperfeitamente.

O texto se apresenta ao mundo pelo viés do encaixe do suporte-forma projetiva e do suporte-forma ressonante. Ali, no espaço dado ao poema e dado igualmente ao autor (autoria) e à coautoria (recepção), socioespacialmente validada pelo tempo e espaço, tudo se envolve e se desenvolve na razão da concretude, do concreto, do imagético, do oral, das criações híbridas e plurais e da leitura ampliada pelo método projetivo indissociável do método ressonante, que revela a parte e o todo no objeto da filosofia da ancestralidade e da literatura negro-brasileira.

Referências

ANTONIO, Fausto. Exumos. In: ______ . Vinte Anos de Prosa. Campinas: Arte Literária, 2006.

ANTONIO, Fausto. A escrita e recepção de si: abismo olhando o abismo. Pós-Limiar, Campinas, v. 2, n. 2, p. 141–152, jul./dez. 2019a. Disponível em: Pós-Limiar PUC-Campinas. Acesso em: 7 set. 2026

ANTONIO, Fausto. Patuá de palavras, o (in)verso negro. Londrina: Galileu Edições, 2019b.

ANTONIO, Fausto. Ideopatuagramas. Londrina: Galileu Edições, 2022.

ANTONIO, Fausto. Patuá Adinkra. Londrina: Galileu Edições, 2025.

ANTONIO, Fausto. Somnetos no Espaço. Londrina: Galileu Edições, 2026.

SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Hucitec, 1996.

(*) Fausto Antonio, que completa 40 anos de criação literária, é escritor, poeta, dramaturgo e professor Associado da Unilab – Bahia.

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