Por Júlio Quadros (*)

A disputa política no Rio Grande do Sul indica uma grande possibilidade de mudança. Isto é o que indicam as pesquisas eleitorais. Uma delas que nos foi apresentada, feita pelo Instituto Travessia, demonstra que 44,8% dos gaúchos querem uma mudança total de rumos. Já 38,3% dos gaúchos querem uma mudança parcial e apenas 14,73% querem a continuidade do atual projeto.
Existe, na prática, um esgotamento do projeto neoliberal representado pelos 12 anos de Sartori (MDB) e Leite (PSDB/PSD). A ideia de que a redução do papel do estado, com privatizações, terceirizações e retirada das conquistas dos servidores públicos, garantiria uma poupança capaz de gerar um novo ciclo de desenvolvimento chegou ao seu esgotamento. Não foi entregue o anunciado e, pelo contrário, mesmo tendo recebido do governo federal a suspensão do pagamento da dívida pelo período de três anos, em função das enchentes de 2024, o ano de 2027 prevê um déficit de 4,8 bilhões de reais, segundo o próprio governo.
Exatamente por isto, o atual governador tentará fazer anúncios, como a contratação de 5 mil novos professores, além de divulgar dados sobre a imagem do estado. Precisamos estar atentos, mas é pouco provável que o sentimento de mudança, amplamente majoritário, seja alterado.
Nesta disputa, se apresentaram os seguintes candidatos: Cesar Pontes, do PCO (Partido da Causa Operária); Gabriel Souza, do MDB (Movimento Democrático Brasileiro); Juliana Brizola, do PDT (Partido Democrático Trabalhista); Marcelo Maranata, do PSDB (Partido da Social-Democracia Brasileira); Priscila Voigt, da UP (Unidade Popular); Rejane Oliveira, do PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado); e Luciano Zucco, do PL (Partido Liberal). O Partido dos Trabalhadores, através de Edegar Preto, está na vice da Frente Ampla liderada por Juliana Brizola.
Gabriel Souza (MDB), atual vice-governador e apoiado pelos partidos que sustentam Eduardo Leite, enfrenta três enormes dificuldades. A primeira refere-se à avaliação que, agora, é negativa do Governo Leite; a segunda se dá pela tentativa de permanecer carregando a bandeira da terceira via; e, por fim, por apoiar um candidato à Presidência (no caso Caiado) de maneira formal. Tudo indica que esta estratégia não levará, pelos dados atuais, este candidato ao segundo turno. A história deve registrar o encerramento deste terceiro ciclo de neoliberalismo no RS.
Os candidatos que representam a oposição a este projeto e carregam a ideia da mudança são: Luciano Zucco, candidato do PL, que tem Silvana Covatti, do PP, como vice e apoiado pela maioria que ficou no PP e todos os bolsonaristas do Estado; e, do lado da centro-esquerda, Juliana Brizola candidata do PDT, tendo Edegar Preto do PT como vice, com o apoio do PSB, PCdoB, PSOL, PV, REDE e Avante.
Juliana carrega toda a simbologia do trabalhismo, além do imaginário popular por ser neta do ex-governador Leonel Brizola. O apoio do Partido dos Trabalhadores acabou dando a esta candidatura uma força política, social e militante capaz de levar ao 2º turno. Nas pesquisas recentes, Juliana e Zucco aparecem empatados na faixa dos 26% e o candidato governista amarga um percentual de 6%.
O lançamento de Juliana e Edegar, na convenção do dia 25 de julho, foi uma demonstração de força, pois mais de 4 mil pessoas se reuniram na Casa do Gaúcho.
O candidato do PL representa o que existe de mais conservador e reacionário, defende as escolas cívico-militares e todo o legado bolsonarista.
O caminho do PT
Esta é a primeira vez que o Partido dos Trabalhadores não apresenta candidato ao governo gaúcho. Houve uma decisão nacional que alterou a construção que vinha sendo feita no estado.
É também a primeira vez que PT e PDT se unificam, já no primeiro turno, em uma disputa eleitoral no Rio Grande do Sul. Em outras duas oportunidades, o apoio mútuo no segundo turno foi fundamental para a vitória de uma candidatura popular.
A primeira vez foi em 1990. Tarso Genro foi o candidato do PT/Frente Popular e Alceu Colares foi o candidato do PDT. Colares chegou ao segundo turno contra Nelson Marchezan, do PDS. O PT apoiou Colares no segundo turno e este foi vitorioso, com quase 60% dos votos válidos.
A segunda vez foi em 1998, quando PT e PDT fizeram um acordo político de lançar chapas separadas e se unificar no segundo turno. Naquela época, Olívio Dutra (PT) e Emília Fernandes (PDT) foram candidatos ao governo e se unificaram em torno de Olívio Dutra no segundo turno. Olívio venceu a eleição, uma das mais empolgantes e dramáticas da nossa história.
Os dilemas e escolhas da estratégia
A onda que percorre o estado é de mudança e, portanto, uma mudança com conteúdo popular é viável. Na mesma pesquisa citada acima, quando perguntado sobre quem representa a mudança, ambos empatam com 26%, Juliana Brizola e Luciano Zucco.
Portanto as escolhas estratégicas vão cativar e ganhar o eleitorado para uma ou outra proposta.
Um primeiro dilema diz respeito ao tamanho da oposição ao atual projeto e governo. O Programa de Governo de Juliana e Edegar registrou: “Nosso estado encerra um ciclo político de 12 anos, marcado pela promessa de que a redução do papel do estado, as privatizações e a retirada de direitos do funcionalismo nos levariam ao crescimento, e a verdade é que não se cumpriu o prometido, ao contrário, a LDO de 2027 prevê um déficit de R$ 4,8 bilhões, ao mesmo tempo em que não se aplicam os mínimos constitucionais em Saúde e Educação”. Mas existem setores que defendem uma oposição menos tenaz. É uma escolha fundamental na disputa gaúcha.
O segundo dilema diz respeito ao papel e à presença da candidatura de Lula no solo gaúcho.
Com o derretimento de Leite e de seu candidato ao governo, Gabriel Souza, a tendência é que haja uma polarização repetindo a disputa nacional. Portanto será uma disputa de projeto contra projeto, de chapa contra chapa. Nossa campanha deve levar Lula, Juliana, Pimenta e Manuela. Não teremos outras alternativas. A fragmentação vai nos fragilizar.
Por isto, a nossa militância, acertadamente, canta: É Lula Lá, Juliana Aqui e o Povo no Piratini. Esta é uma palavra que a militância do Partido dos Trabalhadores e dos partidos que compõem a frente cantam. Ela representa uma vontade e decisão política. Ou seja, a chapa, militância e campanha estadual devem assumir e colaborar para que Lula volte a ganhar a disputa presidencial no RS. A última vez que isto aconteceu foi em 2002. Pelos dados que tivemos acesso, hoje o candidato do PL teria em torno de 35% das intenções e Lula em torno de 31%. Ou seja, é possível vencer a eleição com Lula no RS, mas não pode ter vacilo e confusão. A campanha não pode ter candidatos e partidos, que com medo de perder votos, não apresentem Lula ou falem pouco sobre o nosso candidato.
E a campanha deve defender o significado do nome de Juliana Brizola, o legado de seu avô, e ganhar corações e mentes dos gaúchos e gaúchas, buscando alinhar o Rio Grande e o Brasil, e assim criar condições para enfrentar problemas estruturais como a reconstrução do Rio Grande e o enfrentamento ao tema da dívida.
Por fim, na disputa ao Senado, é Pimenta e Manuela. Pimenta ocupando a vaga do PT que hoje é de Paulo Paim e Manuela destronando a vaga de Heinz (do PP) e não deixando a extrema-direita ocupar esta vaga.
(*) Júlio Quadros é membro do Diretório Nacional do PT, membro da Direção Nacional da AE e vice-presidente do PT do RS.
