Por Sergio Sintra

Flávio Bolsonaro promete levar ao SUS inteiro o padrão do Einstein: hora marcada, exames ágeis, tecnologia de ponta. Para isso, escolheu como futuro ministro da Saúde Cláudio Lottenberg, ex-presidente do hospital. É uma promessa sedutora.
Mas o Brasil não precisa imaginar como seria um SUS “padrão Einstein”.
Ele já existe.
Fica no extremo sul de São Paulo e se chama Hospital Municipal Dr. Moysés Deutsch – M’Boi Mirim, administrado pela organização social CEJAM em parceria com o Einstein há quase duas décadas.
A sala de emergência do Hospital Municipal M’Boi Mirim, na zona sul de São Paulo, passou a maior parte de 2026 com mais de 60 pacientes, chegando a 73. Ao mesmo tempo, metade da UTI adulto do hospital está fora de operação, parte dela fechada há mais de um ano para uma reforma que, segundo profissionais da unidade, nunca foi comunicada oficialmente à central que regula as vagas da região.
Os relatos aqui registrados foram feitos por médicos, médicas, enfermeiros, técnicos de enfermagem e conselheiros. Todos pediram para não ser identificados por medo de represálias.
73 pacientes, quatro médicos
Segundo uma médica emergencista que trabalha no setor, a sala de emergência teve mais de 60 pacientes durante a maior parte do ano, com pico de 73. Para atendê-los, há quatro médicos por plantão. A mesma equipe é referência regional para trauma, AVC, infarto e pacientes em hemodiálise e outras doenças graves que precisam de atendimento de urgência.
Na prática, cada médico chega a responder por 20 pacientes ou mais. Há relatos de que os emergencistas da unidade ficarem responsáveis por 23 pacientes em um único plantão. A Resolução 2.077/2014 do Conselho Federal de Medicina prevê, na área de observação dos prontos-socorros, ao menos um médico para cada oito leitos; na sala de reanimação, um para cada dois. A mesma norma proíbe a internação de pacientes no pronto-socorro e limita a permanência no setor a 24 horas.
Não há banheiro na sala. Segundo profissionais do setor, pacientes acamados chegam a passar horas sujos das próprias fezes até que a equipe, sobrecarregada, consiga fazer a higiene.
A UTI fechada há mais de um ano
No Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), do Ministério da Saúde, atualizado em outubro, o hospital declara 60 leitos de UTI adulto. Segundo profissionais ouvidos, 20 deles estão fechados para reforma há mais de um ano, sem comunicação oficial à central que gerencia as vagas. Outros dez, cadastrados como UTI, funcionam na prática como leitos da emergência. O hospital opera, assim, com cerca de metade da UTI que declara.
Como a regulação continua contando com essas vagas, os pacientes continuam sendo encaminhados. Os mais graves, que deveriam estar na UTI, ficam na sala de emergência.
Os planos que não saíram do papel
De acordo com os relatos, a equipe da emergência mapeou o impacto do fechamento ainda no início da reforma: a demanda no setor aumentaria, e os pacientes que ficariam ali seriam mais graves. A diretoria prometeu planos de contenção de danos. Segundo os profissionais, nenhum foi executado.
Houve propostas para deslocar técnicos de enfermagem e médicos da emergência para a UTI. Nenhuma foi efetivada. Não houve novas contratações para reforçar a emergência. E os funcionários da UTI fechada foram demitidos, em vez de remanejados para o setor que passou a receber seus pacientes. “Apenas sucateamento e demissão em massa”, resume um dos médicos ouvidos.
Troca de equipe
Segundo o painel da saúde do Tribunal de Contas do Estado, citado pelo g1 em setembro, o hospital perdeu 241 médicos entre 2024 e 2025, enquanto o número de atendimentos crescia. A Prefeitura contesta: afirma que o quadro passou de 416 para 415 médicos no período e que hoje são 443, contando plantonistas e diaristas.
Para os profissionais ouvidos, os números escondem a mudança de perfil. Eles relatam que, em 2026, o hospital dispensou boa parte dos especialistas e dos médicos contratados em regime CLT, muitos com anos de casa. Os substitutos são, em sua maioria, médicos recém-formados contratados como pessoa jurídica.
Enfermagem no limite
Enfermeiros e técnicos ouvidos relatam que há mais pacientes do que a equipe consegue atender e que não existe local de descanso durante o plantão. Desde 2023, a Lei 14.602 obriga instituições de saúde, públicas e privadas, a garantir à enfermagem condições adequadas de repouso durante todo o horário de trabalho, em local destinado a isso.
O desgaste aparece nos números da própria instituição. Segundo dados do Serviço Especializado em Segurança e Medicina do Trabalho (SESMT) do hospital, em 2026 oito em cada dez profissionais de enfermagem tiveram rastreamento positivo para ansiedade ou depressão.
Um ano de alertas
Os problemas vêm sendo registrados publicamente desde que a reforma da UTI começou.
- Julho de 2025: a Prefeitura admite, em nota, que pacientes estavam sendo acomodados em “salas de transição” à espera de transferência.
- Outubro de 2025: reportagem da TV Globo mostra pacientes graves internados em cadeiras. Um idoso vítima de AVC dormiu três dias numa poltrona da sala de medicação; um paciente com falência renal passou quase seis dias sentado; um paciente traqueostomizado que precisava de UTI ficou cinco dias sem banho na enfermaria. As imagens mostravam banheiros com mofo e roupas de cama sujas. “É desumano. Não cabe ninguém aqui dentro”, disse uma visitante.
- Janeiro de 2026: um portal de notícias da região mostra uma paciente com dores lombares internada sentada numa cadeira. A Prefeitura não respondeu ao portal.
- Maio de 2026: em relato anônimo a uma página comunitária, uma familiar afirma, com base em informações de funcionários, que a sala de emergência tinha 64 pacientes num espaço para 25, com reanimações e óbitos ao lado dos demais pacientes.
- Setembro de 2026: o SP1 encontra ao menos 50 pacientes em macas na sala de emergência à espera de leito. “Você não consegue se mover dentro da sala”, disse a irmã de uma paciente que teve um infarto.
Denúncias sobre as obras
Profissionais afirmam que, em 2025 e 2026, denúncias de suspeita de superfaturamento nas obras de reforma do hospital foram encaminhadas ao Ministério Público. Até a redação deste texto, não há notícia de apuração.
O custo da reforma, a empresa responsável e o prazo de reabertura dos leitos são perguntas que a Prefeitura ainda precisa responder publicamente.
O que dizem Prefeitura, CEJAM e Einstein
Em outubro de 2025, a Secretaria Municipal da Saúde afirmou que acompanhava os casos e que o hospital passava por um processo de reorganização para ampliar a capacidade de atendimento. Em setembro de 2026, disse que acompanha a prestação dos serviços e adota as medidas necessárias para garantir assistência adequada. A Prefeitura destaca que o hospital mantém a acreditação de excelência da Organização Nacional de Acreditação (ONA).
O selo e o corredor
No papel, o M’Boi Mirim é uma vitrine: acreditação de excelência da ONA e lugar entre os melhores hospitais públicos do país, segundo a Prefeitura. Nenhum selo mede uma sala de emergência com o dobro da capacidade. Nenhum certificado registra o paciente que passa seis dias sentado. Nenhum indicador conta as famílias que, segundo a própria reportagem da Globo, têm medo de denunciar por receio de represália.
Nada disso é culpa de quem trabalha lá. Os próprios familiares reconhecem que médicos e enfermeiros são atenciosos. São esses profissionais que sustentam, no braço, um hospital que opera muito além da sua capacidade.
A pergunta que importa
Cláudio Lottenberg, que presidia o Einstein quando a instituição assumiu a gestão do M’Boi Mirim, defende que o SUS melhore a gestão antes de receber mais recursos. O M’Boi Mirim é a prova do que essa receita entrega: gestão sem leitos, sem equipe e sem transparência produz selo, não cuidado.
Antes de levar o “padrão Einstein” ao Brasil inteiro, é preciso cobrar o que ele deve à zona sul de São Paulo: a reabertura e a transparência dos leitos de UTI, a apuração das denúncias sobre as obras, equipes dimensionadas pela demanda real, descanso digno para a enfermagem, tempos de espera publicados, contratos abertos e controle social de verdade.
Se o padrão é este, o Brasil tem o direito de saber antes de escolher.
