É preciso saber envelhecer

Por Natália Sena (*)

Plenária de fundação do PT, Colégio Sion. São Paulo, SP. 10/02/1980
Fotógrafo: Jesus Carlos. Acervo: JC fotografia

No dia 10 de fevereiro de 2026, o Partido dos Trabalhadores vai comemorar 46 anos de fundação. A comemoração vai acontecer no dia 7, em Salvador, Bahia. Certamente haverá discursos muito bonitos acerca de nossas qualidades, de nossos êxitos e de nossas tarefas futuras.

Tudo isso (ou quase) será verdade. Mas acho que dentro do coração de cada petista convivem pelo menos duas certezas. Uma é a de que valeu e segue valendo a pena construir o PT. A outra é de que nosso Partido está enfrentando dilemas que, se não forem bem resolvidos, podem deixar os êxitos no passado.

E quais são esses dilemas? Imagino que cada petista tenha a sua lista própria. A nossa inclui vários itens, e é sobre isso que falo a seguir.

Nosso partido está envelhecendo rapidamente. A preços de hoje, 47% dos nossos filiados e filiadas têm acima de 50 anos. E apenas 6% têm abaixo de 29 anos.

Nosso partido está perdendo capilaridade organizada junto à classe trabalhadora. Individualmente, os petistas têm familiares, vizinhos, colegas de trabalho, de escola e de lazer. Mas, como Partido, como força coletiva, não estamos presentes no cotidiano da classe trabalhadora como deveríamos estar. Um exemplo disso: Lula recebeu 60 milhões de votos em 2022, ano em que havia apenas 8 milhões de trabalhadores sindicalizados em todo o país. Parte expressiva de nosso eleitorado não está nem ao menos sindicalizada.

Como decorrência disso, nosso Partido perde capacidade de mobilização. Fora dos períodos de campanha eleitoral, temos dificuldades crescentes para colocar nosso próprio povo na rua. E, se nós mesmos não vamos para a rua, como é que vamos atrair outros setores?

A perda de capacidade de mobilização está diretamente vinculada ao mal funcionamento das chamadas instâncias partidárias (núcleos, setoriais, zonais, diretórios municipais, estaduais e nacional).

Ao mesmo tempo em que as instâncias funcionam mal, os mandatos parlamentares e os governos vão se tornando centros de formulação e decisão que, pouco a pouco, vão substituindo o Partido.

Como as eleições, mandatos e governo têm grande importância na vida do PT, nossa vida interna passa a ser contaminada pelos hábitos arraigados da institucionalidade. Um dos momentos em que isso fica cada vez mais nítido é no PED, o processo de eleição direta das direções partidárias. Os defensores deste sistema eleitoral o consideram um exemplo máximo de democracia. Mas não conseguem negar que exista filiação em massas, compra de votos, uso da máquina e fraudes de todo tipo.

Apesar (ou por causa) da vida eleitoral estar ganhando cada vez mais importância no dia a dia do PT, nosso Partido também está declinando eleitoralmente. Esse declínio é muito evidente em alguns casos (nas disputas municipais, por exemplo; na região Norte, outro exemplo). E é menos evidente na disputa presidencial. Mas, mesmo nesse caso, há um declínio mascarado pelo crescimento do número absoluto de eleitores. Quando olhamos o percentual de votos válidos, percebemos, por exemplo, que – apesar de termos vencido – nossa votação em 2014 (Dilma) e em 2022 (Lula) foi proporcionalmente menor do que nos anos anteriores.

Os dilemas do PT incluem, ainda, uma perda crescente de perspectiva estratégica e de norte ideológico. Num partido com 3 milhões de integrantes, é óbvio que há de tudo um pouco. Se não houver um trabalho permanente de formação política de massa, a tendência é que o petismo deixe de ser socialista e passe a ser, no máximo, trabalhista. E, se não houver uma direção política adequada, a tendência é que o petismo só consiga enxergar a tática (por exemplo, a próxima eleição) e perca qualquer visão estratégica (acabar com o capitalismo, fazer uma revolução no Brasil, mudar o mundo).

O paradoxal é que, apesar de todos estes defeitos, o PT continua sendo o inimigo principal da classe dominante brasileira. Além disso, não está no horizonte a possibilidade de o PT vir a ser superado por outro partido de esquerda. Pelo contrário, a maioria dos partidos de esquerda que existem no Brasil giram ao redor do PT. Sendo que alguns têm a maioria de nossos defeitos e não têm a maioria de nossas qualidades.

Assim sendo, nosso principal desafio é fazer de tudo para corrigir os problemas do PT. Pois uma coisa é certa: no tempo de nossas vidas, a mudança do Brasil em favor da classe trabalhadora só será feita com o PT.

(*) Natália Sena é integrante da Executiva Nacional do PT.

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