Epigrafia do ovalado caracol em cruz
A senda, fixada pelo ocorrido, não se resumia à extensão do momento. O que era o tempo? O que é o tempo-espaço no transcurso e no pós-transcurso carnavalesco? As respostas estavam contidas no ovalado caracol em cruz; nada aquém e nada além se dava por inteiro ou sem as múltiplas voltas. O retido em cada volta era devolvido numa porção ínfima e quase imperceptível. Ali crescia o sentimento de incompletude, boca imensa e insaciável.

Por Fausto Antonio (*)
Depois da separação, Kenya Amara retornou ao convívio do mundo e ao calor literal do Carnaval. As memórias afetivas estavam no limbo; às vezes, escorregavam e apertavam o peito. Ela punha e repunha, na voz interna, aquilo que assegurava o entendimento do fim do casamento. Repetia:
— Casamentos acabam sempre pelo risco que é sempre sim pelo não.
Além dessas serpentes, sibilantes elegias do sim e do não, há a fuga dos fatos. A despeito dos mascaramentos , que entram como incompreensões, incompatibilidades e outras falsas querelas, tudo, na verdade, seria facilmente transponível pelo amor. Enfatizava:
— O fim do casamento, caracol em cruz, é sempre um caprichoso, procurado e garantido envolvimento com “o fruto proibido”. Era “o apego pelo liso apelo daquele visgo”.
Mas o que importa é que era Carnaval, e ela voltava ao rito das máscaras. Inspirada pelo passado, sentia saudade de outros carnavais. Havia outros laços e um mosaico de cores, objetos, corpos, imagens e sentimentos na encruzilhada desse retorno às ruas.
Carnaval era sinônimo de viver e conviver no trânsito dos cortejos e no labirinto das voltas pelas praças, túneis, pontes e vielas apertadas. Dos carnavais passados, restou a saudade; do recente, a presentificação do reencontro com a música que rodava como um girassol de fogo verde-vermelho que queimava imensamente: ‘Eu sou aquele Pierrot que te abraçou e te beijou’.
A máscara negra ganhou vida própria; ela era inseparável do corpo. Ela era o corpo e tinha, portanto, vida e identidade. No turbilhão da convergência dos momentos, Kenya Amara deu vida à máscara, que poderia ser uma segunda natureza dela. Num precipitado nexo do tempo passado , presente e futuro, a festa, para ela, chegou ao fim, ao início e ao futuro pela via da saudade. O que segue na senda da máscara é um fino e incontido sentimento de saudade, que alarga o instante.
Kenya Amara alinhou com as mãos a carapinha, retirou a máscara negra e repousou o olhar sobre a multidão que ainda festejava.O que seria intraduzível naquela manhã de Carnaval? No mesmo momento em que se retirava fisicamente do cortejo de rua, passaram por ela duas jovens.
— Estou exausta e feliz! — falou a que portava roupas tingidas de azul e branco.
A outra, alta e com roupas vermelhas e leves, completou:
— Estou cansada e triste!
Aquela que vestia branco e azul, visivelmente feliz, trazia uma máscara a condizer; em contraste, a máscara vermelha ocultava a face da carnavalesca que se sentia triste.
Ninguém poderia, com certeza, saber o real significado e, menos ainda, a extensão da felicidade ou da tristeza. Estar ou ser triste — ou feliz — não era algo tão facilmente traduzível, o que dirá perceptível, especialmente no movediço espaço carnavalesco. Até mesmo o cansaço tinha um significado que, muito provavelmente, escaparia ao dicionário e, destarte, ao trivial. Era aconselhável não levar a sério os significados: eles se derretiam. Afinal, era carnaval.
A festa ainda fervia e as impressões, curiosamente, divergiam. Não havia palavra capaz de traduzir o que o Carnaval representara para elas. Era como a imagem de um redemoinho em giro tão alucinante que alguém, inadvertidamente, humanizou o movimento veloz na figura de um ser de uma perna só. Ao humanizarmos a força do universo, criamos uma segunda natureza; esta não se humaniza por si, mas pelo espelho invertido do nosso olhar. Será, então, que a festa carnavalesca possui , pela equivalência do nosso olhar deformado ou criador , uma segunda natureza, que já não é a real, mas sim aquela percebida pelos nossos afetos e sentidos?
Retrospectivamente, a Máscara Negra ocupou o lugar de uma pessoa. Houve, primeiro, o encanto pelo outro , como um pulso aberto que, ao perder o sangue, irrigava o corpo com o espírito, que era carne e fogo. Eram as memórias que dilatavam o tempo e o espaço. Não fora há tanto tempo o encontro; no entanto, era lembrado ; ou melhor, evocado, como um véu de escuro total que se abria e fechava como um útero, criando agora não apenas a vida, mas a sua epifânica e umbilical relação com a eternidade dos instantes.
No tempo-espaço, ficou o enunciado-chave: — A máscara é sua!
Ela recolheu a máscara negra. No alto, acima ou além do tempo e do espaço, ecoou um som de vozes intercaladas com imagens. Mas o que ouvira? Como eco e ressonância da egrégora do ovo amoroso, aquilo fez com que ela ficasse, por instantes, paralisada e movida — envolvida pela música:
“Foi bom te ver outra vez
Está fazendo um ano
Foi no carnaval que passou
Eu sou aquele Pierrot
Que te abraçou
Que te beijou, meu amor
Na mesma máscara negra
Que esconde teu rosto
Eu quero matar a saudade
Vou beijar-te agora
Não me leve a mal
Hoje é carnaval”
Embora a máscara sintetizasse o encontro fugaz, tornara-se agora o corpo de um momento irrepetível, salvo pelo desejo emoldurado na impossibilidade. Esta, a arquitetura da utopia, logo se desfazia e refazia pelo nexo improvável do vir a ser. O amor como impossibilidade era o motor do afeto estendido além dos limites: fechou-se num caracol de múltiplas voltas, encontros e partidas. O que era o início; o que era o fim?
Como distinguir os sentimentos no caracol? No moinho de sentimentos, provavelmente aquela jovem feliz e de carapinha exposta, com roupas tingidas de azul e branco, fora embalada pelo sol azul do Afoxé Ylê Ogum, cortejo tradicional de Campinas. As dúvidas se erguiam e depois sumiam no mesmo arco projetivo e se transformavam numa ressonância, engolindo o abismo. Quem engole o abismo é o próprio abismo; logo se ergue ou se oculta nele e, com ele, o mistério.
A senda, fixada pelo ocorrido, não se resumia à extensão do momento. O que era o tempo? O que é o tempo-espaço no transcurso e no pós-transcurso carnavalesco? As respostas estavam contidas no ovalado caracol em cruz; nada aquém e nada além se dava por inteiro ou sem as múltiplas voltas. O retido em cada volta era devolvido numa porção ínfima e quase imperceptível. Ali crescia o sentimento de incompletude, boca imensa e insaciável.
Ela estava se autorreconhecendo num episódio, mas qual o lugar ou quais os lugares ocupados pela multidão em transe? Afinal, é Carnaval. Mas há o lugar fixado pelo inesperado acaso, não há? Emergem certas individualidades e contrapartes afetivas. No balanço interligado de encontros e desencontros, a multidão, amarrada por um cordão único, dança, canta e põe os corpos em rotação festiva.
Mas também existiam espirais afetos e uma profusão de desencontros que, rigorosamente, eram encontros. A despeito das contradições, elas presentificavam circularmente os momentos que se precipitaram nas memórias. Talvez não no lusco-fusco ou no relâmpago, mas no escuro, erguia-se como um poço insondável aquilo que a memória era: uma água corrente e incansável. O devir memorialístico dava-se como alimento, ou como a própria vida e a morte, compondo-se pelas fendas e pelas encruzilhadas que se estendem em profundidade.
Kenya Amara guardou a máscara no alto do armário. O Carnaval era a filosofia do ovalado caracol em cruz. O amor? O encontro? O início? O meio? O fim? Pois bem: — Não me leve a mal, o Carnaval é a filosofia da encruzilhada, do múltiplo vir-a-ser. A carnavalização, no jogo do avesso, é a filosofia das máscaras.
(*) Fausto Antonio é professor Associado da Unilab – Bahia, escritor, poeta , dramaturgo e componente do Afoxé Ylê Ogum.
Referências
Máscara Negra música de Zé Keti e Pereira Matos
ANTONIO, Fausto. O fruto proibido. In: Patuá de palavras: o (in)verso negro. Londrina: Galileu, 2019.

Uma resposta
Sempre interessante ler seus contos pelo vai e vem do texto. Penso que o Carnaval, máscaras, fantasias, cortejo e tudo o mais celebra a Vida. Com seu vai e vem , ir e vir, ser e não ser. Giramos nessa roda da vida com seus encontros, desencontros, Alegrias e tristezas, felicidades e desencantos. Essa é a magia. Esse é o enigma. Valeu Faust