Aprendendo a viver em Havana

Por Soraya Zanforlin (*)

Estamos em Havana há 20 dias. Já passamos por apagões, falta d’água e recebemos mensagem de fake news acerca da situação cubana, vimos a chegada de ajuda humanitária – Comvoy e Nuestra América, vimos algumas poucas gotas de combustível liberado, a criação de lei para investimento de cubanos que vivem exilados e expatriados em Cuba.

Respiramos fundo, e tocamos a vida como nossa vizinhança faz. Faltou luz? Uma hora chega ou não, lance mão da lanterna devidamente carregada com luz solar, e, ao mínimo sinal de que a luz chegou, coloque tudo a carregar. Faltou água? Há de aprender a economizar e ter alguma em estoque para quando houver falta. Dá-se um jeito para tudo aqui. Há de cultivar a paciência e ser criativo.

O bloqueio energético existe há 65 anos. Faz parte da vida. Desta vez, não está pior do que quando a URSS caiu na década de 80, dizem alguns. Vivemos sempre com água até o pescoço, dizem outros.

Sabemos que estamos numa condição muito, mas muito privilegiada. Não estamos longe do centro da cidade e tampouco vivemos num bairro sem infraestrutura. No entanto, podemos perceber que, com a criação das Mipymes – Micro, pequenas e médias empresas, cria-se uma casta de empreendedores, vê-se por todo lado essas lojas grandes e pequenas, e ontem aprendemos que há um tipo de Mipyme para veículos, o que explica a quantidade de veículos de porte médio e grande por aqui.

Conhecemos também os mercados estatais – o Água e Sabão –, onde se pode comprar o que está disponível e sempre em dólares. Há ainda os mercados (minimercados) em parceria com países estrangeiros. Perto de onde vivemos, há um minimercado em parceria com a Espanha onde se encontra de tudo um pouco. Pode-se comprar com cartão de crédito em ambas as lojas. O que não se aceita é cartão de banco americano.

Agora, não se engane, não é todo mundo que tem acesso às compras nesses locais. O câmbio aqui é perverso.

Há ainda (e o meu preferido) os Agros. Agros são feiras dos produtores locais. estamos no tempo da pinha (parece um abacaxi pequeno), e lá se vende de um tudo. Aliás, o melhor doce de goiaba que já comi é daqui.  E também as bodegas, onde os cubanos retiram com sua libreta os produtos básicos a preços subsidiados pelo estado. Nas bodegas, há escassez de alimentos para entrega. Quero crer que a ajuda humanitária chegue às bodegas de forma a torná-las mais completas.

Todos sabem sobre o embargo, mas, mesmo assim, a tal água no pescoço tem subido para as narinas. E Havana surpreende, o cerco apertando e a vida continua, não há tempo para sofrência (só nos boleros). Nas últimas semanas, temos visto e vivido demonstração de que, apesar de tudo, a vida presta.

Filas de crianças e professores fazem aulas de educação física num sol de rachar, futebol, corrida de saco, camisa, numa alegria de emocionar, e a alegria não para por aí. Sábado é dia dos trovadores, sentam-se na praça de Armas e falam/ouvem poemas. No último sábado, foi a vez de Leyla Leyva, lançando seu livro de nome Mataremos al hijo. Antes disso, tomamos um triciclo para chegarmos até a praça de Armas. Disse ao motorista: “Ganhei meu dia hoje”. Eu andava tão chateada com tudo que eu via, e esse cara conversou tanto com a gente um marxista convicto, já aposentado e que nos disse: “Cuba é meu amor”, que lia desde muito pequeno à luz de uma lamparina a óleo. E foram assim seguindo tantas coisas boas durante o caminho: uma mulher cantava lindamente na rua, paramos para almoçar e nesse restaurante um outro grupo de música me levou às lágrimas, pois cantavam Tu me acostumbraste.

Na volta para casa, vimos um mundo de crianças que abria um festival internacional de ballet. Crianças de todas as cores, mães e pais acompanhando as crianças. As meninas do sapateado chegaram fazendo um som vibrante com seus sapatos, e seguimos de pronto o cortejo da meninada, com direito a colocar a bandeira do Brasil na posição correta (do contrário, seguiria nosso pavilhão de cabeça para baixo no cortejo), uma alegria juvenil e sorrisos que contagiavam.

Como é que pode? Com a água no pescoço, toda essa gente ainda teima e teima e baila e canta e toca a vida adelante. A dignidade desse povo é maior que toda a dificuldade que passam. Viver em Cuba transforma você. E não é pouco.

(*) Soraya Zanforlin, militante do PT na cidade de Campinas (SP).

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