Vinicius Júnior, mais uma vez, sofre violência racista, não se cala e resiste com dignidade. O mesmo não se pode dizer de outras personalidades do futebol nacional e mundial, racistas não assumidos.
Por Paulo Sérgio de Proença (*)

O lance
Já caiu no esquecimento mais uma recente cena de racismo contra o jogador brasileiro Vinicius Júnior, ocorrida em Lisboa, no dia 17 de fevereiro. O Real Madrid jogava contra o Benfica, em partida da Champions League e Vini fez um lindo gol, no início do segundo tempo.
Como sempre faz, o jogador dançou num dos cantos do campo, com sorriso no rosto, abraçado por companheiros. Foi quando ele teria recebido insultos racistas do jogador argentino Gianluca Prestianni, que tapou a boca com a camisa do uniforme, para impedir o reconhecimento de sua fala. Vini Jr. comunicou o ocorrido ao juiz da partida e, como o jogador Kylian Mbapé confirmou os insultos, foram adotados os procedimentos recomendados. Houve discussão entre os jogadores e paralisação de oito minutos. Vini Jr. recebeu cartão amarelo como advertência. Houve reações no mundo esportivo.
Comentários de Filipe Luís
O então treinador do Flamengo, disse, dois dias depois, na Argentina, onde estava para o jogo contra o Lanús: “Para mim é simples, ele (Prestianni) tapou a boca e não deveria ter tapado a boca para dizer o que deveria dizer, e isso gera toda essa revolta e agora é a palavra de um contra de outro. Isto é muito delicado e, se ele disse isso, tem de pagar. Mas repito, é a palavra de um contra de outro e não sou eu quem pode julgar”[1].
Este trecho da declaração indica uma posição dúbia, mais favorável ao ofensor do que ao ofendido, com desconfiança em relação à ofensa. Teria ocorrido? O erro de Prestianni foi tapar a boca e não o que disse (ora, se a tapou, não elogiou; queria esconder a ofensa). O técnico brasileiro partiu da premissa de inocência do jogador argentino e da reprovação a Vini Jr.
Para entender o alcance do que Filipe Luís sugeriu, é preciso considerar outra parte de sua declaração, a seguir transcrita: “Sempre fui muito bem tratado, a Argentina me encanta. Sou muito feliz aqui, muito bem recebido. Só tenho boas palavras para a Argentina. Um caso isolado como esse não influencia em nada do que penso sobre este país, que é tão lindo”[2].
Há elogios fartos à Argentina (branca); ele também é branco (e rico). O negro Vini Jr. teria o mesmo tratamento lá, apesar de também ser rico? Ser negro faz toda diferença. Ainda, Filipe Luís disse que se tratava de um caso isolado. No entanto, no Real Madrid há oito anos, foi a vigésima vez que o brasileiro foi vítima de racismo. Não, não se trata de caso isolado.
Essas alegações não escondem os princípios racistas do técnico brasileiro, em compatibilidade com a hipocrisia nacional (e internacional). Elas repercutiram e houve críticas, a ponto de Filipe Luís tentar se explicar, em 22 de fevereiro:
Em nenhum momento a minha intenção foi minimizar o ato racista […] eu e o Flamengo estamos com o Vinicius. […] Sei que como treinador a minha postura pública gera muita expectativa […]. Eu repudio o racismo, eu condeno o ato racismo, racismo é crime. […] se o menino (Prestianni) fez isso, não cabe a mim julgá-lo, mas se ele fez, que pague. Difícil é punir. Se ele fez, que pague […]. Queria esclarecer porque fiquei bem triste com toda a repercussão[3].
A emenda ficou pior do que o soneto. O termo menino utilizado para referência ao agressor é carinhoso. A motivação para a constrangedora tentativa de retratação foi porque ele ficou “triste com toda a repercussão” e não com a ofensa nem com o ofendido.
O Flamengo e o Benfica se manifestam
OFlamengo, clube que revelou Vinicius Jr., manifestou solidariedade ao jogador:
O que o Vini Jr. vive não é só sobre futebol. Ali tem um garoto que sonhou, que lutou, que venceu muita coisa para estar onde está. E dói ver alguém ser atacado simplesmente por ser quem é. A dança dele é alegria de verdade. É espontânea. É dele. Racismo não é parte do jogo. Machuca. E não pode ser normalizado. Vini, você não está sozinho. A gente sente, a gente apoia, a gente está com você[4].
Diferentemente, o Benfica, clube português em que joga Prestianni, saiu para o ataque, na tentativa de defender o atleta argentino, alegando que os jogadores do Real Madrid não poderiam ter ouvido o que o argentino disse; acrescentou, ainda, que existe uma campanha de difamação contra o atleta argentino. Racistas são solidários nessa causa.
Alguns técnicos também pisaram na bola
José Mourinho, técnico do Benfica, disse que Vini Jr. provocou a situação: “Esses talentos são capazes de fazer coisas lindas, mas infelizmente ele não ficou feliz por marcar aquele gol incrível. Quando você marca um gol como esse, você comemora de forma respeitosa”[5]. A combinação da forma impessoal “esses talentos”, o juízo “não ficou feliz” e a prescrição “você comemora de forma respeitosa” soam como veredito condenatório, como se a costumeira dança comemorativa de gols marcadas fizesse de Vini o culpado pelas injúrias recebidas. Como não ficar feliz por ter marcado aquele lindo gol? Dançar de alegria é comemorar de forma desrespeitosa? Quem, parece, não ficou feliz com o gol de Vini foi Mourinho. “Infelizmente” esse técnico vociferou disparates.
Não bastasse isso, afirmou que o Benfica não era racista porque um de seus maiores atletas, Eusébio, era negro. Mais uma atitude de racistas não assumidos.
O técnico espanhol Pep Guardiola entrou em campo e também marcou gol contra. No dia 20 de fevereiro, disse que a solução seria “pagar mais aos professores”. Bravo! Contudo, se receber salário maior fosse a solução, o futebol deveria ser o primeiro campo a se tornar uma trincheira antirracista. Guardiola é um dos mais bem pagos do mundo e perdeu uma chance de ouro. Perdeu um pênalti com o gol vazio.
Para ele, “não é o lugar onde nasceu ou a cor da pele que faz de nós melhores. Ainda há muito trabalho a ser feito. É um problema da sociedade, não apenas do futebol […]. O racismo não é uma questão do tom da pele, é sobre comportamentos”[6]. Bravo!
Acrescenta que a escola é responsável por mudanças de comportamento; porém, ele se exime de combater o racismo. Como técnico, ele tem visibilidade e influência. É formador de opinião, não só de atletas, o que lhe dá protagonismo nesse campo, como admitiu Filipe Luís, já citado: “como treinador a minha postura pública gera muita expectativa”. Contudo, as escolas são reprodutoras dos valores da sociedade; muitas ensinam discriminação e racismo, em reforço ao que alunos carregam de sua educação familiar e religiosa. Além disso, crianças e jovens dão muito valor ao que dizem e fazem personalidades do mundo do futebol. Guardiola terceirizou responsabilidade que também é dele, favorecendo racistas. Infelizmente.
Atletas, ex-atletas e outros técnicos marcaram gol de placa
O lateral Trent Alexander-Arnold, os ex-jogadores Clarence Seedorf (holandês que jogou no Brasil) e o francês Thierry Henry foram poucos que se manifestaram contra as agressivas ações de racismo a Vini Jr.
Álvaro Arbeloa, técnico do Real Madrid, defendeu o atleta do clube: “Vini marcou um golaço, um golaço fantástico, e nada do que ele pode fazer, ou fez, em campo, justifica um ato de racismo […]. Não há nada que justifique um ato de racismo”[7].
Uma reação convincente e corajosa foi dada por Vincent Kompany, técnico do Bayern de Munique, que criticou Mourinho, técnico do Benfica: “Usar o tipo de comemoração do Vini para desacreditar o que ele (Prestianni) estava fazendo naquele momento foi um erro enorme em termos de liderança”. Kompany criticou também a menção a Eusébio como prova de que o clube português não era racista:
Ele disse que o Benfica não pode ser racista porque o melhor jogador de todos os tempos foi Eusébio. Você sabe o que os jogadores negros tiveram que passar nos anos 60? […] Ele estava lá para viajar com Eusébio em todos os jogos fora de casa e ver o que ele passou? Meu pai é negro e nasceu na década de 60. Usar o nome dele hoje para criticar o Vini Jr.?[8].
A Uefa perdeu por WO
Em depoimento à Uefa, Prestianni declarou ter chamado Vini Jr. de maricón e não de mono. Ambos são termos ofensivos: um tem teor racista; outro, homofóbico; têm o mesmo enquadramento quanto à penalidade. Neste 24 de abril, foi anunciada a conclusão do inquérito. A Uefa puniu Prestianni com seis jogos de suspensão, sendo que ele deve cumprir apenas três (já cumpriu um, a título provisório); os restantes dependem de nova ocorrência. Detalhe: a punição não foi por racismo, mas por homofobia (que não deixa de ser grave crime). Isso tudo cheira a premiação compensatória…
Esse desfecho indica a tendência de não assumir nem punir ações racistas no futebol, o que incentiva novas investidas, apesar de campanhas contra o racismo da Fifa e de suas afilhadas. Por outro lado, a voz de Vini Jr. e de Mbapé foram desprezadas, prevalecendo a versão de Prestianni e a violência (simbólica) solidária de brancos contra negros.
O ex-zagueiro Luizão, que atuou no Benfica, criticou a decisão; para ele, houve tentativa de mitigar as consequências: “a decisão da Uefa sobre o caso Prestianni […] deixa no ar uma sensação desconfortável de que, no futebol, ainda existe uma espécie de hierarquia do preconceito, como se alguns fossem tratados com mais rigor do que outros”[9]. Filipe Luís, que conhece os bastidores do futebol internacional, já tinha dito: “difícil é punir”. Por quê?
Estádios de futebol: ritos reprodutores de violência racista
Os palcos desse esporte refletem as tensões e as contradições da sociedade. Apesar de esforços e iniciativas de contenção, atos de violência racista se repetem, favorecidos e reforçados pela associação de milhares de torcedores, o que dá a sensação de anonimato, apesar dos inúmeros olhos eletrônicos que, mesmo assim, não impedem a exteriorização de instintos primitivos de ódio. Nesses eventos continuam as disputas que vigoram fora de campo.
Enfim, Filipe Luís, posando de cidadão de bem, se contradiz quanto ao racismo, ao tentar negá-lo; Mourinho vive o racismo que vê na pele negra fonte de infelicidade; Guardiola opera o racismo por omissão, com a delegação de responsabilidade do combate a essa doença a outras instâncias. Já Prestianni pratica o racismo por orgulho, com intensidade elevada pela necessidade de humilhar um negro que é mais capaz, mais habilidoso e mais forte. É isto: o racismo é uma doença, uma fraqueza. Esses senhores são todos brancos…
Felizmente, há outro grupo de clubes e de personalidades que assumiram o combate ao racismo; é o caso do Flamengo, do Real Madrid e de seu técnico. Entretanto, vêm de Alexander-Arnold, Seedorf, Henry e de Kompany as reações mais veementes e, não é de estranhar, estes últimos são todos negros, assumidos, e se colocam na trincheira de luta contra a histórica discriminação racista.
Vini Jr. dá exemplo. Jovem ainda, curtido pela violência do racismo, é negro que não se rende, contrariando expectativas senhoriais; incomoda muita gente porque tripudia adversários com a bola nos pés, brilhando em palcos de brancos, perturbando, com a alegria de sua dança, o amor-próprio dos que vieram ao mundo pintados de branco. Vini é exemplo para milhões de negras e de negros mundo afora. Ele disse que “racistas são, acima de tudo, covardes […] Nada do que aconteceu hoje é novo na minha vida”[10]. Ele tem razão.
Vai, Vini, vai entre os zagueiros zanzar, dançar a tua alegria e a tua magia, presentes da cor da tua pele. Vai e vem. E vence.
(*) Paulo Sérgio de Proença é professor na Unilab-BA
[1] https://www.cnnbrasil.com.br/esportes/futebol/flamengo/filipe-luis-fala-sobre-episodio-de-racismo-contra-vini-jr-caso-isolado/.
[2] https://www.bbc.com/portuguese/articles/c20lxk59lwko.
[3] https://www.espn.com.br/futebol/flamengo/artigo/_/id/16347729/filipe-luis-pronunciamento-esclarece-fala-racismo-contra-vinicius-jr-flamengo-e-eu-estamos-com-ele.
[4] https://www.cnnbrasil.com.br/esportes/futebol/flamengo/filipe-luis-fala-sobre-episodio-de-racismo-contra -vini-jr-caso-isolado/.
[5] https://www.bbc.com/portuguese/articles/c20lxk59lwko.
[6] https://www.espn.com.br/futebol/manchester-city/artigo/_/id/16336332/manchester-city-guardiola-reflete-sobre-racismo-contra-vinicius-jr-e-pede-providencia-problema-da-sociedade-nao-so-do-futebol.
[7] https://www.torcedores.com/noticias/2026/02/tecnico-do-real-madrid-volta-a-demonstrar-apoio-a-vini-jr-na-luta-contra-o-racismo
[8] https://www.band.com.br/esportes/kompany-diz-que-mourinho-nao-sabe-o-que-negros-sofrem-e-defende-vini-jr-nao-foi-fingimento-202602201006
[9] https://ge.globo.com/futebol/futebol-internacional/noticia/2026/04/25/luisao-critica-punicao-da-uefa-a-prestianni -o-recado-e-perigoso.ghtml.
[10] https://www.bbc.com/portuguese/articles/c20lxk59lwko.
