Temer, Nassif, Lula e o PT

Por Valter Pomar (*)

Temer – o do PSOL, antes PT, antes PSB, antes PCB, mas sempre um bom comunista – escreveu um “post” na sua conta no “face” atacando o PT.

Como o “post” me cita, segue abaixo meu comentário.

Temer diz que sou um “lulista histórico”. De onde ele tirou esta besteira? Não faço ideia. Sou do mesmo Partido que Lula, votei nele em todas as eleições que pude, mas não sou “lulista”, sou petista. Dúvidas a respeito, basta perguntar ao próprio Lula.

Vale dizer que, como professor de história (não me considero um historiador), não compartilho das teorias sobre o “lulismo” que estão na praça, em parte por obra e graça de André Singer. Mas isso é outro assunto.

Voltando a Temer: ele diz que meu texto e o de Nassif ajudariam a explicar o “desgaste de material” que “começa a ser considerado como perigo real para a reeleição do próprio Lula”. 

Primeiro, uma “precisão”: não é o “desgaste de material” que nos ameaça. O que nos ameaça é uma ofensiva do imperialismo, da extrema-direita e da classe dominante, ofensiva que se aproveita dos erros políticos que cometemos e seguimos cometendo. Falar em “desgaste de material” remete para algo insolúvel, produto da passagem do tempo, uma abordagem muito conveniente para a linha de campanha que o neofascismo já está implementando, de contrapor a idade dos oponentes.

No seu “post”, Temer cita dois documentos; mas poderia ter citado um terceiro “documento”: o discurso de Lula em Barcelona, onde ele fala explicitamente o seguinte: “(..) nós sucumbimos à ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam a austeridade. Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o sistema. Por isso não surpreende agora que o outro lado se apresente como antissistema.”

A íntegra do discurso de Lula está aqui: 

https://www.gov.br/planalto/pt-br/acompanhe-o-planalto/discursos-e-pronunciamentos/pronunciamento-do-presidente-lula-no-encerramento-da-1a-reuniao-da-mobilizacao-progressista-global

Temer talvez ache que o discurso de Lula é contraditório com sua prática. Mas isto também valeria para o caso de Nassif, que em diversos momentos contribuiu para fortalecer as posições que ele agora detona (vide por exemplo: 

https://valterpomar.blogspot.com/2014/12/nassif-quando-relevancia-sobe-cabeca.html?m=1 e também vide: 

https://valterpomar.blogspot.com/2015/08/nassif-sonha.html?m=1 e ainda vide: 

https://valterpomar.blogspot.com/2018/05/luis-nassif-esquerda-e-o-gueto.html?m=1 ou ainda: 

https://valterpomar.blogspot.com/2025/05/nassif-propoe-entregar-os-pontos.html?m=1).

O texto de Nassif deixa entrever sua postura contraditória quando, falando da “Carta aos Brasileiro”, diz que “o problema não foi a carta. Foi que a postura nela contida tornou-se permanente, quando deveria ter sido transitória”. 

Eu e outras pessoas – que integrávamos o Diretório Nacional do PT em 2002 e votamos contra a “Carta” – nunca aceitamos esta postura que Nassif segue defendendo 24 anos depois: votar na Carta sob o pretexto de que ela seria apenas um expediente eleitoral. Sempre soubemos do que se tratava e sempre a combatemos. 

Vale dizer que a social-democracia anos 1970 virou neoliberal em grande medida porque, antes como agora, seu compromisso é com o capitalismo, não com o socialismo.

Por esses e outros motivos, confesso que não compro pelo valor de face as críticas de Nassif, mesmo quando justas

Aliás, como se pode constatar pelo discurso de Lula em Barcelona, comparado com o que alguns fizeram supostamente em nome dele no Congresso do PT, existem mais mediações entre o Céu e a Terra do que a nossa vã filosofia pode supor.

A respeito do meu texto – na verdade trata-se de uma resolução da tendência petista Articulação de Esquerda, que pode ser lida aqui: https://valterpomar.blogspot.com/2026/04/oitavo-congresso-do-pt-pontos-para-um.html?m=1 

Temer diz que eu seria “expressão do que ainda se convenciona chamar Esquerda Petista, marxista radical confesso, mas que opera no apoio a Lula por conta da lógica da ‘governabilidade possível’.”

Temer mistura alhos com bugalhos.

Alhos: Temer vai votar em Lula, não vai? O PSOL de Temer também vai votar em Lula, não vai? Assim sendo, não sou eu, nem a AE, nem só o PT, mas é  quase toda a esquerda brasileira que está operando “no apoio a Lula” devido a uma “lógica” politica meio óbvia, que não tem nada que ver com a “governabilidade”. 

Bugalhos: somos petistas. Queremos não apenas ganhar a eleição, mas transformar o Brasil. E na atual quadra da história, não há como transformar o Brasil sem o PT ou contra o PT. 

Por isso, não estou “frustrado” com o resultado do Congresso do PT. O que penso e digo publicamente é que as resoluções do Congresso não estão à altura da situação. Mas é o que temos para hoje e vamos lutar para combater e vencer assim mesmo. 

Por outro lado, não duvido nada que Lula, amanhã ou depois, atropele os moderados que dizem falar em nome dele. Já fez isso tantas vezes, espero que faça de novo.

Por fim: repudio o grosseiro comentário de Temer sobre Benedita. Amargura deve ter limite.

(*) Valter Pomar professor e diretor da FPA


Segue abaixo a íntegra do post de Temer

DOIS DOCUMENTOS importantes vieram a público em coincidência com o Congresso do neoPT. Dois textos de dois lulistas históricos – Valter Pomar e Luis Nassif – que, em seus cenários, e em suas limitações, ajudam a explicar o “desgaste de material” que começa a ser considerado como perigo real para a reeleição do próprio Lula. Desgaste em função da frustração de quem é “eleito pela esquerda, mas governa pela direita”. 
Vou a um rápido comentário, informando que o link com a íntegra dos textos está nos comentários desta postagem. 

COMEÇO com Nassif, reproduzindo um parágrafo que quase faz dispensar a leitura da integra do artigo em que denuncia o transformismo regressivo do PT, e suas sequelas, materializado publicamente a partir da famigerada “Carta aos Brasileiro”, em que Lula se rendia aos ditames do Consenso de Washington”, na sequência de FHC, para garantir boas relações com o grande capital em seu primeiro mandato. “O problema não foi a carta. Foi que a postura nela contida tornou-se permanente, quando deveria ter sido transitória. Lula não apenas respeitou os compromissos — foi, como ele próprio definiria a partir de 2003, “mais responsável que a direita”. A taxa Selic permaneceu em níveis absurdamente elevados por anos. A política de superávit primário foi mantida com rigor que constrangeria qualquer governo europeu de centro-direita. A abertura financeira herdada de FHC não foi tocada.”

POR GENEROSIDADE, talvez, Nassif deixa de citar a medida mais grave – consequente da entrega da autonomia do Banco Central a Henrique Meirelles um então recém-eleito deputado federal pelo Psdb, e o controle ministerial da Economia ao mal lembrado Palocci. Nassif náo cta a contra-reforma da Seguridade Social contra os servidores públicos, medida anti-social que viria a ser universalizada aos trabalhadores da iniciativa privada por Michel golpista, depois do impeachment de Dilma.

PASSAMOS A VALTER, quadro da maior expressão do que ainda se convenciona chamar Esquerda Petista, marxista radical confesso, mas que opera no apoio a Lula por conta da lógica da “governabilidde possível”.

SEU TEXTO não consegue ocultar frustração importante com o que ocorreu no fim de semana em Brasília, onde ele registra como dados a considerar, a ausência de Lula, e de várias importantes lideranças do próprio campo majoritário.

DELE, NÃO vou aos detalhes, mas sem poder me omitir do bizarro epílogo em que marca como ponto alto a intervenção cantada de Benedita, que teria trazido animação a um encontro sem marca. 

Ou melhor, e aí sou eu quem concluo. Se essa intervenção marcou ponto alto, isso só confirma a inexpressividade do presidente do Partido, que em suas várias intervenções Valter náo teria vislumbrado nada de mais importante.


Segue abaixo o link do texto citado de Nassif

Respostas de 23

  1. Não se faz uma nova Constituinte apenas com acordos parlamentares ou congressos de cúpula. Enquanto a política for guiada pelo medo (trauma da ditadura), pela submissão (colonialismo) e pela manutenção da hierarquia (patriarcado), a paralisia continuará. Para superar isso, o processo de uma nova Constituinte precisaria ser, acima de tudo, um processo de cura coletiva.

  2. Admitir que o pacto de 88 foi um “acordo de sobrevivência” sob o medo, e que, para crescer, precisamos romper com esse medo.
    Descolozin

    Pra entender que a soberania nacional passa por criar um direito próprio, que não seja apenas um arremedo de leis europeias ou norte-americanas, mas um reflexo da realidade brasileira e latino-americana.

  3. Existe uma convicção inconsciente de que um novo processo constituinte seria “caótico”, “instável” ou “inadequado” para os padrões internacionais de mercado. É a voz do colonizador sussurrando que o Brasil não tem maturidade para se refundar sem a tutela das instituições vigentes.

  4. A estrutura colonial que ainda rege nossa psiquê (e, consequentemente, nossa política) nos faz acreditar que não somos capazes de escrever nossas próprias regras de forma soberana.

  5. O medo de uma “ruptura” leva à paralisia criativa. A esquerda institucional passou a temer que qualquer movimento de refundação do Estado fosse confundido com um processo autoritário. É uma forma de travamento psíquico: o medo do que pode surgir no lugar de 88 impede a construção do que deve vir depois.

  6. O erro foi ignorar que o tempo histórico da Constituição de 1988 já havia passado. Ao tentar salvar um texto desfigurado em vez de liderar a criação de um novo, a esquerda brasileira ficou na defensiva.

    Faltou a coragem de dizer que os desafios do século XXI — a logística globalizada, a indústria 4.0, a soberania energética e a integração regional — não cabem mais em um texto retalhado por emendas de ocasião da carta magna.

  7. Enquanto a classe trabalhadora sentia o peso da inflação e da precarização, a defesa abstrata das “instituições” soou distante. A falha grave foi permitir que o desejo de ruptura da população fosse canalizado por projetos que, no fundo, retiraram ainda mais direitos.

  8. Historicamente, quando a esquerda abandona a ideia de “refundar a nação” e se torna a guardiã de um status quo falido, ela abre espaço para que forças reacionárias se apropriem do discurso de mudança.

  9. A ausência nos congressos da classe trabalhadora latino-americana demonstra que a liderança preferiu a gestão da crise à transformação da estrutura. O erro foi tratar a Constituição como um fim em si mesma, quando ela deveria ser apenas o ponto de partida.

  10. A pauta da nova Constituinte, que deveria ser o motor de uma reforma agrária, urbana e tributária, foi trocada por políticas de consumo e crédito.

  11. O sistema foi mantido por conveniência de governabilidade, mas o preço foi a desfiguração lenta e dolorosa da CF/

  12. Ao não convocar uma Constituinte nos períodos de auge da aprovação popular (como em 2010), o governo permitiu que as “regras do jogo” permanecessem nas mãos de uma elite parlamentar que, anos depois, usaria essas mesmas regras para desmantelar direitos trabalhistas e promover o impeachment de 2016

  13. Vazio do 8° congresso do Partido foi o descompasso entre a política institucional e a realidade das ruas.

  14. O vácuo no congresso dos trabalhadores, gerou um hiato entre a necessidade real de novas leis (que protejam o trabalhador de aplicativos e a indústria moderna) e a defesa burocrática de um texto de 1988 que já foi retalhado por reformas (Trabalhista de 2017 e Previdenciária de 2019).

  15. Na Assembleia de 1988, o PT argumentava que a Constituição era “conservadora” e mantinha privilégios das elites. Contudo, ao chegar ao poder, o partido adotou o presidencialismo de coalizão como regra de sobrevivência.

  16. Ao optar por governar dentro dos limites estreitos do sistema atual sem convocar uma reforma estruturante nos anos de maior popularidade (como o primeiro governo Lula), o partido acabou, para muitos críticos à esquerda, “validando” o sistema que hoje se mostra esgotado.

  17. A direção petista muitas vezes priorizou a “paz social” e a governabilidade em vez de incentivar mobilizações por uma nova Constituinte, temendo que um novo processo pudesse resultar em algo ainda mais regressivo, dado o avanço do conservadorismo no Congresso.

  18. Ao tratar a Constituição como um “tabu” para evitar retrocessos, o partido dos trabalhadores pode ter deixado de pautar o avanço.

  19. Assumir o risco político de convocar as bases para uma ruptura democrática organizada, que coloque o projeto de desenvolvimento latino-americano no centro da mesa, partido dos trabalhadores!!!

    Com o Edinho, é meio, impossível.
    Voto Valter presidente do PT

  20. Muitos argumentam que o PT “domesticou” o ímpeto constituinte dos movimentos sociais em troca de uma estabilidade que se provou frágil.

  21. Inclusão de direitos digitais, proteção de dados e, crucialmente, a elevação da preservação ambiental ao status de prioridade econômica absoluta.
    CHAMADA PARA UMA ASSEMBLEIA CONSTITUINTE, BORA PT CORAGE

  22. Faltou ao congresso do Partido uma legitimidade renovada, uma nova Assembleia, eleita com o propósito específico de redigir o texto constitucional, traria o povo de volta ao centro da decisão política.Permite a criação de um sistema tributário progressivo e de uma reforma agrária/urbana que a atual redação, protegida por interpretações conservadoras, não logrou realizar.

  23. O tempo presente exige respostas que a “Constituição Cidadã” já não consegue oferecer de forma plena. A defesa de uma nova Assembleia Constituinte é, fundamentalmente, a defesa de uma revisão do pacto de poder.
    O sistema político desenhado — o chamado presidencialismo de coalizão — exauriu-se, gerando crises cíclicas e um sequestro do orçamento público por parte do Legislativo.
    Ingovernável!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

justin tvmarsbahisjojobetjojobet girişmarsbahisbets10mavibetHoliganbetdizipalbetkanyonperabetbullbahis girişbahis forumbetnanointerbahisbursa escortbursa escortgrandpashabetcasibomCratosroyalbetbetebetmarsbahisdeneme bonusu veren yeni sitelerJojobetBetciogalabet girişeskort marmarisbetistextrabetrestbetbetasusdeneme bonusubets10casibomperabetcasibomcasibombahiscommarsbahisdeneme bonusubetofficebahsinematadorbetmatadorbetmatadorbetmatadorbetimajbetpadişahbetmatbetgörükle escortgalabetmavibetimajbetTaraftarium24jokerbetjokerbet girişparobetmarsbahis girişvdcasino girişimajbet girişsekabet girişkavbetibizabet girişbetebetCratosroyalbetmarsbahisbetgitromabetcasinomilyoncasinoroyalbetsalvadorromabetbetgitdeneme bonusu veren sitelerdeneme bonusuteosbetpusulabetmarsbahismatbetimajbetvdcasino girişgameofbetibizabetmarsbahisholiganbetgrandpashabetpusulabetcapitolbet girişparobetholiganbetsekabetbahiscasino1winbetgitteosbetromabetgameofbetradissonbetcratosroyalbetimajbetkralbetpusulabet girişhit botu satın aljojobet giriştakipçi satın alcasibomjojobetmarsbahismarsbahis girişmadridbetslotbarwbahiscashwin girişgrandpashabetnesinecasinoholiganbetpalacebet girişbetgarantiteosbet girişMarsbahisMarsbahis Girişcasinomilyonbettiltcashwinbahiscasino girişpalacebetcratosroyalbet girişteosbetbahiscasinocratosroyalbetCasibomtipobetBetorderHititbetbetparibuCasibomJojobetmarsbahismarsbahis girişpokerklaspusulabetjojobetjojobet girişmatbet girişCasibomcasibomCasibomJojobetHoliganbet