Falta Brasil na Seleção (masculina)

Por Mateus Lazzaretti (*)

Não deu, mais uma vez. Pela sexta Copa do Mundo consecutiva, o Brasil não conseguiu a tão sonhada conquista do hexacampeonato. Mesmo com um elenco de craques, jogadores avaliados em milhões e garotos-propaganda, a seleção brasileira não foi páreo para a seleção da Noruega, que tem todos os seus méritos e jogadores extraclasse, mas que passa longe da tradição que cabe ao Brasil no futebol.

Pênalti perdido, chances desperdiçadas, descuidos na marcação do centroavante Erling Haaland e do brilhante “camisa 10” Martin Ødegaard, além da atuação monstruosa do goleiro Ørjan Nyland, são algumas das explicações para o que aconteceu em campo no último domingo, 5 de julho de 2026. Mas isso não basta para responder à incômoda e desoladora pergunta: o que aconteceu com o futebol brasileiro? Há muito tempo, deixamos de ser a temível Amarelinha, campeã das campeãs. Adversários como a seleção norueguesa jogam como se desconhecessem que, diante de si, está a única seleção pentacampeã do mundo.

O elenco brasileiro perdeu sua magia: a brasilidade. A geração “ousadia e alegria” não é mais ousada, muito menos alegre.

Em campo, a Noruega jogou solta. Nos lances dos dois gols que garantiram a classificação da equipe, sobrou tempo para as jogadas, sem que a seleção brasileira tentasse diminuir os espaços ou brigar pela bola. Faltou sangue nos olhos, como as demais seleções latinas e as africanas tão bem demonstraram. Sobrou vaidade no momento em que os noruegueses, já à frente no placar, fizeram aquilo que o futebol brasileiro sempre incentivou: provocar. A maior expressão disso foi o ídolo dessa geração cair na provocação do goleiro norueguês na cobrança do segundo pênalti, em vez de aproveitar os segundos finais para buscar o empate.

Hoje, poucos jogadores parecem incorporar a honra que qualquer um teria ao vestir o manto brasileiro. Antes, chegar à seleção e ser campeão do mundo era o ápice da carreira, a maior realização que qualquer futebolista poderia almejar. Agora, chegar à seleção parece ser apenas uma ótima vitrine para alcançar os principais clubes do mundo e, com isso, salários astronômicos, contratos publicitários e novas parcerias com as principais fornecedoras de material esportivo. A importante e honrosa exceção é a nossa seleção feminina, ainda pouco valorizada, mas cada vez mais reconhecida.

Não é culpa dos meninos que estes homens um dia foram, a maioria oriunda de realidades muito duras e periféricas.

A questão é que a crescente submissão do futebol em geral e do brasileiro em particular à lógica da mercadoria tem sido eficaz em acabar, aos poucos, com a mística do esporte mais popular do mundo. Se não isso, pelo menos em torná-lo o mais artificial e mercadológico possível – basta ver os custos de assistir presencialmente a qualquer jogo desta e de outras Copas.

A instituição Seleção Brasileira – para não utilizar o nome específico (CBF) – virou um balcão de negócios, a ponto de aceitar contratos em que a fornecedora de material esportivo tem o poder de indicar um número de titulares, todos patrocinados por ela. A promiscuidade em relação às bets é um sintoma disso. Se a escalação depende de negócios, o futebol fica em segundo plano.

Por essa lógica, não importa ter um time, uma coletividade que expressa e carrega os sonhos de milhões de brasileiros: basta ter um aglomerado de estrelas dos holofotes, bons vendedores das principais marcas do mundo. Assim, apaga-se o papel social e político que o futebol desempenha em países como o Brasil.

Por isso, falta o próprio Brasil na seleção. Falta amor ao Brasil no elenco, mas principalmente entre os gestores. E, com todo o respeito a quem discorda, não é um “mister” engravatado que será capaz de resgatar esse sentimento de pertencimento. É preciso mais entrega, mais garra, mais ginga e mais coletividade dentro de campo. É preciso seriedade fora dele. O futebol deve ser uma questão nacional, mais do que uma questão de negócios. O Brasil deve ser a prioridade, e não os interesses financeiros de uns poucos – aliás, o mesmo vale para as eleições que se avizinham.

Para as outras seleções, podemos dizer que “falta sazón”. Só a seleção brasileira é pentacampeã porque foi o seu povo que forjou o futebol verdadeiro: alegre, apaixonado e irreverente. O futebol que fez e faz gente muito sofrida ter momentos de genuína felicidade. Para a nossa seleção, por sua vez, falta o real orgulho de ser brasileiro. Não há publicidade que supere a magia de ver a criançada descalça jogando bola na rua com o sonho de se tornar um de seus ídolos do futebol. O time deve honrar a esperança desses pequenos brasileiros e dos outros milhões que, apesar de tudo, acreditam que a vida vale a pena e que pode ser melhor. Esse é o Brasil que precisamos ver na seleção.

As responsabilidades devem ser divididas e passadas a limpo: o que cabe ao treinador, o que cabe ao elenco e o que cabe à CBF. Um primeiro passo será observar com atenção e aprender com as mulheres da nossa seleção, que, no ano que vem, serão anfitriãs da Copa do Mundo Feminina.

(*) Mateus Lazzaretti é doutorando em História, mestre em Ciências Sociais e bacharel e licenciado em História pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). E-mail: lazzaretti.mateus@acad.ufsm.br

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