Por Fausto Antonio (*)

Epigrafia em trânsito pelo slogan Lula lá e pelo poema
O significado da História passa pelo salto ou da deriva do slogan ao poema. Há, no nexo de criação e de recepção do poema — é o que esperamos —, uma clara percepção do sentido político e do estado da “estabilização”. O termo sintetiza uma era, uma fratura histórica e a própria organização da classe trabalhadora e do campo negro-popular. Ao fixar esse contexto cravado no chão social, o poema capta a “nervura da disputa”, o embate material e simbólico entre visões opostas da sociedade.
No livro Patuá de palavras: o (in)verso negro, de Fausto Antonio, há dois poemas que são estabilizações do contexto histórico atual. Os poemas visuais foram feitos com os elementos já assimilados e mais ainda estabilizados pelo histórico-social. Além da fatura concreta e imagética, o poema chama e convida os leitores e leitoras para um salto além do exercício poético discursivo.
Os poemas aqui expostos trabalham visualmente com o significado e o significante de “Lula Lá”, com a recuperação objetal do corpo na metonímica intervenção das mãos e dedos que opera, no entanto, uma visão de totalidade e da nervura de classe da disputa no chão da sociedade brasileira, que é disputa de valores e da transformação da estrutura da sociedade ao mesmo tempo.
As obras são dois poemas convergentes que tocam no cerne epistemológico e estético-político da minha obra no livro em destaque, Patuá de palavras: o (in)verso negro, e em outros textos poéticos, narrativos e dramáticos.
Ao conectar a fatura concreta dos poemas visuais com as “estabilizações assentadas no contexto histórico-social atual”, gostaria de deixar marcas para decodificar o mecanismo pelo qual transito pelo chamado nexo da criação de poemas visuais na tábula formal da poesia concreta tradicional, fincando os pés na encruzilhada da história viva do Brasil.
O que se pode dizer sobre esses dois poemas em pauta (que operam sob o signo-símbolo de “Lula Lá” e a metonímia do corpo/mãos) valida e expande a sua leitura a partir dos seguintes pontos.
O primeiro ponto passa pela matéria do signo: O “Lula Lá” como Encruzilhada Histórica.
A propósito, na minha produção poética concreta e visual, o arranjo espacial de “Lula Lá” deixa de ser apenas um slogan político-eleitoral e passa a funcionar como um ideograma da disputa de classes e valores. O significante, a forma, deriva para a dimensão unívoca de significado-significante ou significante-significado; é base irredutível, tanto faz a ordem do significado e do significante. A disposição da mão e dos dedos como moldura, forma externa e, ao mesmo tempo, como conteúdo ou contido e expandido, é a razão da inseparabilidade do significado e do significante. Tudo o que é valor de destaque no espaço de empate e tensão é fundamento da luta de classes e do inseparável embate de valores estabilizados pela saga popular ou dos trabalhadores.
A forma e o conteúdo são as bases para a superação da fragmentação que, dá metonímica intervenção dos dedos e mãos, ganha o corpo social como totalidade de luta de classes e a posterior reorganização das forças sociais — da parte, da forma e do conteúdo poético para a sua estabilização como poder anunciado pela parte e consagrado pela totalidade que, além do anúncio visual das mãos e dedos, se enunciará, com certeza, na utopia do poder.
O significado da História passa pelo salto ou da deriva do slogan ao poema. Há, no nexo de criação e de recepção do poema — é o que esperamos —, uma clara percepção do sentido político e do estado da “estabilização”. O termo sintetiza uma era, uma fratura histórica e a própria organização da classe trabalhadora e do campo negro-popular. Ao fixar esse contexto cravado no chão social, o poema capta a “nervura da disputa”, o embate material e simbólico entre visões opostas da sociedade.
A metonímia do corpo , a recuperação objetal no poema; o todo, e o histórico social como totalidade é o centro das obras. Sendo assim, o poema é, por razão de existência conjugada da arte, da linguagem e da elevação da consciência de classe, o nó cardeal da estabilização, que resulta na vitória de uma correlação pautada e, sobretudo, patualizada pelos de baixo na autoria e na coautoria, a recepção tão desejada e festejada no meio artístico e social.
A intervenção das mãos e dos dedos é o corpo como vaso comunicante e como base irredutível da luta de classes, que é também estética e necessita de formas revolucionárias ou fixadas pelas estabilizações populares; é o caso. Na poética negro-brasileira, é o que propugnamos, o corpo não é abstrato: ele é o repositório da memória coletiva e da ação política num contínuo.
Ao focar visualmente e textualmente no gesto, corporeidade manifesta pelas mãos e dedos (que remetem tanto ao icônico gesto do “L” quanto à própria mão trabalhadora, mutilada ou insurgente), o poema opera uma recuperação objetal. O corpo fragmentado reata sua conexão com a totalidade histórica. Esse gesto, que não é apenas mecânico-visual na página, transforma o membro (mão/dedo) em um vetor de agência: ele aponta caminhos, demarca territórios usados pelos trabalhadores, encruzilhadas, fala e molda o próprio destino da nação na margem estabilizada pela classe detentora da força de trabalho.
O salto além do exercício discursivo não é um recurso apenas temático ou de elaboração retórica; ele é central nos livros que deixei lavrados nas edições do já citado Patuá de palavras: o (in)verso negro, Ideopatuagramas, Patuá Adinkra e Somnetos nos Espaços, todos publicados pela editora Galileu, de Londrina/PR.
Como exemplo específico, o Patuá de palavras carrega em seu próprio título a dimensão do amuleto, do sagrado, da proteção, do artefato de luta e do Axé (o patuá). Avulta , então, a fatura concreta que não serve à contemplação passiva ou puramente estética (o fetiche da forma).
A plasticidade do poema convoca o leitor e a leitora à coautoria e à ação. O poema transita pela forma e conteúdo imagético para ver o signo se desestruturar e se reestruturar na página. Assim, obriga o leitor a reconhecer que a história também é uma matéria maleável, passível de transformação pelas mãos daqueles que disputam o “chão da sociedade”.
Em suma, os poemas não tão-somente ou apenas registram o momento político; eles o patualizam. Eles transformam a disputa de valores e o nome histórico, Lula e o icônico “L”, em uma ferramenta poética de emancipação, provando que o in(verso) negro capta perfeitamente essa simbiose entre o rigor da forma visual e a urgência de enunciações autorais e coautorais encruzilhadas com as estabilizações socioespaciais sistematizadas pelas autorias e coautorias oriundas e defensoras da classe trabalhadora.
(*) Fausto Antonio, que completa 40 anos de criação literária, é escritor, poeta, dramaturgo e professor Associado da Unilab – Bahia.
Referências
Patuá de palavras, o (in)verso negro
ANTONIO, Fausto. Patuá de palavras, o (in)verso negro. Londrina: Galileu Edições, 2019.
Ideopatuagramas
ANTONIO, Fausto. Ideopatuagramas. Londrina: Galileu Edições, 2022.
Patuá Adinkra
ANTONIO, Fausto. Patuá Adinkra. Londrina: Galileu Edições, 2025.
ANTONIO, Fausto. Somnetos no Espaço. Londrina: Galileu Edições, 2026.
