Por Emir Sader (*)

Até a Revolução Cubana, a revolução e o socialismo eram coisas distantes para nós, no Brasil e em toda a América Latina. Estavam identificados com Lenin e com Mao, um fenômeno distante, asiático.
A Revolução Cubana nos pegou a todos de surpresa. Aparecia aquela foto de uns barbudos em pose de time de futebol, que tinham derrotado um ditador na América Central (o Caribe ainda não existia como tal para os meios de comunicação).
Primeiro foi a euforia generalizada. (Um dos Mesquitas, do Estadão, esteve num dos primeiros grupos que foram pra Ilha saudar a vitória da democracia contra a ditadura.) Logo o processo começou a se decantar, a ser antimperialista primeiro, socialista depois, e a esquerda revolucionária daqui foi se identificando cada vez mais com aquele processo.
O debate entre reforma ou revolução, que aqui era protagonizado pelo PCB, por um lado, pelos grupos revolucionários, por outro (Polop, PC do B, AP, pela ordem do seu aparecimento, a partir de 1961), encontrava uma resposta no triunfo de Fidel, do Che e dos seus companheiros. Enquanto os projetos reformistas se esgotavam por aqui – e o nosso se esgotaria logo depois, 5 anos depois da vitória cubana –, o caminho revolucionário se abria pela via da guerra de guerrilhas.
Questões que não se resolviam por aqui ou avançavam apenas pela metade, Cuba revolucionária resolvia da forma mais radical e profunda. A primeira medida revolucionária que nos impactou muito foi a consulta aos estudantes se queriam suspender o ano letivo e ir alfabetizar o povo cubano, que se concentrava essencialmente no campo. E assim Cuba resolvia, da forma mais radical e popular, a questão do analfabetismo.
Ao mesmo tempo, no primeiro ano da revolução, se fundava a Casa das Américas, que começava a congregar intelectuais latino-americanos. (Mais tarde Antonio Candido diria que só conheceu a literatura latino-americana através de Cuba, da Casa das Américas. Antes, no máximo, era a literatura argentina, no máximo Borges.) Fundava-se o Icaic, que impulsionaria o revolucionário cinema cubano.
E, no plano mais estrutural da sociedade cubana, se punha em prática uma reforma agrária, uma reforma urbana, a nacionalização das empresas açucareiras. Daí o confronto com os EUA se acelerou e Cuba, apontando o caminho revolucionário, foi passando da sua fase nacional e democrática para sua fase antimperialista e socialista. “Revolução socialista ou caricatura de revolução”, pelas palavras do Che.
No Brasil e na América Latina foi o maior demarcador de águas no campo da esquerda. Os PCs se sentiam incômodos pelo triunfo revolucionário em Cuba e pela capacidade de recrutamento da juventude que a imagem de Fidel e do Che propiciava. Os movimentos da esquerda radical proliferavam e aderiam à luta armada, conforme o golpe se deu no Brasil, terminando com a força hegemônica do PCB, até ali, na esquerda brasileira.
Os discursos de Fidel se difundiam amplamente, através da edição internacional do Granma ou por outras vias, como os publicados no Uruguai ou na Argentina, e que eram trazidos para cá. Uma ou outra imagem mostrava a Praça da Revolução com milhões de pessoas ouvindo os discursos de várias horas de Fidel. O “Patria o Muerte, Venceremos!” se tornava conhecido para todos.
Fidel se tornou o líder de esquerda mais importante do mundo no século XX, projetando a imagem da Revolução Cubana por todo o mundo. Suas viagens, desde as feitas aos EUA até aquelas para países da África, como a Argélia, da Ásia, como o Vietnam, levavam seu discurso internacionalista para todo o mundo.
Ele teve que enfrentar duros dilemas. Quando o primeiro ciclo de guerrilhas – Venezuela, Peru, Guatemala – era derrotado, Cuba se condenava ao isolamento, ainda mais que os PCs tampouco eram um grande aliado. A morte do Che consolidava esse isolamento no continente. Fidel teve, uma vez mais, a audácia de, neste caso, estabelecer uma aliança estratégica com a URSS, dado que a China havia fechado as portas para essa possibilidade.
Com isso Fidel garantiu o futuro da revolução em um país pequeno do Caribe, exportador de açúcar, cercado pela maior potência imperialista da história. Mas teve que submeter a Ilha à divisão do trabalho do campo socialista, que não previa a industrialização de Cuba, sonho do Che quando era ministro da economia, no começo da revolução. Porém Cuba garantia o abastecimento de petróleo, o armamento que necessitava e tinha a segurança de um mercado com bons preços para sua produção de açúcar. Foi o período de maior desenvolvimento econômico de Cuba e de maior melhoria das condições de vida da sua população.
Fidel teve oportunidade de exercer, de diferentes maneiras, sua audácia revolucionária, quando, por exemplo, enviou tropas de elite cubanas para deter o avanço das tropas sul-africanas sobre Angola, feito realizado com sucesso. Ou quando apoiou abertamente as forças sandinistas, acreditando que a vitória era possível, com os EUA neutralizados por suas crises internas. Ou quando abriu as embaixadas estrangeiras em Cuba para quem quisesse ir do país. Ou quando jurou que iam conseguir trazer de volta o menino Elian, feito realizado. Ou quando igualmente afirmou que recuperariam os cinco cubanos presos e condenados nos EUA. Uma audácia revolucionária que dava confiança aos cubanos na sua direção política.
Fidel foi também quem primeiro encarou a possibilidade real do fim da URSS e teve que encarar os momentos mais difíceis para a revolução. Sem o campo socialista, cercado pela expansão do neoliberalismo, Fidel via se desfazer o planejamento futuro do socialismo em Cuba. O país passou a uma fase de resistência, de sobrevivência. Os vínculos com a China e com a Venezuela serviram para atenuar os efeitos do fim da URSS, mas não para substituir o marco em que Cuba previa seu futuro.
O livro de entrevistas com Ignacio Ramonet permite uma visão em perspectiva de toda sua trajetória política. Inclui a surpreendente menção de que, se Kruschev não tivesse negociado a retirada dos foguetes de Cuba com os EUA, teria sido a oportunidade fundamental de exigir a retirada dos norte-americanos de Guantanamo, perdida para sempre.
Eu estava em Cuba, para uma reunião de intelectuais e o mundo da cultura latino-americano, quando, com Garcia Marquez, esperávamos Fidel e, pela primeira vez, ele não apareceu e se comunicou que ele tinha problemas de saúde.
Fidel terminou nesse momento sua vida política, 10 anos antes da sua morte. Deixou de se pronunciar sobre o encaminhamento que seu irmão Raul dava à economia cubana, diante das enormes dificuldades que o país vivia. Fidel se reservou sua opinião, embora fosse solidário com os passos dados por Raul, porque sempre foi realista e sabia que Cuba teria que readequar-se diante dos retrocessos que a história reservou para os revolucionários no final do século XX e começo do século XXI.
Fidel representou a Revolução, nas modalidades que ela assumiu na segunda metade do século XX. Soube reconhecer em Hugo Chavez, em Lula, em Evo Morales, em Rafael Correa, seus seguidores, nas novas condições históricas contemporâneas.
Para todas as gerações posteriores à vitória da Revolução Cubana, Fidel sempre se identificou com a Revolução e com o Socialismo.
(*) Emir Sader é sociólogo e cientista político
