Por Valter Pomar (*)

Em 2022 e 2023, o STF, o TSE e o governo dos Estados Unidos contribuíram para neutralizar a intentona golpista dos cavernícolas.
Em 2026, o governo dos EUA e o TSE estão presididos por cavernícolas.
E o noticiário denunciando o envolvimento de Xandão e Gonet no escândalo Master vai, na melhor das hipóteses, paralisar por algum tempo os setores do STF que se opõem à gangue cavernícola.
Logo saberemos quais os efeitos diretamente eleitorais da atual etapa do escândalo.
Mas uma coisa é certa: o clima de denuncismo (careca, lobista, Dark Horse etc.) cria uma imensa cortina de fumaça, que contribui para encobrir as profundas divergências programáticas entre as candidaturas presidenciais.
Logo saberemos, também, quais serão os desdobramentos político-institucionais imediatos da queda de braço envolvendo Xandão, Gonet e Mendonça, sendo que este último já se demonstrou ser parte do Club dos Amigos do Vorcaro.
A Folha, o Estadão e cavernícola filho pedem o impeachment do ministro que, segundo as acusações, estaria em conluio com o empresário.
Há quem ache mais provável um péssimo acordo, já que o Master é um escândalo em fase de metástase, motivo pelo qual medidas radicais podem respingar em muita gente fina.
Mas, como não podia deixar de ser, porta-vozes do PT admitem, ao menos em tese, a possibilidade de um impeachment.
Por exemplo: Gleisi Hoffmann, ex-presidenta nacional do Partido dos Trabalhadores e candidata ao Senado pelo PT do Paraná, afirmou o seguinte: “Eu não vejo problema nenhum em fazer o impeachment e o julgamento de ministro do Supremo. Até porque isso é função do Senado. Se tiver crime, tem que ter”.
Verdade.
Um problema é que é notória a promiscuidade entre ministros do Supremo, grandes empresários, políticos de direita (inclusive alguns abrigados noutros pontos do espectro partidário) e meios de comunicação.
Portanto, para além do que fazer nos casos específicos de Gonet, Mendonça e Xandão, entre outros acusados, cabe discutir o que fazer com o Judiciário.
Infelizmente, o recente Congresso do PT rejeitou uma proposta de resolução a respeito, apresentada pela tendência petista Articulação de Esquerda e defendida em plenário por Natália Sena.
A rejeição da referida proposta foi liderada, também em plenário, por José Dirceu, que mesmo reconhecendo a procedência do debate e a justeza de pelo menos alguns pontos da proposta, defendeu nada decidir. No que foi apoiado pela maioria dos congressistas.
O argumento implícito foi deixar este tipo de assunto para depois da eleição.
Como se vê, foi (mais) um erro cometido pelos que parecem não se dar conta – ou pelo menos não querem tirar as devidas consequências – da crise profunda que afeta quase todas as instituições do “Estado democrático da direita”.
Erro similar vem sendo cometido no tema da reforma política.
As críticas de muita gente, inclusive candidaturas petistas, sobre a distribuição dos recursos do fundo eleitoral dizem respeito, na verdade, a um dos efeitos colaterais de um sistema político profundamente determinado pelo dinheiro, fato que torna cada vez mais verdadeira a denominação “democracia burguesa”.
Ou o PT toma a iniciativa de defender uma reforma global do Estado brasileiro – através de uma Assembleia Constituinte – ou a extrema-direita abrirá o baú da demagogia e do cinismo e vai deitar e rolar.
O argumento de que seria perigoso mexer nesse vespeiro, nesse momento, não dá conta de algo simples: uma reforma do Estado já está em curso, sem Constituinte, sem povo e contra o povo.
Um bom momento, portanto, para o presidente Edinho lembrar do que já disse sobre sermos antisistema.
A candidatura Lula, nosso futuro governo e o povo brasileiro só têm a ganhar com isso.
Em resumo, não temos porque ser ingênuos em relação as reais motivações e propósitos do neolavajatismo; mas tampouco devemos sofrer e chorar por cadáver alheio.
(*) Valter Pomar é professor e diretor da FPA
