Por Fausto Antonio (*)

Epigrafia do futebol como “a pátria de chuteiras”
A análise do futebol como “pátria de chuteiras”, conforme preconizava Nelson Rodrigues, só é viável quando recupera o jogo de bola no todo da sociedade brasileira e do sistema-mundo. Assim, o problema estrutural se define fundamentalmente a partir da base histórico-social e, portanto, da dimensão socioespacial. A derrocada futebolística está, desse modo, umbilicalmente entrelaçada à socioespacialidade brasileira. O futebol se historiciza nos estádios, entendidos como lugares do pacto do jogo, do jogador e, sobretudo, das torcidas e da política hegemônica em vigor no país e da política contra hegemônica, que pode ser enunciada. Na derrota de 2014, o território brasileiro, como encruzilhada ou quadro de vida, não foi considerado e, menos ainda, projetado para a seleção, para os estádios, para a imprensa e para o projeto indispensável à soberania nacional. O projeto de país precede o futebolístico; em 2030, sem um balanço revisado do projeto de país, de civilização, de soberania nacional, o futebol brasileiro sofrerá, com certeza, novas derrotas.
A derrota de 2014 elucida a derrota de 2026
A derrota por 7 a 1 contra a Alemanha, em 2014, na Copa sediada pelo Brasil, é o retrato histórico da natureza das sucessivas derrotas para seleções europeias nas últimas três décadas. A Copa de 2026 mostra escancaradamente que, sem uma avaliação do projeto de sociedade e, a partir dele, a análise do futebol, continuaremos no mesmo lugar reafirmado pelo acachapante resultado de 2014. O evento de 2014 elucida o presente, ocupa lugar central na história de 2026 e, por outro lado, redime Barbosa e outros negros massacrados injustamente pelo chamado Maracanazo de 1950, na derrota para o Uruguai, que foi fruto da nossa realidade estrutural e resultou na perda do jogo final. Ao criminalizar e expurgar seletivamente o goleiro negro Barbosa, o histórico social, a responsabilidade da estrutura em geral e aquela instalada especificamente nos domínios da organização da seleção foram escondidos ou desconsiderados capciosamente na operação analítica do resultado no Maracanã lotado. A imprensa brasileira é central no projeto de criminalização e expurgo do excelente goleiro. Na mesma linha, é a imprensa branca e comercial que sempre desvalorizou Pelé e, rumo à destruição da medula do futebol brasileiro, arquitetou, na década de 1970, uma campanha sistemática, racista e fascista contra o jogador Paulo César Lima, o Paulo César Caju, que era um jogador refinado, de excepcional habilidade e técnica. Em 2026, operação semelhante é movida contra Neymar, com ampla e persistente participação de setores brancos e branqueados da mídia comercial, da imprensa alternativa e da esquerda pequeno-burguesa. A escala de aproximação do ocorrido na trajetória de Pelé, Paulo César Caju e Neymar, espécie de zoom histórico retrospectivo e prospectivo, é para registrar posições que são recorrentes e naturalizadas pelo viés totalitário da branquitude brasileira.
O nexo retrospectivo 2014 e o prospectivo 2026-2030
Feita a digressão, releva-se na leitura, na análise e, posteriormente, na crítica o valor retrospectivo e prospectivo da vergonhosa derrota de 2014. O técnico que escalou o jovem Bernard, “jogador que tinha alegria nas pernas”, diferentemente do que ocorreu em 1950, não foi penalizado, estigmatizado e excluído do meio futebolístico brasileiro. Na Copa de 1950, seletivamente, os jogadores negros, notadamente o goleiro Barbosa, foram alvos de uma campanha sistêmica e arcaram com o peso de uma derrota que foi, a rigor, produção da sociedade brasileira refletida na organização do futebol.
A Copa de 2014 não pode ser descolada do projeto político-eleitoral e do projeto branco e burguês brasileiro que, refletido e sustentado pelo Estado nacional e pelo imperialismo, não queria a vitória da seleção. A derrota do Brasil tinha por objetivo alimentar politicamente as bases e as malhas golpistas que se confirmaram em 2016, com a derrubada do governo Dilma Rousseff.
O problema estrutural tem raiz no projeto político capitalista, branco, burguês e pró-imperialismo que, por equivalência e por ser antinacional, não tem preocupação com a soberania e a independência econômica, cultural e política do Brasil. A burguesia brasileira é antinacional, o que ficou evidenciado em 2014: as instâncias do Estado atuaram contra o país, e parte da esquerda, com o lema afinado à burguesia — “Não vai ter Copa” —, tornou-se um dado emblemático de como a estrutura social se aloja, como artefato de poder e sistema de valores, na pífia atuação em campo.
A estrutura social brancocêntrica se instalou, de modo hegemônico, na estrutura dos clubes, da mídia comercial e no pensamento que, aos poucos, dominou o espaço específico do jogo e, sobretudo, do sistema tático. O fetiche euro-estadunidense tem amarras fortes com a natureza étnico-racial da burguesia nacional e de sua extensão pelas estruturas sociais e pelo Estado. Avessas ao povo, as estruturas de poder no domínio dos clubes, das federações, da CBF e de instituições do gênero, em comunhão com a imprensa burguesa, operaram campanhas e deram sustentação midiática para a valorização de jogadores e sistemas de jogo alinhados a valores antipovo.
A chave retrospectiva, ancorada no desastre estandardizado pelo 7 a 1, chama para a análise a monumental geração das décadas de 1950, 1960 e 1970. A estrutura social racista, branca, capitalista e pró-imperialismo atua contra o futebol no controle das instituições. Quem manda política, econômica e estruturalmente na sociedade brasileira igualmente comanda os clubes de futebol e a seleção. Diante dessa concepção de sociedade e futebol, a mesma política preponderará na relação entre o retrospecto de 2014 e a perspectiva para 2026-2030.
A derrota do futebol-arte e/ou negro-popular
A outra estrutura, objeto dessa política brancocêntrica, tem dimensão e alcance interno, isto é, no modo pelo qual o futebol-arte, negro-popular, teria de ser derrotado no mundo da bola. O jogo em si se define como brasileiro fundamentalmente pelo sistema de jogo e pela unicidade da habilidade e da técnica. O ataque foi desferido e está em andamento para retirar do espaço futebolístico usado pelos brasileiros o sistema centrado na posse de bola e no drible como parte indissociável da genialidade, concebida individualmente e praticada coletivamente.
Desse modo, o sistema de jogo se materializava no 4-2-4 embricado pelo trânsito pelo 4-4-2 que derivava para o 4-3-3, com volantes atuando de uma área à outra com total domínio da bola e dois ou três meias circulando pelo centro do campo e área adversária. O controle do jogo era de quem se impunha pela posse, habilidade e, notadamente, pela técnica — que, no caso do Brasil, é historicamente mais importante que a simples habilidade. No contexto futebolístico brasileiro, os jogadores geniais transformaram a habilidade em fundamento técnico, sempre a serviço do futebol-arte emoldurado pelo gol. Era assim com os dribles geniais seguidos de arrancadas de Garrincha pela direita; a mesma operação era usada, na ponta-esquerda, por Edu.
Mas o repertório da habilidade como fundamento da técnica tem no gênio dos gênios o seu ápice: o lençol dentro da área para assegurar o gol contra o País de Gales, ou o chapéu que o Deus da bola, Pelé, aos dezessete anos, deu na Copa de 1958, para deitar, com técnica impecável, a bola na rede. Há ainda, no repertório, o elástico de Rivelino, a folha seca de Didi, o bico cirúrgico de Ronaldo, as atuações milimétricas de gênios da área como Coutinho, Reinaldo, Romário e o olhar vesgo, de bruxo, com passe às avessas de Ronaldinho Gaúcho, que enganava a visão bidimensional do marcador. Os exemplos sobram e são pedagógicos sobre o lugar da habilidade dos gênios e de sua indissociabilidade da técnica refinada, que resulta também no uso do calcanhar de Sócrates, demonstrando que a habilidade, diferentemente da firula, estava a serviço da técnica ,do coletivo e do gol.
O que é a “pátria de chuteiras”?
A análise do futebol como “pátria de chuteiras”, conforme preconizava Nelson Rodrigues, só é viável quando recupera o jogo de bola no todo da sociedade brasileira e do sistema-mundo. Assim, o problema estrutural se define fundamentalmente a partir da base histórico-social e, portanto, da dimensão socioespacial. A derrocada futebolística está, desse modo, umbilicalmente entrelaçada à socioespacialidade brasileira. O futebol se historiciza nos estádios, entendidos como lugares do pacto do jogo, do jogador e, sobretudo, das torcidas e da política hegemônica em vigor no país e da política contra hegemônica, que pode ser enunciada. Na derrota de 2014, o território brasileiro, como encruzilhada ou quadro de vida, não foi considerado e, menos ainda, projetado para a seleção, para os estádios, para a imprensa e para o projeto indispensável à soberania nacional. O projeto de país precede o futebolístico; em 2030, sem um balanço revisado do projeto de país, de civilização, de soberania nacional, o futebol brasileiro sofrerá, com certeza, novas derrotas.
(*) Fausto Antonio é escritor, poeta, dramaturgo e professor Associado da Unilabb – Bahia.
