Saiu o jornal Página 13 de agosto

Saiu a edição de número 305 do jornal Página 13, que pode ser descarregada aqui. É possível ao leitor conferir o editorial na íntegra logo abaixo.

BOA LEITURA!

EDITORIAL

Lula, porreta!

Em seu discurso na Convenção Nacional do Partido dos Trabalhadores, Lula disse que seu objetivo no quarto mandato será dar “um salto de qualidade”.

Para isso, será preciso começar derrotando a ingerência externa, especialmente dos Estados Unidos, de Israel e da extrema-direita internacional, que ocorrem nos marcos da disputa mundial entre Estados Unidos e República Popular da China. Cabendo lembrar que, nesta disputa, serão cada vez mais presentes as guerras, que podem ser quentes (como na Ucrânia, no Irã, na Palestina e no Líbano) ou mornas (como a disputa de tarifas e a disputa tecnológica).

Como decorrências destes e de outros processos, temos uma tendência a crises recorrentes, a conflitos, à polarização (política e ideológica). Noutras palavras: o mais provável, infelizmente, é que as coisas piorem um pouco antes de melhorar. Assim como é provável que, quando as coisas melhorarem, haja uma mudança qualitativa em relação à situação atual. Noutras palavras, o mundo vai mudar, as coisas não serão como hoje. Mas essa mudança pode ser – do ponto de vista da classe trabalhadora – para pior ou para melhor, a depender de quem vença a luta de classes e a luta entre Estados atualmente em curso.

Do ponto de vista do Brasil, há duas grandes possibilidades: ou o aprofundamento do modelo primário-exportador e rentista ou um ciclo de desenvolvimento democrático-popular. No primeiro caso, aprofundaremos nossa dependência externa, com submissão crescente aos Estados Unidos ou a quem quer que hegemonize o mundo. No segundo caso, converteremos o Brasil numa das potências industriais-científico-tecnológicas mundiais.

A bifurcação acima – que diz respeito a sociedade brasileira e a nosso lugar no mundo – está ligada ao resultado da eleição presidencial de 2026. A depender de quem ganhe as eleições, um rumo será escolhido. A depender de como ganhe, estará em boa medida precificado o ritmo e as modalidades do processo.

Do ponto de vista das forças políticas e sociais que defendem um modelo primário-exportador, rentista e dependente, a eleição de 2026 lembra a eleição de 1989. Naquela ocasião, a vitória de Fernando Collor de Mello foi determinante para a implementação do neoliberalismo no Brasil.

Já do ponto de vista das forças políticas e sociais que defendem uma mudança na sociedade brasileira e uma mudança no lugar do Brasil no mundo, a eleição de 2026 mantém aberta a possibilidade, mas não determina o resultado. Noutras palavras, a reeleição de Lula – a depender das condições em que ocorra – mantém aberta a possibilidade de construir outro modelo e mantém aberta a possibilidade de mudar o lugar do Brasil no mundo. Mas tudo dependerá das condições em que a vitória de Lula ocorra.

Até o momento em que este texto está sendo escrito, 11 candidaturas disputam a Presidência do Brasil: Lula (PT), o filho do cavernícola (PL), Caiado (PSD), Zema (Novo), Renan (Missão), Hertz Dias (PSTU), Samara Martins (UP), Edmilson Costa (PCB), Rui Costa Pimenta (PCO), Augusto Cury (Avante) e Clariana Barão (DC).

A candidatura do filho do cavernícola é porta-voz dos que defendem que o Brasil seja quintal dos Estados Unidos, siga exportador de produtos primários e um dos campeões mundiais da desigualdade social.

A candidatura de Lula é a alternativa dos que defendem a soberania nacional, a transformação do Brasil numa das grandes potências industriais do mundo e a construção de uma sociedade de bem-estar. Mas também é a candidatura de setores da direita neoliberal que têm contradições com o modelo político defendido pela família cavernícola.

A preços de hoje, Lula vencerá a eleição presidencial, no segundo turno (dia 25 de outubro), por uma diferença de votos similar à de 2022. E recebendo o voto dos setores mais explorados da classe trabalhadora, dos negros e negras, das mulheres.

Mas a eleição não é hoje. A candidatura do filho do cavernícola é apoiada pelos Estados Unidos, por Israel e pela extrema-direita internacional. Seus apoiadores já demonstraram ser capazes de praticar crimes de todo tipo para atingir seus objetivos. Além disso, a candidatura do cavernícola filho conta com imenso apoio empresarial, poderosas estruturas de comunicação, ampla militância religiosa e militar, além de uma base social e eleitoral muito resiliente, disposta a votar na extrema-direita mesmo que tenham todo dia que dar explicações sobre seus crimes.

Vale dizer que a candidatura de Caiado trabalha com a seguinte expectativa: que mais cedo ou mais tarde, as crises e os desgastes da candidatura cavernícola o obriguem a sair da disputa. Nesse cenário, Caiado imagina poder receber o apoio de toda a extrema-direita e, também, de setores da direita que hoje não apoiam ninguém ou que apoiam Lula.

Mesmo que isso não aconteça, a existência de várias candidaturas da direita ajuda a levar a disputa presidencial para o segundo turno, onde a tendência é que as diferentes direitas se unifiquem. Por este motivo é que dizemos que a eleição presidencial será decidida no segundo turno e por pequena diferença.

Outro fator a considerar é que, na maioria dos estados, a disputa pelo Senado e pelos governos está sendo liderada, hoje, por candidaturas de direita. O mesmo vale para a disputa pela Câmara e pelas Assembleias Legislativas. Se esse cenário se mantiver, o segundo turno acontecerá num ambiente em que a disputa presidencial será entre Lula versus cavernícola; mas, na maioria dos estados, a tendência é que o cenário eleitoral de segundo turno não seja de esquerda contra direita. E naqueles estados onde a direita ganhar a disputa pelo governo e/ou Senado; ou onde a direita alcançar expressiva vantagem no primeiro turno nas disputas estaduais, o cenário será muito mais difícil para a esquerda no segundo turno presidencial.

Nesse contexto, a existência de quatro candidaturas presidenciais lançadas por partidos autoproclamados de esquerda revela incompreensão acerca do que está em jogo nas eleições presidenciais de 2026. A hora é de unidade total contra o neofascismo e o imperialismo.

Muito mais daninha, entretanto, é a posição daqueles que estão debatendo a necessidade de um ajuste fiscal em 2027. Ou seja: cortes nas políticas sociais, mudanças nos pisos constitucionais, redução no reajuste do mínimo e das aposentadoras, contenção nos investimentos produtivos, alteração para pior na estrutura do Estado etc.

A extrema-direita diz abertamente que pretende fazer isso caso vença as eleições. A posição da esquerda deve ser diametralmente contrária. Seguir conciliando com o sistema financeiro não apenas obstaculizaria o desenvolvimento e a ampliação dos direitos. Não precisamos de um ajuste fiscal em 2027. Do quê precisamos é libertar o país da ditadura do capital financeiro, o que exigirá superar os limites do Novo Marco Fiscal, mudar as metas de inflação e substituir a cúpula do Banco Central. Mas, para fazer isso, não basta que a esquerda vença a eleição presidencial. Será preciso vencer com maior percentual de votos válidos do que o obtido em 2022. Além disso, será preciso conquistar mais governos estaduais, mais cadeiras parlamentares e, acima de tudo, será necessário ampliar o nível de consciência, organização e mobilização do povo.

No caso, significa utilizar a campanha eleitoral para explicar que o Brasil está diante de uma encruzilhada: soberania ou neocolônia, desenvolvimento ou destruição, direitos ou escravização. A classe trabalhadora brasileira está diante desta batalha existencial. Se vencermos, aumentam as chances de mudarmos nossa sociedade e o lugar do Brasil no mundo.

Neste caso – mas também no cenário oposto – será essencial reforçar os instrumentos organizativos da classe trabalhadora, a começar pelos sindicatos. Aliás, um dos grandes desafios da classe no próximo período é aumentar o percentual de sindicalização, de conscientização e de mobilização. No limite, é aí que nosso futuro será decidido.

Neste sentido, a grande promessa feita por Lula em seu discurso na Convenção de 2 de agosto é a de que na campanha de 2026 ele não será “paz e amor”: será porreta!

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