Além dos números: o feminismo em trincheira contra a instrumentalização conservadora da política

Por Suelen Aires Gonçalves (*)

As Eleições Gerais de 2026 nos deixaram uma certeza incontestável: o Brasil só avança de verdade quando as mulheres ocupam o centro da política. Ao olharmos os dados consolidados pelas análises de pós-urna de instituições especializadas e do debate partidário, vemos que o mapa político brasileiro começou a mudar de cor, de cara e de compromisso. Batemos recordes importantes no Congresso Nacional, onde a bancada feminina na Câmara dos Deputados alcançou 109 parlamentares (21,2% do total) e o Senado Federal elegeu 12 novas senadoras. No entanto, os números frios das urnas escondem a verdadeira trincheira que nós, mulheres, enfrentamos todos os dias para transformar o voto popular em voz ativa e respeitada nas instituições.

Esse avanço na representação institucional — que também se refletiu no crescimento das bancadas femininas do Partido das Trabalhadoras e dos Trabalhadores (PT) e de aliados nas assembleias estaduais e na Câmara Federal — não é um favor do destino ou uma concessão dos partidos. Ele é fruto direto de muita luta histórica da nossa militância, das ruas, dos movimentos sociais e da persistência de cada companheira que colocou seu bloco na rua com um programa de transformação social. No entanto, a realidade nos mostra que o caminho até a igualdade substantiva ainda é longo e cheio de barreiras estruturais. Enquanto em alguns estados celebramos conquistas históricas, em outros — como Piauí, Distrito Federal e Roraima — a representação feminina na Câmara federal foi simplesmente zerada, revelando que o pacto patriarcal da velha política ainda resiste nos redutos onde o poder tradicional tenta fechar as portas para a renovação.

Contudo, esse crescimento numérico das mulheres no parlamento não ocorre em um vácuo político e traz para o centro do debate uma contradição incontornável: o avanço expressivo de candidatas eleitas ligadas aos setores da extrema-direita e do conservadorismo. Pela primeira vez, a direita quadruplicou sua presença feminina em relação a ciclos anteriores, equiparando-se numericamente ao campo progressista na Câmara. Isso significa que a ocupação do espaço político pelas mulheres deixou de ser um reduto exclusivo de agendas de emancipação social; ao contrário, assistimos a parlamentares atacando direitos trabalhistas, combatendo as pautas de gênero sob o disfarce de “defesa da família” e atuando ativamente contra a autonomia das mulheres. Estar no parlamento ao lado dessas adversárias ideológicas nos impõe o desafio diário de disputar o sentido do que é ser mulher na política, provando que a representatividade só tem valor real se estiver a serviço da justiça social, da democracia e da superação das desigualdades, e não como correia de transmissão de um projeto autoritário que oprime a classe trabalhadora.

Conforme aponta a jornalista Camila Galetti no portal The Intercept Brasil, as Eleições Gerais de 2026 evidenciaram uma contradição marcante na representação parlamentar brasileira: ao mesmo tempo em que se registrou um recorde histórico de mulheres eleitas para o Congresso Nacional, a extrema direita converteu o antifeminismo em uma máquina de votos altamente eficaz. Utilizando as redes sociais para transformar a oposição aos direitos das mulheres em identidade política, essas lideranças conservadoras posicionam-se estrategicamente como um escudo contra o feminismo — tratado sob o verniz de “ideologia” ou “exagero” —, promovendo uma erosão silenciosa de leis de proteção e desafiando o campo progressista a formular respostas a esse discurso fundamentado na ordem e na família.

Outro ponto que exige a nossa atenção imediata e o nosso grito coletivo é o avanço inaceitável da violência política de gênero. Relatórios e levantamentos da Justiça Eleitoral e de organizações da sociedade civil demonstraram que o ciclo de 2026 foi marcado por centenas de episódios de violência, ataques virtuais e tentativas de silenciamento contra candidatas, com um impacto ainda mais perverso e desproporcional sobre as mulheres negras. A extrema-direita e os setores conservadores perceberam que a nossa presença é incômoda porque ameaça privilégios históricos. Eles tentam nos intimidar nos espaços públicos porque sabem que, quando uma mulher entra na política e conquista espaço nas assembleias e no parlamento federal, a política inteira muda.

Neste segundo turno da corrida presidencial de 2026, a campanha do presidente Lula tem o desafio decisivo de mobilizar e consolidar a sua vantagem no maior colégio eleitoral do país: o eleitorado feminino, com centralidade na força e na resistência das mulheres negras e periféricas. Para garantir a vitória rumo ao Palácio do Planalto, a estratégia apoia-se na força do diálogo direto com essas mulheres nas ruas, periferias, locais de trabalho e territórios rurais, ancorando o voto na defesa intransigente de políticas públicas essenciais — como a valorização da renda familiar, a reconstrução da rede de proteção social, a consolidação da Política Nacional de Cuidados e o combate frontal e antirracista à violência de gênero. O diferencial deste pleito será a capacidade de contrapor o projeto de inclusão social e de ampliação de direitos defendido pelas forças populares ao avanço de pautas conservadoras e restritivas da extrema-direita, mostrando que o futuro democrático do Brasil depende diretamente do protagonismo, da autonomia e da dignidade das mulheres brasileiras.

As Eleições Gerais de 2026 revelaram um duplo movimento institucional e ideológico: enquanto a esquerda e os movimentos progressistas consolidaram o recorde histórico de parlamentares comprometidas com a justiça social e a ampliação de direitos, a extrema direita converteu o antifeminismo em uma poderosa máquina de votos nas redes e nas urnas, elegendo bancadas femininas conservadoras que utilizam a própria presença feminina como escudo para desmantelar políticas de proteção e combater a autonomia das mulheres. Diante desse cenário de erosão silenciosa de direitos e de intensa violência política de gênero — que atinge de forma ainda mais perversa e desproporcional as mulheres negras —, o grande desafio para o próximo período reside na urgência de o campo progressista e a esquerda abandonarem respostas confortáveis, aprofundando o diálogo direto nas periferias e territórios para disputar o verdadeiro sentido de ser mulher e antirracista na política. Assim, a reconstrução do Brasil e a superação desse projeto autoritário exigem não apenas somar cadeiras no parlamento, mas assegurar que a autonomia econômica, o enfrentamento rigoroso à violência de gênero e racial e as políticas de cuidado estejam no centro do orçamento do Estado, provando que a representatividade só tem valor real quando serve à emancipação coletiva e à democracia.

Por isso, a vitória neste segundo turno e a subsequente legislatura que se inicia em fevereiro de 2027 estão profundamente conectadas: garantir a reeleição do presidente Lula e a derrota das pautas conservadoras nas urnas é o primeiro passo para que o nosso desafio nos próximos anos não seja apenas somar cadeiras, mas assegurar que a voz das mulheres — em especial das mulheres negras — nunca mais seja silenciada. Como temos apontado nas teses, a reconstrução do Brasil é indissociável da nossa autonomia econômica, do enfrentamento rigoroso à violência contra as mulheres e à opressão racial, e da consolidação de políticas públicas que coloquem o cuidado, a dignidade, a reparação histórica e a justiça social no orçamento do Estado.

(*) Suelen Aires Gonçalves é socióloga, doutora em Sociologia pela UFRGS e dirigente do Coletivo Nacional de Mulheres do PT

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