Aprovado o protocolo da carreira única no SUS. E agora?

Por Francisco Júnior (*)

No início de 2024 o Ministério da Saúde, através da SGTES – Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação em Saúde, criou a Comissão para Discussão e Elaboração de Proposta de Carreira no âmbito do Sistema Único de Saúde – CDEPCA/SUS, estabelecida pela Portaria 3.100 de 18 de janeiro de 2024, com a participação de representantes dos gestores, trabalhadores e convidados com expertise sobre o tema.

Tiveram participação decisiva, num tema que nasceu sob forte ceticismo, representantes dos trabalhadores com assento na Mesa Nacional de Negociação Permanente do SUS e membros do Ministério da Saúde.

Do Ministério da Saúde participaram: o Coordenador-Geral de Regulação e Relações do Trabalho na Saúde, Benedito Augusto de Oliveira, o diretor do Departamento de Gestão e Regulação do Trabalho em Saúde, Bruno Guimarães de Almeida, Patrícia Ferraz Araújo da Silva, Coordenadora de Proteção Social do Trabalho na Saúde – COPS/CGVATS/DEGERTS/SGETEMS/MS e Érica Cristina Silva Bowes, Coordenadora-Geral de Gestão e Valorização do Trabalho na Saúde – CGVATS/DEGETS/SGTES/MS. Todos sob o comando da então secretária de Gestão do Trabalho e da Educação em Saúde – SGTES/MS, Isabela Cardoso de Matos Pinto.

Convidado que fomos, começamos nossa contribuição na 2ª Reunião da Comissão, que aconteceu no dia 17 de abril de 2024, tendo a total e absoluta clareza de que, se por um lado estávamos navegando contra a maré e na contramão da conjuntura estabelecida há décadas, por outro estávamos também a resgatar os conceitos fundamentais do projeto da reforma sanitária, bem como corajosamente a recuperar sua história.

OS DESAFIOS

A proposta do SUS foi atropelada desde seu nascedouro pelo neoliberalismo que aportou com muita força no Brasil na década de 90 do século passado, e também pela lógica patrimonialista que tem assaltado o país desde sempre. Viabilizar uma proposta política que bate de frente com nossa história pregressa, reivindicando e pautando princípios então totalmente refratários a essa história, como a universalidade, integralidade e a democracia participativa, foi uma tarefa que logo começou a encarar desafios de toda ordem.

Desde a promulgação da Constituição Federal de 1988, muito conseguimos e avançamos, mas muitas e grandes também foram/são as derrotas. Enormes dificuldades na atenção básica, absoluta ausência de ações intersetoriais, privatização das ações especializadas, da força de trabalho, da gestão do Sistema e da gerência de toda a Rede, um desmonte do arcabouço jurídico do Estado então aprovado, assim como uma total precarização da contratação e da remuneração da Força de Trabalho, tornaram o SUS um sobrevivente de duríssimos, intermitentes e diuturnos ataque de poderosos inimigos.

CARREIRA ÚNICA: PARA QUEM?

Por tudo isso, não foram poucos os que afirmaram ser uma “perda de tempo” debater uma proposta que em tudo significa a antítese do que temos hoje no país. Antes mesmo de ser do interesse dos trabalhadores que por ela serão atendidos, a Carreira Única no SUS é a possibilidade real e concreta da população ser diretamente beneficiada com um Sistema fortalecido que terá na sua execução uma força de trabalho qualificada, valorizada e profissionalizada.

Foi com essa avaliação que começamos os trabalhos defendendo que a proposta de Carreira Única deveria ser para TODOS os trabalhadores, independente da área de atuação – administrativa, gestão, vigilância ou assistencial -, que já integrem o Sistema nas três esferas de governo, da administração direta e/ou indireta, ativos e aposentados, e que tenham ingressado através de concurso público, mesmo que regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho – CLT.

Diante do dispositivo constitucional que estabelece a autonomia dos entes federados, o que torna impossível qualquer perspectiva de imposição de uma proposta de um ente sobre o outro sem que correspondente alteração na Constituição aconteça, definimos que a Carreira Única será construída e implementada a partir da adesão voluntária de estados e municípios. Financiada por um fundo tripartite constituído para tal fim, observará as reais necessidades bem como a capacidade contributiva de cada ente, obedecendo a legislação específica.

REGIME JURÍDICO ÚNICO X Precarização do trabalho e ação patrimonialista

Total e absoluta precarização e fragmentação na contratação e na remuneração dos trabalhadores – com diferenças abissais não somente entre diferentes categorias com o mesmo nível de formação, mas também numa mesma categoria profissional, conforme o nível de gestão a que estão vinculados – devem ser combatidas e eliminadas através do acesso por concurso publico, obediência ao Regime Jurídico Único, unificação salarial por categoria e por nível de formação em todo o país, independente da gestão ou instituição a que estiver vinculado, bem como estímulos financeiro e profissional à qualificação, interiorização, fixação em lugares de difícil acesso e à dedicação exclusiva.

É um verdadeiro absurdo que uma mesma categoria profissional trabalhando no mesmo SUS receba remunerações totalmente díspares a depender do município, do estado ou do plano de gestão, municipal, estadual ou federal em que exerça suas atribuições. Por isso é imperativo a obediência a pisos salariais e estímulos financeiros nacionais e isonômicos em todo o país, de acordo com o nível de formação e as regras estabelecidas.

Para isso, é lícito reconhecer e afirmar que há sim em curso no país, um projeto político e ideológico de extinção do Regime Jurídico Único e por consequência da estabilidade dos servidores públicos, com prioridade para a criação, ampliação e fortalecimento de instituições e instrumentos de direito privado, como tem acontecido na Saúde Indígena e na Atenção Primária no Ministério da Saúde com a Agência Brasileira de Apoio à Gestão do Sistema Único de Saúde – AgSUS, nos hospitais universitários, com a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares – EBSERH, e recentemente na rede de hospitais federais do Rio de Janeiro, com o Grupo Hospitalar Conceição.

A ordem é estabelecer uma “flexibilização” na contratação e na remuneração dos trabalhadores, submetendo-os ao que classificam como “leis de mercado” e “necessidades dos empregadores”. Na prática é a consolidação do atual estado de coisas com a contratação obedecendo a critérios fisiologistas, clientelistas e patrimonialistas de grupos organizados onde o assédio moral e a total e absoluta insegurança profissional são a regra. Na Carreira Única a contratação via CLT poderá acontecer, sim, mas como exceção, a depender da situação e do momento específico, nunca como a regra.

A obediência ao Regime Jurídico Único é, portanto, condição sine qua non para combater e dar o fim ao violento processo de precarização, mercantilização e de ação patrimonialista que se apoderou da administração pública e da gestão do trabalho no país, entendendo também que o Estado, para bem prover os serviços que a população necessita e que são de sua alçada e responsabilidade, não pode nem deve ter trabalhadores sem estabilidade e assim, reféns dos políticos e dos governantes de plantão. Trabalhadores estáveis no serviço público, particularmente no SUS, são, dessa forma, um direito e um patrimônio da população.

Ainda com o objetivo de respeitar a autonomia dos estados e municípios, o ente federado terá a prerrogativa de contratar os trabalhadores necessários à sua rede de serviços, mesmo nos processos em que aconteça a regionalização de acordo com os princípios do SUS, sendo-lhe assegurada também a autonomia gerencial e administrativa sobre sua força de trabalho.

Propostas de Emenda Constitucional e de Projetos de Lei regulamentando a Carreira e criando o Fundo tripartite estão elaborados e serão apresentados para o debate. O Protocolo construído a partir do relatório preparado pela Comissão foi aprovado pela Mesa de Negociação Permanente do SUS e pelo Conselho Nacional de Saúde.

OS OBSTÁCULOS

Sabemos bem que por falta de consenso com o governo, dispositivos importantes propostos na Comissão não estão contemplados no Protocolo. São os casos do Regime Jurídico Único como regra unificada a ser obedecida, a garantia de contemplar TODOS os trabalhadores do SUS atuais e aposentados, a isonomia salarial por nível de formação, bem como as propostas concomitantes e complementares de contratualização direta entre os serviços e correspondentes níveis de gestão lhes possibilitando autonomia administrativa e financeira, e a profissionalização da gestão como alternativas concretas às terceirizações e utilização de instrumentos públicos de direito privado. Além disso, a matriz salarial inicialmente apresentada à Comissão, oficialmente usada apenas como uma projeção de custos, é total e absolutamente inaceitável.

Temos uma tarefa hercúlea pela frente. Um leque inesgotável de denúncias na mídia em todo o país mostra que a contratação da força de trabalho no SUS foi transformada num dos maiores, mais lucrativos, nefastos e espúrios negócios no país, em que a corrupção e o patrimonialismo imperam. Empresas ligadas a políticos e gestores se apoderam de milhões de reais que fazem falta na rede pública e patrocinam a precarização da contratação e da remuneração dos trabalhadores. Esses, que se locupletam às custas da exploração dos trabalhadores e do assalto aos cofres públicos, são e continuarão sendo contra.

A lei de Responsabilidade Fiscal, criada exatamente com a finalidade de justificar e estimular essa terceirização, privatização e precarização, precisa ser revista.

Necessário se faz uma grande mobilização visando construir um robusto apoio e consenso envolvendo conselhos municipais e estaduais de saúde, gestores federais, estaduais e municipais, legislativo, judiciário, tribunais de contas e população em geral, para resgatar os dispositivos que, propostos na Comissão, foram excluídos do Protocolo, e aprovar a Carreira Única do SUS. É fundamental mostrar que a sua implantação é a possibilidade concreta de solucionar aquele que talvez seja o maior desafio que nosso Sistema enfrenta e que propiciará aos gestores, ao país e à população, o atendimento universal, integral, equânime e resolutivo que eles têm direito.

Óbvio que a Carreira sozinha e isolada não resolverá todos os problemas do SUS. Por isso reiteramos a necessidade de desprivatizar o Sistema, ampliando e equipando a rede pública de modo a paulatinamente substituir a rede privada contratada; garantir um financiamento adequado às nossas reais necessidades e definitivamente estabelecer como prioridades a atenção básica e as ações intersetoriais, sem deixar de dar a resposta que precisamos nos demais níveis de atenção. São os caminhos a serem trilhados para a consolidação do Sistema Único de Saúde como referência para a transformação do país como um todo.

(*) Francisco Júnior é farmacêutico do SUS no Rio Grande do Norte, ex-presidente do Conselho Nacional de Saúde

Respostas de 5

  1. Ou a gente desprivatiza o sistema de saúde ou não terá serviço público de saúde.
    Será que a gente não entendeu o paradigma.

    A presidenta Dilma Rousseff, em 2011, já defendia isso , quando disse entre outras coisas, “a principal doença da Saúde é a parolagem oficial para os sem-Sírio-Libanês”.

    QUEM LEMBRA DO PROGRAMA
    “Melhor em Casa”, do SUS, que previa atendimento doméstico para que não pode se deslocar até uma unidade hospital, no governo federal Dilma 2011????

    Companheiros, tende desprivatizar porque se não vai faltar médicos, já está faltando médico, porque os médicos estão todos nos sistema particular.
    São médicos e médicas, não existe milagre da multiplicação de pães e peixes, a saúde é um vetor de desenvolvimento social. Democracia, saúde e vida são indissociáveis.

    Tende acabar com subsídio fiscal e capital estranho ( estrangeiro) com os planos falsos coletivos.

  2. O plantão médico está associado aos erros.
    No serviço francês, exemplo, a jornada é de 38h semanas.
    Eles tem carreira pública, eles trabalham com dedicação e exclusividade, nenhum lugar do mundo tem jornada de trabalho somente plantão.

  3. Texto dahora!
    Perdemos de um dia para o outro e de forma totalmente inesperada nossa negligenciada saúde e entramos num cenário kafkiano ao nos vermos encerrados num cubículo de uma CTI, muitas vezes sem janelas.
    Estar preso por vários fios a um monitor que insiste em soar um desagradável alarme, com um aparelho de pressão apertando nosso braço a cada trinta minutos, inclusive à noite, de cara a gente já diz: ” não é gratificante”.
    Saúde é sossego minha gente, Saúde é como liberdade: no dia a dia não ficamos pensando como é bom estarmos livres!
    Há pouca diferença entre doença e prisão.
    A gente viu, a pandemia que colocou o lucro acima da vida, e se viu as redes de hospitais privados presenciando muitos prejuízos incalculáveis. As desigualdade estruturais causaram a COVID, a gente viu, por isso política social é aquela que tem oferta de serviços públicos.
    O SUS É PRATICAMENTE TUDO.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *