Argentina e Messi no contexto do globalitarismo

Por Fausto Antonio

Epigrafia da copa de 2026

Antes da abordagem direta do objeto da análise, Argentina e Messi, é útil compreender, de acordo com a chave interpretativa e analítica do geógrafo Milton Santos (2003), a categoria política globalização como expressão sinonímica de apogeu do imperialismo. Globalitarismo é, por sua vez, as formas totalitárias que asseguram, com o sustentáculo do pensamento único, as várias formas totalitárias que sustentam hegemonicamente a globalização, especialmente o totalitarismo do consumo. No tocante ao Brasil, o totalitarismo do consumo, desde há muito, se arquiteta na junção de produtos, produções, mercadorias, valores e pessoas concebidas estética e politicamente pela branquitude totalitária. Totalitarismo do consumo e da branquitude andam juntos no Brasil e na intervenção geoestratégica dos EUA e dos países colonizadores europeus. A Copa de 2026, além do baixo nível técnico, foi conduzida pelo totalitarismo do consumo e da branquitude. Tais visões totalitárias tinham por alvo o gênio Pelé, jogador completo e, principalmente, o Brasil.

O futebol não é um esporte ou uma atividade humana descolada da política. Aliás, a política, entendida como modo de produção da existência, está presente em tudo. Por tal razão, o futebol não é neutro e, especialmente, não é apenas um espaço festivo ou exclusivamente esportivo. Trata-se de uma produção social, logo pode ser instrumento ideológico, econômico, cultural, civilizatório e, portanto, político.

Para compreendê-lo, como a toda produção social, é necessário analisar de forma inseparável o jogo em si e a política. Esta última diz respeito aos arranjos e modos que homens e mulheres conferem à organização da produção e dos meios utilizados para determinar o funcionamento da sociedade em geral e, por extensão, do próprio futebol. Decorre dessa conjugação a sua inseparabilidade do histórico social, empiricizado em determinada sociedade e, no estágio de dominação hegemonizado pelo imperialismo e/ou globalitarismo (SANTOS, 2003), imposto pelos atlanticistas ao sistema-mundo.

Argentina  e  Messi como ativo do Imperialismo

Messi é um ativo do futebol europeu. Por ter construído sua carreira na Europa, recebeu a chancela de melhor do mundo. Já Maradona não era o ideal perfeito para a imposição dessa hegemonia europeia por uma razão básica: projetou-se jogando na Argentina.

Símbolo das grandes potências do imperialismo na seara futebolística, Messi é protegido pela FIFA. No jogo geopolítico, o imperialismo controla totalmente as instituições da “ordem” ocidental, como a ONU, a UNESCO, a OEA e tantas outras, o que inclui a própria FIFA. A reboque, reproduzindo as visões ditadas pelas políticas hegemonizadas pelo imperialismo, a imprensa comercial, a burguesia branca e a pequena burguesia brasileira repetem os textos telegrafados pelas agências europeias e estadunidenses.

A compra dos direitos de transmissão de grandes torneios por gigantes como o Google ilustra essa dinâmica. A imprensa brasileira não é apenas reprodutora servil da visão atlanticista; ela é determinada pelos valores mais baixos, perversos e totalitários do imperialismo. No contexto geopolítico alinhado ao futebol, esse imperialismo atua historicamente para derrotar o futebol brasileiro e, sobretudo, inviabilizar o Brasil como país soberano e possuidor de um ethos civilizatório negro-popular.

O alvo é, rigorosamente, o Brasil e o seu território: país continental e negro-mestiço que, a despeito de técnicos equivocados e de dirigentes e instituições omissas, é reconhecido no mundo, para além do Ocidente imperial, como detentor do futebol-arte. Por essa razão e a serviço da Europa, o maior ativo do Brasil no futebol, Pelé, foi permanentemente desconsiderado, criticado e emparedado pela burguesia branca e pela pequena burguesia brasileira.

O projeto sempre esteve voltado para orquestrar campanhas movidas pelas forças atlanticistas para adornar, a partir de espaços esportivos e festivos, seus sistemas de valores eurocêntricos, brancos, supremacistas de classe, região e racistas, em conformidade com a força econômica e bélica sintetizada na OTAN.

Portanto, no contexto global, desde o advento do gênio Edson Arantes do Nascimento, o Deus da bola, houve campanhas sistemáticas para superá-lo sob um enquadramento brancocêntrico. Em um primeiro momento, a comparação deu-se com Di Stéfano; depois com Cruyff, Maradona e, mais recentemente, a campanha fixou-se em Messi. Ele foi eleito como o “melhor de todos os tempos” num processo articulado para desbancar Pelé e, ao mesmo tempo, desqualificar e destruir o futebol brasileiro e o Brasil, pois o futebol é um extraordinário e potente recurso social.

Comparar Pelé, um jogador completo no quesito dos principais fundamentos do futebol, com atletas unidimensionais de perna esquerda, como Maradona e Messi, evidencia a matriz totalitária dessa campanha, que é também racista e voltada a entronizar a Europa e seus ativos como o único modelo do jogo. A valorização da Argentina, bastião da visão eurocêntrica no contexto sul-americano, é parte integrante desse projeto.

A atuação dos juízes de futebol na Copa de 2026 comprova a nossa tese e análise. A arbitragem cumpre o seu papel quando necessário para empurrar o projeto adiante. A seleção argentina, de baixa estatura técnica, recebeu ajuda aberta no chaveamento e, notadamente, dos juízes e do VAR. O favorecimento explícito foi flagrante ao longo de sua trajetória. O modelo preconizado e estabelecido em torno de Messi é vergonhoso. Ele é alçado a gênio até quando faz meros “chuveirinhos” na área adversária. Mas, a rigor, a campanha midiática muitas vezes não se sustenta no campo, onde o jogador passa partidas inteiras sem tocar na bola ou chutar a gol — é o caso do jogo da final da Copa de 2026. No exemplo em pauta, Messi ficou dependendo da blindagem midiática para mascarar sua real dimensão futebolística.

Outro ataque insinuado, com o ridículo apoio de parte da imprensa brasileira, foi aquele que esboçou a campanha para colocar a atual seleção da França no topo. A campanha arrefeceu devido à constituição negro-africana da seleção francesa e à sua derrota diante da Espanha. Em síntese, fica exposta a lógica individual que visa ao mito Pelé, enquanto a lógica coletiva pretende apresentar referências europeias para diminuir a atuação e a conquista do time genial , expoente do futebol-arte e campeão de 1970, no México.

(*) Fausto Antonio é escritor, poeta, dramaturgo e professor Associado da Unilab, Bahia.

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 10. ed. Rio de Janeiro: Record, 2003.

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