Por Fausto Antonio (*)
Epigrafia da estatura e não da altura
Uma das bruxinhas recebeu um nome pomposo: Olinda do Nascimento. A confraria não gostou. Descartou também o diminutivo do nome; assim, de Olindinha, nasceu Dinha, bruxinha desde o nascimento. A outra, provavelmente reconhecida pelos de casa, derivou de Bibiane, nome elástico, para o duplo diminutivo contido em Bibi; era a bruxinha pela estatura, e não pela extensão do nome.

A encruzilhada em “T” é mágica, assim como o é a encruzilhada em “+”. Mágica é também a Rua Serra do Piauí, no bairro Novo Jardim São José, em Campinas (SP). Imaginem, leitoras, uma encruza em “T” dupla. A escala dos encontros é igualmente a escala dos desencontros, que põe em movimento permanente o lugar e tudo que por ele passa. Assim, a Rua Serra do Piauí, que permite o acesso em “T” com a Rua Cristóvão Bonini, é duplamente mágica: ela forma um “T” no encontro — no inverso do primeiro “T” — com a Rua Capistrano de Abreu e encerra, no duplo da encruza em “T”, as confluências.
Em face do meio um tanto misterioso da rua, outra escala se impõe, ou se contrapõe , no escorregadio da memória. No limbo, há algo em comum: morei no bairro em dois períodos; no primeiro, em uma casa na Rua Barra Bonita e, no segundo, na Rua Cristóvão Bonini. Naquele tempo, desconfiava dessas forças: elas ocupavam cruzamentos. Lembrei, sem ver o fogo, da fumaça verde descendo e da vermelha subindo; no entanto, não tinha entrado na casa existente na confluência da Serra do Piauí com a Cristóvão Bonini. O burburinho no bairro mexia com a minha recepção dos relatos e com a mediação (que era minha e me seduzia) de imaginar um mundo encantado. O tempo passou. Na passagem do ano de 2025 para 2026, visitei, por força do ofício de escritor, a encruza em “T”.
Circulei pelas redondezas e parei na Rua Cristóvão Bonini para falar com antigos moradores, velhos conhecidos. O que escutei a respeito da casa dos pretos, que acolhe as ruas em “T”, aguçou as lembranças. Dizem os vizinhos que na Casa dos Pretos mora uma bruxa; outros moradores das ruas do entorno afirmam, com relativa convicção, que a rigor são duas. Uma é moradora fixa; a outra passa para realizar os ritos.
Uma senhora falou com a voz contraída, como se quisesse falar “na boca pequena” para guardar segredo ou algo similar: — As bruxinhas são duas e mexem muito bem com as vassouras no voo e com as ervas no caldeirão. O fogo queima no fundo e o ar — ela gesticula com as mãos — exala aquele cheiro de ervas encantadas. A senhora fala e meneia a cabeça: é o sinal de admiração e de espanto.
Falsamente, bruxas são mistificadas e acabam, sem o fogo dos que são seduzidos por elas, solitárias e envoltas pelas fábulas; encantam pelas entranhas do inconsciente. Na Cristóvão Bonini, no duplo da encruza em “T”, o inconsciente ganha escala e corpo de duas falsas baixinhas. Às avessas da altura visível, bruxinhas são invariavelmente falsas baixinhas. Curiosamente, elas têm a mesma estatura; bruxas têm estatura e não tão somente altura, escala ritualística do que são e, por equivalência mágica, do que não são.
Uma das bruxinhas recebeu um nome pomposo: Olinda do Nascimento. A confraria não gostou. Descartou também o diminutivo do nome; assim, de Olindinha, nasceu Dinha, bruxinha desde o nascimento. A outra, provavelmente reconhecida pelos de casa, derivou de Bibiane, nome elástico, para o duplo diminutivo contido em Bibi; era a bruxinha pela estatura, e não pela extensão do nome.
No interior da casa de pretos, durante o sarau de Ano-Novo, após a encenação da peça Arthur Bispo do Rosário, o Rei — clássico da dramaturgia negro-brasileira interpretado pelo ator Boni —, elas estouraram uma bebida que fez um rasgo verde-vermelho no céu estrelado. Na sequência, uma celebrada bruxa da confraria “Mil em Cena”, com duas bruxinhas peregrinas, desfiou as teias de histórias, cantorias e danças ancestrais.
Pois bem, nem só de imagem, imaginação, criação e fogo, espírito, vivem as bruxas. Na partilha da ceia, as bruxinhas cortaram e provaram a costela, sentenciando: “Está uma delícia a costela de Adão”. Segundo as vizinhas, é assim que elas dominam os homens. Percebi, pelo reflexo do espelho e pelo riso de Bibi e Dinha, que elas seduziram na encruzilhada em “T” e, depois, comeram as costelas de Adão.
O inverso não é dominação, mas sim sedução. Os sentidos não são, portanto, os mesmos. Comer a carne de Adão, revelando que Eva dele proveio, é uma forma de restituição: quem come será comido e renovado, recriado pelo sangue vital. Assim, ao comerem a costela de Adão, elas tornaram-se as Evas imemoriais na encruzilhada em “T”.
(*) Fausto Antonio é escritor, poeta, dramaturgo e professor Associado da Unilab – Bahia.
