Por Milton Pomar (*)

A China entrou em 2026 com novo Plano Quinquenal (o 15º, de 2026 a 2030), novos desafios – o colapso da população chinesa e o risco de ataque político e militar dos Estados Unidos (EUA) – e as questões antigas da escassez de água, corrupção, e da segurança e soberania alimentar.
Infelizmente, o colapso populacional da China vai muito além do “envelhecimento populacional” e da “redução dos nascimentos”, e não será com as medidas tímidas anunciadas que conseguirão reduzir as velocidades da diminuição e do envelhecimento da população – daqui a 50 anos, 400 milhões de habitantes a menos, e, do um bilhão restante, metade com 65 anos de idade e mais.
Aparentemente, ainda não há consenso no comando político do país em relação ao colapso de sua população no século 21, apesar de a própria Divisão de População de ONU ter revisto suas previsões e colocado a possibilidade de a China chegar em 2100 com apenas 638 milhões de habitantes, o que significaria uma redução de quase 800 milhões de pessoas em relação ao total em 2026. Como a diminuição da população chinesa é realidade há quatro anos, era de se esperar que o 15º Plano trouxesse diretrizes e metas para esse fenômeno, que resultará em menor necessidade de recursos hídricos, alimentos e investimentos em infraestrutura; e provocará inevitável desvalorização de imóveis residenciais; e do aumento da quantidade de pessoas vivendo só.
Espionagem e provocação
Outro desafio permanente, mais do que ataques militares, é o risco da desestabilização política provocada por agentes dos serviços secretos estadunidenses – explicitada novamente dia 12 de fevereiro de 2026 com a campanha de propaganda da CIA no YouTube para recrutar informantes na China, direcionada a oficiais das Forças Armadas. A campanha anterior, em maio de 2025, focava em integrantes do Partido Comunista chinês. Essas campanhas de propaganda dos EUA para recrutar informantes na China, além de provocação ofensiva, são também a admissão pública de que a rede de espionagem da CIA foi efetivamente desmantelada pela contraespionagem chinesa de 2010 em diante.
Como a possibilidade de ataque militar não pode ser subestimada, a China é obrigada a investir mais em armamentos e munições. Em 2025, o país estava em segundo lugar em gastos de Defesa no mundo, com US$251 bilhões (US$531,4 bilhões, pela Paridade do Poder de Compra – PPP), atrás apenas dos EUA (US$921 bilhões), segundo o Balanço Militar 2026 do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (www.iiss.org). Dado o anúncio de Trump de que aumentará o orçamento do “Departamento de Guerra” para mais de US$1 trilhão, a corrida armamentista está na ordem do dia – e a China também terá que continuar aumentando os seus gastos militares.
Coincidindo com as ofensivas militar e de espionagem dos EUA, os anúncios de demissões de altos oficiais do comando do Exército chinês no início de 2026, na sequência de outras nos últimos anos, geraram especulações de que as acusações de corrupção seriam apenas disfarce do real motivo político de concentração de poder, daí a denominação de “expurgos” empregada com frequência na Mídia. Quaisquer que sejam as razões para as demissões de generais, elas só confirmam que a China está se preparando para o que der e vier, dos EUA e de quaisquer outros países.
Modernização socialista
Ousado, o 15º Plano Quinquenal propõe a “modernização” da população chinesa, que avançará no período seguinte a 2030, dadas as suas dimensões. Segundo a Xinhua, agência estatal de notícias, “Até o momento, menos de 30 países e regiões no mundo alcançaram a modernização, com uma população combinada não ultrapassando 1 bilhão (…)”.
Entre as metas mais ambiciosas do Plano está a da renda per capita em 20 mil dólares até 2035 (aqui).
As estimativas do Fundo Monetário Internacional para o PIB per capita da China, em 2026, estão entre US$14,7 mil (paridade cambial) e US$31,2 mil (PPP), o que obrigará a China a aumentar em 36% a renda per capita até 2035, proeza compatível com a meta anual de 5% de aumento do PIB. Como o PIB em 2026 (pela PPP) deverá atingir US$43,5 trilhões, a China alcançará 19,8% da economia mundial, à frente dos 14,5% dos EUA (US$31,8 trilhões), realidade que explica parte do “alopramento” de Trump et caterva.
(*) Milton Pomar é professor, geógrafo, mestre em Políticas Públicas, autor do livro O sucesso da China socialista, 1949-2025: de país muito pobre a maior economia mundial.
