Congresso de 2008 envolveu quase 15 mil jovens

De 2005 a 2008, Juventude do PT travou importantes debates que hoje precisamos revisitar

Mesa do 1o Congresso da Juventude do PT, com o microfone, Rafel Pops.

 O PT criou pela primeira vez uma Secretaria Nacional de Juventude (SNJ) em 1987, mesmo ano em que o Partido foi vitorioso para a direção da UNE (veja quadro com a linha do tempo). Com a ajuda do Centro Sergio Buarque de Holanda, identificamos que o Partido teve ao menos dois secretários da SNJ, Cezar Alvarez (1988-90) e Jorge Almeida (1991), que já não eram jovens à época. Informações constantes de um texto da Revista Perseu[1] indicam que a segunda metade dos anos 1990 foi marcada por uma “desarticulação” da SNJ. “Em 1995, se forma uma nova maioria partidária, e que não era uma maioria entre os jovens petistas organizados naquele momento”, afirma Rafael Pops, militante da AE.

O primeiro secretário de Juventude escolhido após o período de “desarticulação” da Juventude do PT foi Rodrigo Abel, do Campo Majoritário, em novembro de 2001, durante o Encontro Setorial da Juventude do PT. Com o início do primeiro governo Lula, em 2003, muitos dirigentes do Partido acabaram migrando para o governo, sendo substituídos sem a realização de um PED. Foi o caso do então presidente José Dirceu, substituído por José Genoino numa decisão da Executiva Nacional. E não foi diferente na Secretaria da Juventude. Rodrigo Abel foi substituído por Humberto de Jesus em uma decisão interna do setorial. “Ou seja, o coletivo de dez pessoas falou: ‘O Rodrigo Abel está saindo, vamos botar o Humberto’. Não tinha também nenhuma normativa do Partido de como se faria essa substituição em caso de vacância”, conta Rafael Pops, que em 2005 assumiria o comando da Secretaria, na única eleição, até agora, em que o Campo Majoritário (e depois CNB) perderia o cargo. “A juventude sempre foi um reflexo da disputa geral do Partido. E ela, muitas vezes, antecipava disputas gerais do Partido. Acontecia antes na juventude. Se você pegar em todo o período da história, você vai ver que ela está balizada pela disputa geral do Partido. E isso era um dos argumentos também que balizava a nossa ideia, a nossa proposta de um congresso de juventude do PT e de uma juventude de massa.”

Nos meses que antecederam o PED de 2005, Pops resistiu a aceitar a candidatura ao setorial porque temia ser jubilado na UNB e queria dedicar-se a terminar sua gestão na UNE. “Aí, os dirigentes da Articulação de Esquerda na época me falavam assim, gente de juventude: ‘Fique tranquilo, você não tem a menor chance de ganhar’. Aí eu topei. Falei, beleza, então a tarefa é ir até o encontro e cumprir a tarefa militante.” Mas, em junho, estoura a crise do mensalão e “tudo muda na correlação de forças dentro do PT”.

A disputa à presidência do PT nacional vai a segundo turno, com Ricardo Berzoini, da CNB, e Raul Pont, da DS. A candidatura de Valter Pomar, da AE, passa a apoiar Raul Pont. “Essa relação Walter e Raul influenciou muito no processo de coalizão política na juventude, porque as definições dos candidatos do setorial de juventude foram bem próximas do segundo turno do PED geral. Então isso foi fazendo a esquerda do PT se convergir na juventude como não se convergia há muito tempo. O que me ajudou também foi que o Campo Majoritário estava dividido e foi com duas candidaturas para a Juventude, enquanto eu fui candidato único da esquerda. Bem, a DS apoiou um dos candidatos do Campo Majoritário no primeiro turno e me apoiou no segundo. Vale dizer que parte desse racha da CNB havia apoiado o Raul. Mas o Movimento PT, a Articulação de Esquerda, toda a esquerda do PT, mais parte do Campo Majoritário apoiavam a minha candidatura desde o primeiro turno.”

Eram muitas as críticas que Pops tinha sobre o modus operandi da Secretaria. “Os encontros setoriais não aconteciam nas etapas municipais. Então os encontros de juventude eram só estaduais. O que acontecia era que você marcava um dia, e aí levava ônibus de tudo quanto é lugar, as pessoas assinavam, almoçavam e iam embora. Você não tinha um processo de debate. Então essa era uma das críticas muito fortes que a gente tinha sobre a organização partidária, porque a nossa organização de juventude não refletia nenhuma organização de base. Então a juventude do PT não ia se fortalecer, existir, sem ter uma organização de base, sem ter uma organização municipal, porque juventude é uma condição. Isso era parte do nosso debate.”

Depois de enfrentar inclusive a instalação de uma “secretaria paralela” por parte de integrantes da CNB, a gestão de Pops conseguiu se aproximar de integrantes da tendência majoritária que não estavam de acordo com esse “paralelismo”, criando as condições para levar adiante a ideia de um Congresso. “A gente tinha uma maioria instável do coletivo, mas a gente queria fazer uma gestão para todo o PT, a gente não queria fazer uma gestão de fração, até porque a direção do PT continuava majoritariamente de outro grupo. Então a gente trouxe esse setor da CNB muito no debate da construção de um congresso da juventude do PT, de um congresso que tivesse etapa municipal, estadual, que organizasse, porque isso interessava a eles também, na disputa interna da CNB, porque eles, enquanto jovens, também eram alijados de vários processos internos para dentro do PT”, recorda Pops.

O ano de 2007, então, começa com uma jornada de formação no Instituto Cajamar. “Agente trouxe experiências internacionais de juventude. Nisso, o financiamento da FES foi muito importante, porque o Partido, na época, não dava recursos para a juventude, muito menos sendo a juventude dirigida por um agrupamento de esquerda. Então, durante 2007 inteiro, foi intensa a articulação do que seria o Congresso da Juventude do PT.”

Filiação intermediária

Mas estava em debate também o que seria a juventude do PT depois do Congresso. “Aí é onde moravam as divergências, porque a gente, a Articulação de Esquerda, achava que tinha que ter uma juventude de massas que tivesse identidade com o PT, que não tinha que esconder o nome PT, e em vez de juventude do PT, tinha que criar uma organização de massa que era a juventude petista, que teria filiação intermediária, ou seja, o cara pode decidir se filiar à juventude petista, mas não necessariamente se filiar ao PT.”

No caminho para esse objetivo, era necessário aprovar, no 3º Congresso Nacional do PT, uma resolução que permitisse que todos os filiados do PT com até 29 anos pudessem participar de outro setorial concomitantemente; também que a juventude teria congressos municipais e estaduais, comporia uma direção municipal, estadual e nacional. “Ia se desenhar um novo modelo de juventude para o partido trabalhador”.

Com vistas a conseguir o apoio necessário à proposta entre os jovens, a segunda jornada de formação com a FES foi feita paralelamente ao 3º Congresso do PT, em São Paulo. “A gente apresentou e debateu o que seria a resolução de juventude, pactuamos com todas as forças. E fomos todos os jovens do PT, de todas as tendências, pedir assinatura para os delegados para inscrever essa resolução. E foi tão bem articulado, foi tão bem desenhado, que isso foi tomando uma proporção gigantesca. A base da CNB de delegados adultos começou a assinar muito, e a direção, que era contrária à ideia, começou a ficar assustada. Quando eles perceberam que era inevitável, entrou um processo de negociação, porque eles queriam votar a proposta, só que eles iam emendar a proposta, iam acabar com ela, iam acabar com os municipais, iam manter o setorial, só que com o nome de Congresso. E aí começou uma negociação em termos de Direção Nacional.”

No dia seguinte, para evitar uma derrota do Campo Majoritário no Congresso, a direção propôs uma emenda: todas as decisões do Congresso da Juventude do PT precisam ser aprovadas/referendadas pelo Diretório Nacional do PT. Para evitar que a unidade da juventude construída até ali se dissipasse e pusesse a resolução em risco, a proposta foi aceita. “E a resolução foi aprovada por unanimidade. Essa foi a cunha”.

Juventude unida?

“Então, a partir dali, a gente marchava junto para fazer o Congresso, mas a gente se explodiu. Cada um foi correr atrás da sua organização para disputar o Congresso, para ganhar o Congresso, para ganhar a sua concepção de juventude. Então a unidade durou até ali.” Além dessa ruptura, Pops admite que a Articulação de Esquerda, naquela ocasião, foi consumida pela burocracia da construção do Congresso da Juventude, além de ele, pessoalmente, estar em processo de luto pela morte da mãe. “Para você ter uma ideia, uma semana antes do primeiro Congresso da Juventude, o Ferreira era o tesoureiro, ele me ligou e falou: ‘Eu não vou pagar esse Congresso, porque eu não vou pagar um Congresso para a Articulação de Esquerda ganhar de novo e criar uma UJS do PT’. E aí eu fui ao Berzoini. ‘Fica tranquilo que a gente vai resolver’.”

Eram pelo menos três as versões sobre o que tinha que ser a juventude do PT. “O CNB, desde o início, não topava uma juventude de massas, queria que a juventude fosse um setorialzão, que é o que a gente tem hoje, simplesmente um organismo partidário e tal. Tinha uma visão da DS junto com uma parte da CNB, que era um sistema híbrido. A única diferença do setorialzão é que a juventude do PT teria um orçamento próprio e teria autonomia para tomar as suas próprias decisões, ao contrário da CNB, que defendia que tudo tinha que passar pelo diretório. E tinha a Articulação de Esquerda, o Movimento PT, uma parte da CNB também, mas o PT de Luta e de Massas na época, que defendia uma juventude de massas, uma juventude de massas ao modelo dos lusos, do SPD alemão, ao modelo da UJS, mas [adaptada] ao modelo petista, porque a UJS esconde o PCdoB, os lusos não escondiam o SPD.”

Em resumo, a AE defendia que era uma juventude de massas com filiação intermediária, com orçamento próprio, com autonomia de tomada de decisões políticas. E se chamaria Juventude Petista. “Nessa época, entra um outro debate, a gente já começou a fazer esse discurso falando que, além da juventude, mulheres e negros também teriam que ser frente de massas”.

Em 22 de março de 2008, começa o Primeiro Congresso da Juventude do PT, em Brasília. Pelo menos 14 mil jovens participaram na base e mais de mil nos quatro dias de atividades. Eram três agrupamentos que disputavam a direção, a cabeça do que seria a nova Secretaria de Juventude do PT pós Primeiro Congresso. “A CNB chegou ao Congresso muito unificada; a DS, com o pessoal da CNB que estava com eles, chegou muito unificada; e o nosso campo, estourado pela burocracia do Congresso, chegou dividido em duas candidaturas, no Rodrigo César e no Gabriel Ribeiro, do Movimento PT.” E quem venceu? “A CNB”.

“Então, para a gente, do ponto de vista da Articulação de Esquerda, a gente tinha um desenho muito bem planejado. A gente produziu material interno, de construção de uma juventude de massas por partidos de trabalhadores, que tinha muito a cara de um partido militante e de massas. O projeto estava muito bem desenhado, elaborado, pesquisado. Faltou correlação de forças no primeiro Congresso. E a correlação de forças foi extremamente impactada pela gestão da burocracia do Congresso”, considera Pops.

Mas uma das ideias-chave da juventude de esquerda naquele Congresso seria implementada pela gestão da nova secretária, Severine Macedo: a Caravana da Juventude do PT. “Que era pegar um ônibus da juventude do PT e rodar o país inteiro. E deu um baita impacto em 2008, nas eleições municipais. Tinha um ônibus todo plotado, rodando, a direção rodou o país. E na nossa proposta de juventude de massas, essa caravana já era uma caravana para ir se fazendo plenárias gigantescas, aproveitando o processo eleitoral e tal. Para mim, o grande marco da gestão da Severine foi a caravana, mas foi uma ideia que a gente construiu.”

Linha do tempo

QUANDO O QUE
1984 3º Encontro Nacional do PT aprova Regimento Interno que permitia a criação de secretarias estudantis em nível regional e nacional.[2]
Outubro de 1987 PT ganha as eleições para a direção da UNE (dirigida pelo PCdoB desde a redemocratização). Presidentes petistas na UNE: Valmir Santos (1987-88); Juliano Coberllini (1988-89) e Claudio Langoni (1989-91). [3]
Dezembro de 1987 Fundação da Secretaria Nacional da Juventude do PT (SNJ) no 5º Encontro Nacional do PT.
1988 Aprovado o direito a voto a partir dos 16 anos.

Cezar Alvarez é o secretário de Juventude do PT até 1990.

1991 Derrota do PT para o PCdoB na eleição da UNE.

I Encontro Nacional da Juventude do PT.

Jorge Almeida é o secretário nacional de Juventude do PT.

1992 Eclode o movimento dos Cara-Pintadas pelo impeachment de Fernando Collor.
1993 II Encontro Nacional da Juventude do PT.
1995 10º Encontro Nacional do PT aprova resolução com diretrizes de atuação na juventude.
Segunda metade dos anos 1990 Ascende o movimento Hip-Hop, cuja relação no PT fica a cargo do recém-criado GT da Juventude da Secretaria Nacional de Combate ao Racismo.
1997 Último Encontro Nacional de Estudantes do PT.
1998 PT realiza grande ato de campanha com o movimento Hip-Hop.

I Seminário Nacional da Juventude Negra do PT.

CUT e MST instituem fóruns próprios da juventude.

1999 II Seminário Nacional da Juventude Negra do PT.

Secretaria Nacional da Juventude do PT volta a funcionar.

A partir de 2000 Tem início uma onda jovem na população brasileira, que alcançaria seu ápice em 2010, com 51 milhões de pessoas na faixa de 15 a 29 anos.

Intensifica-se a criação de organismos de juventude nas administrações municipais, estaduais e federal.

2001 De 27 e 28 de outubro – Encontro Setorial Nacional do PT, em Guarulhos (SP).
Desde 2002 PT passa a ter programa eleitoral voltado especificamente para a juventude.
30 de junho de 2005 A Lei nº 11.129 cria o Conselho Nacional da Juventude (CONJUVE) e a Secretaria Nacional da Juventude, vinculada à Secretaria-Geral da Presidência da República
Novembro 2005 Encontro Setorial da Juventude do PT, na Câmara Municipal de São Paulo (SP), reúne 3 mil participantes e elege Rafael Pops, da AE, secretário nacional da JPT para o período até 2008.
2007 Encontro Nacional da Juventude Negra (ENJUNE), em Salvador.
Agosto de 2007 III Congresso do PT aprova resolução que define que todo filiado e filiada com até 29 anos passava a fazer parte da JPT, o que lhe autorizava a fazer parte de outros setoriais.
Abril de 2008 1ª Conferência Nacional da Juventude.
22 a 25 de maio de 2008 1º Congresso Nacional da JPT, em Brasília, reúne 15 mil participantes. Severine Macedo é eleita secretária da SNJ.
Agosto 2008 Início da Caravana da Juventude do Brasil, realizada pela SNJ.
5 a 7 de fevereiro de 2010 Encontro Nacional da JPT.
Novembro de 2011 IV Congresso do PT aprova a reserva de 20% de vagas na direção do Partido para pessoas de até 30 anos de idade.[4]
12 a 15 de novembro de 2011 2º Congresso Nacional da JPT, em Brasília. Jefferson Lima é eleito secretário da SNJ.
9 a 12 de dezembro de 2011 2ª Conferência Nacional de Juventude “Conquistar Direitos, Desenvolver o Brasil!”
Junho de 2013 Protestos generalizados que ficaram conhecidos como Jornadas de junho.
5 de agosto de 2013 Lei 12.852 institui o Estatuto da Juventude.[5]
19 a 22 de novembro 2015 3º Congresso Nacional da JPT, em Brasília. Jefferson Lima é reeleito secretário da SNJ.
16 a 19 de dezembro de 2015 3ª Conferência Nacional de Juventude “As Várias Formas de Mudar o Brasil”.
2016 Ocupação de escolas por estudantes contrários à Reforma do Ensino Médio e a outras políticas educacionais do governo Temer, como a PEC 241.
2018 4º Congresso Nacional da JPT, em Brasília. Ronald Sorriso é eleito secretário da SNJ.
Julho de 2020 Breque dos Apps, mobilização grevista organizada por entregadores de aplicativos para protestar contra as condições de trabalho.
Dezembro 2021 5º Congresso Nacional da JPT (formato híbrido devido à pandemia da Covid-19)[6] . Nádia Garcia é eleita secretária da SNJ.
14 a 17 de dezembro de 2023 4ª Conferência Nacional de Juventude “Reconstruir no Presente, Construir o Futuro: Desenvolvimento, Direitos, Participação e Bem Viver”
2024 VAT – Movimento Vida Além do Trabalho, que teve origem na Europa, começa a ser disseminado em redes socias, com o objetivo de acabar com a escala de trabalho 6×1.
12 a 14 de dezembro de 2025 6º Congresso Nacional da JPT, em Luziânia, Goiás.

 

 

[1] Disponível aqui: https://fpabramo.org.br/csbh/wp-content/uploads/sites/3/2017/05/13-PT_ea_Juventude.pdf

[2] Fonte: https://revistaperseu.fpabramo.org.br/index.php/revista-perseu/article/view/77/49

[3] Site da UNE.

[4] https://fpabramo.org.br/2011/11/08/uma-oportunidade-historica-para-a-juventude-petista/

[5] https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/lei/l12852.htm

[6] https://pt.org.br/balanco-do-5-congresso-nacional-da-juventude-do-pt/

 

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