Por Fausto Antonio (*)

Epigrafia que inclui, na história recente, a correlação de força antirracismo
Por outro lado, no campo de atuação específica, os movimentos negros de alcance nacional, segue uma lista incompleta nas referências, não organizam formação de quadros, nem congressos táticos e estratégicos ampliados e/ou unificados, mesmo em momentos cruciais, como, por exemplo, antes e após o golpe de 2016, que derrubou a presidente Dilma a serviço da burguesia branca brasileira e do imperialismo. No caso do gollpe branco em paita, 2016, a unidade dos movimentos negros deveria defender o governo atacado e ,sobretudo, a soberania negro-popular.
A correlação de forças não é algo natural. É por meio da luta política que podemos considerar a “correlação de forças” como uma categoria de análise e, sobretudo, de intervenção. É na disputa concreta que ela se estabiliza como tal, e não o contrário. A rigor, só podemos considerá-la um instrumento efetivo para elevar a consciência — e, notadamente, a ação e a hegemonia da classe trabalhadora — no embate anti-imperialismo e na oposição à burguesia branca brasileira, que é a classe antagônica aos trabalhadores.
Nos 16 anos de governo do PT, não avançamos na utilização dos instrumentos governamentais para elevar, a partir de uma disputa acirrada contra a burguesia branca, os projetos estratégicos nucleados pela organização, mobilização e enfrentamento. Estes deveriam ter sido encetados pela disputa e por mudanças nas estruturas constituintes do Estado e da sociedade. Em outros termos, a correlação de forças é o instrumento para assegurar o acúmulo de força e, principalmente, uma correlação favorável à classe trabalhadora e ao campo negro-popular.
A disputa não deve ficar subordinada a “ventos favoráveis” que, dentro de certos limites, paralisam o avanço da consciência de classe. Tal subordinação impede uma intervenção que, para além da tática eleitoral, estabeleça avanços no acúmulo de força contra a burguesia branca no plano interno e contra o imperialismo-sionismo no contexto geopolítico do sistema-mundo, tanto no território nacional quanto nos domínios geo estratégicos internacionais.
A totalidade sistêmica do estágio atual da política hegemonizada pelo imperialismo não pode ser enfrentada sem uma compreensão consistente e renovada do sistema-mundo. O “todo” pode ser revisto e derrotado no “lugar” (categoria aqui sinônima de país), desde que entendamos a totalidade — ou a força vinda de fora — que impede a estruturação da soberania local. Em nossa formulação, o lugar só tem validade como chave interpretativa ou curricular quando expulsa a força totalitária e opressora do chamado “global”, universalizante, que se traduz e funciona como imperialismo. Por equivalência, na correspondência entre lugar e país, a soberania nacional do Brasil, umbilicalmente fundida ao território usado e ao desenvolvimento industrial, científico e tecnológico, concretiza-se na disputa contra a burguesia antinacional e, fundamentalmente, contra o imperialismo.
Quadros negros nos escalões do governo Lula
O governo petista não avançou, nos últimos 16 anos de mandato, na política de disputa da sociedade, do Estado e notadamente dos sistemas de valores. A alegação de que é “apenas governo” não justifica, a despeito da realidade e dos limites conjunturais do governo em oposição ao poder, que no Brasil sempre esteve com as elites brancas — a manutenção desse quadro. Com a consolidação da burguesia branca, que assim deve ser caracterizada, a questão torna-se pedagógica por um lado e, por outro, um meio para não reproduzirmos o mito da democracia racial.
O governo Lula não alterou o quadro nas duas pontas: na disputa do Estado e na das forças e estruturas de classe, que se revigoram nos sistemas financeiro, econômico e militar (Forças Armadas e órgãos de repressão e jurídicos), além dos sistemas de valores em geral e comunicacionais, em particular, vide Rede Globo e outros.
No que toca diretamente ao Movimento Negro Brasileiro, o cenário é o mesmo, ressalvado o risco de generalização. Uma tese falsa é aquela recorrentemente utilizada para justificar a paralisia, atribuindo o estágio de imobilidade à participação e cooptação de ativistas negros(as) pelo governo atual. Tal proposição é falsa e revela uma meia-verdade; há quadros em profusão fora das instâncias governamentais que, a rigor, não realizam o que seria ideal ou desejado para o momento histórico, seja por adesão direta ou indireta ao projeto de disputa nos limites do sistema capitalista.
Isso deixa o movimento sem envergadura e musculatura para enfrentar o racismo, considerando a necessidade central de superar o capitalismo — notadamente em seu estágio atual, materializado no plano nacional por uma burguesia branca e racista e no internacional pelo imperialismo. Os quadros negros que estão no governo ou são indicados por ONGs, ou são delas ideologicamente tributários, lógica que se aplica também aos “ativistas” do meio ambiente.
Por outro lado, no campo de atuação específica, os movimentos negros de alcance nacional,segue uma lista incompleta nas referências, não organizam formação de quadros, nem congressos táticos e estratégicos ampliados e/ou unificados, mesmo em momentos cruciais, como, por exemplo, antes e após o golpe de 2016, que derrubou a presidente Dilma a serviço da burguesia branca brasileira e do imperialismo. No caso do gollpe branco em paita, 2016, a unidade dos movimentos negros deveria defender o governo atacado e ,sobretudo, a soberania negro-popular. Diante de chacinas que se multiplicam, persiste a paralisia e a ausência de um motor de intervenção que opere a unidade, em uma mesma chave contra o racismo e o capitalismo, dos movimentos negros de alcance nacional, dos coletivos antirracismo dos partidos de esquerda, da CUT, dos sindicatos e do sistema cultural negro brasileiro. Tudo isso sem sonegar a centralidade da luta ou reproduzir a tarja ideológica da chamada democracia racial brasileira, que invisibiliza a natureza do capitalismo persistente no Brasil e sua realidade concreta: a composição branca da burguesia nacional, síntese acabada da inseparabilidade entre classe e raça.
Imperialismo e antirracismo: categorias de análise e intervenção centrais
Considerando que a categoria de análise imperialismo não faz parte do seu repertório político central, a despeito de frações aguerridas e não hegemônicas que defendem a sua utilização fundamental , o movimento negro, em geral, não dispensa atenção às lutas e guerras eternas que assolam o continente africano. A propósito, não acompanha ou não demonstra interesse tático-estratégico pelas dinâmicas anti-imperialismo em marcha no continente. São pedagógicas as ausências de campanhas teóricas, de rua e de solidariedade em defesa dos países que, no Sahel, enfrentam o aparelho imperialista franco-ianque. Não há notícias de campanhas em defesa de Níger, Mali e Burkina Faso, que estão em confronto aberto e na ofensiva contra o imperialismo francês, notadamente.
(*) Fausto Antonio, professor da Unilab-Bahia, celebra 40 anos de carreira literária em 2026. Sua atuação multifacetada abrange a poesia, a dramaturgia e a prosa.
Referências
CONEN – Coordenação Nacional de Entidades Negras
MNU -Movimento Negro Unificado
CONAQ (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas
Coalizão Negra por Direitos
Agentes de Pastoral Negros do Brasil (APNs)
ABPN (Associação Brasileira de Pesquisadores(as) Negros(as))
