Por Jana Silverman (*)

Desde faz mais de 12 anos (com as fatídicas “Jornadas de Junho” e o crescimento da nova extrema-direita no país), temos dito que estamos vivendo tempos “interessantes” no Brasil. Mas agora os tempos são mais “interessantes” ainda, e não apenas na América Latina, mas no mundo como um tudo. Estamos vivenciando em tempo real o desvanecimento do sistema global unipolar construído nas cinzas do fim da Guerra Fria. Mas atualmente a China não está plenamente em condições ainda para contestar o poder decrescente dos EUA em todas as suas facetas, e o sistema multilateral internacional, que poderia ser o ponto de partida para a construção de um mundo verdadeiramente multipolar, está sendo minado pelo próprio poder que o concebeu e ostensivamente o protegeu durante décadas. Parafraseando Gramsci, estamos agora no tempo de monstros. Devido à imprevisibilidade e inconsistência da política externa do Governo Trump 2.0, podemos dizer também que estamos no tempo de reviravoltas e de tsunamis políticos. Como sobreviver a esse tempo de tsunamis, preservando a dignidade e soberania brasileira, se a onda quer destruir tudo no seu rastro?
Primeiro, devemos reconhecer que os anseios liberais para fortalecer a “ordem mundial baseada em regras,” ancorada na atuação de órgãos internacionais como a ONU, como resposta ao caos do mundo Trumpiano, não necessariamente nos levara a um mundo socialmente mais justo e economicamente menos desigual. Apesar desse sistema nos deixar o legado da codificação do direito internacional dos direitos humanos e do direito internacional humanitário, e da criação de normas para estimular a resolução pacífica dos conflitos, essa ordem mundial “benéfica” sempre fingia não ver as numerosas atrocidades cometidas contra os povos do Sul global (e contra os povos oprimidos dentro do Norte global), não apenas durante a Guerra Fria, mas também nos anos recentes. O sistema ONU não conseguiu parar a guerra inventada contra o Iraque no começo do século 21, apesar de não ser “aprovada” por parte do Conselho de Segurança, nem tenha conseguido pôr fim ao bloqueio sufocante de Cuba por parte dos EUA, apesar dos 33 votos consecutivos e quase unânimes por parte da Assembleia Geral da ONU contra tal política ilegal e imoral.
Segundo, devemos lembrar que as atrocidades do Governo Trump 2.0 tem sido possível em grande parte devido à cumplicidade, como no governo anterior (que era ostensivamente mais “afinado” com as normas e princípios do sistema multilateral internacional), com políticas neoimperialistas, guerras hibridas e até com genocídios. O governo Biden estimulou ainda mais uma nova Guerra Fria com a China, incluindo provocações militares explícitas, e recusou a levantar as medidas mais desumanas do bloqueio contra Cuba até literalmente a última semana da sua presidência. E nenhuma barbaridade que está sendo ou que será cometida por parte do Trump nos fará esquecer das crueldades incomparáveis cometidas contra o povo palestino com precisão e esmero por parte do exército israelita, com o apoio ativo e incondicional do Governo Biden. As atrocidades cometidas por parte dos EUA no plano internacional com certeza não começaram apenas no dia de 20 de janeiro de 2025.
Levando essas ressalvas em consideração, como podemos entender esses violentos suspiros em busca de ar de um imperialismo em declive sob a batuta do Trump, para assim poder construir estratégias de enfrentamento desde a América Latina e o Brasil em particular? O número de ferramentas disponíveis para os EUA exercer sua hegemonia está diminuindo. Nas primeiras semanas após a posse, Trump já tinha se descartado o uso mais sistemático do “soft power,” com a redução dos programas da United States Agency for International Development (USAID) em quase 90% (o que tem resultado em restrições de entrega de ajuda humanitária para mais de 25 milhões de pessoas em todos os rincões do mundo).
Outra ferramenta badalada do Trump usado para promover seus desenhos imperiais tem sido a política comercial, e, em particular, o uso de tarifas para compelir a subserviência de outros países, incluindo numerosos aliados históricos na Europa Ocidental e na América do Norte. O que temos visto nesse ano de guerra tarifária, e que os países mais impactados de fato têm sido os que já estão claramente no campo político estadunidense, como a Inglaterra, que vai encarar mais um aumento de 2,1% nas tarifas com a última rodada de restrições comerciais anunciadas por Trump no dia 21 de fevereiro. Enquanto isso, as tarifas médias para a China e para o Brasil diminuirão 7,1% e 13,6%, respectivamente, segundo o Global Trade Alert. Além disso, a política externa baseada na aplicação de tarifas esmagadoras nos produtos de outros países está perdendo seu apelo entre a sociedade americana, com mais de 90% dos custos adicionais para produtos importados sendo repassados diretamente para os consumidores e os donos de pequenos negócios, segundo um estudo da New York Federal Reserve Bank. Segundo uma pesquisa realizada em janeiro de 2026 pela New York Times e Siena University, 54% dos eleitores americanos se opõem às tarifas, deixando um recado que deve ser ouvido na corrida para as eleições de meio-termo a serem realizadas em novembro deste ano.
Então, neste contexto, a única ferramenta que sobra agora para o Governo Trump 2.0 é a política bélica, pura e simplesmente. Claro que esta política pode tomar uma forma híbrida, parecida ao que tem sido praticado por parte dos EUA por anos incontáveis contra países como o Irã e Cuba, mas também contempla a intervenção militar, nua e crua, como o que observamos em Caracas na madrugada de 3 de janeiro, quando os EUA sequestraram à força o presidente Nicolás Maduro e a primeira-dama Cilia Flores, sob o pretexto ilegal e absurdo de fazê-los ser julgados em cortes federais estadunidenses por supostos “crimes” cometidos em solo venezuelano.
Com o assim chamado “sucesso” da operação para “Tornar a Venezuela Grande Novamente”, a mira da águia estadunidense está focada em outros países latino-americanos, seguindo a linha política traçada na nova Doutrina de Segurança Nacional, que reaviva a tão-citada e utilizada Doutrina de Monroe para justificar a intensificação da política imperialista gringa na região. Sem surpresas, Cuba entrou como próxima na fila dos ataques frontais contra a soberania e contra a vida, com a intensificação das sanções (esta vez, direcionada contra a venda de petróleo por parte de terceiros) contra a Ilha decretada por Trump no dia 29 de janeiro. Estas sanções estão tentando provocar o colapso do projeto revolucionário cubano após mais de 67 anos de resistência, deixando o país sem combustível para o transporte público e privado, os geradores elétricos, os caminhões de lixo das cidades, e os tratores do campo. As estratégias cruéis do estrangulamento do povo palestino foram trasladadas diretamente para o Hemisfério Ocidental, com o povo cubano encarando agora a pior crise humanitária desde o “Período Especial”, após a queda da URSS.
Outros países latino-americanos, incluindo o próprio Brasil, também não estão a salvo do tsunami trumpista. Apesar das declarações corajosas da presidenta Claudia Sheinbaum em defesa da soberania nacional, o México está sendo obrigado a militarizar ainda mais seu próprio território para acalmar os desejos dos estadunidenses a invadir o país diretamente em nome da “guerra contra as drogas.” E a Colômbia e o Brasil precisam estar em situação de alerta máximo contra qualquer ingerência (direta ou indireta) dos EUA nos processos eleitorais que se realizarão em ambos os países nos próximos meses e que definirão os rumos gerais da esquerda latino-americana por um bom tempo, sobretudo após as derrotas recentes contra candidatos progressistas em nações que antes formaram parte da “nova onda rosada” na região, como o Chile e Honduras.
Diante desse cenário, como sobreviver a esse período de tempestades e tsunamis? Primeiro, o Brasil precisa apostar na integração e na solidariedade latino-americana, não apenas com palavras, mas também com ações concretas, como, por exemplo, com a doação de ajuda humanitária (incluindo petróleo fornecido pelo Petrobras) para Cuba, e com o fortalecimento de mecanismos comerciais regionais como contraponto ao tarifaço de Trump e a politica neocolonialista do Tratado de Livre Comercio Mercosul-UE, e o fomento de processos de desdolarização nas transações comercias internacionais. Segundo, deve-se estimular ações conjuntas não só entre os governos, mas também entre os movimentos sociais das Américas, ressuscitando esforços que nos remetam às campanhas bem-sucedidas dos anos 2000 contra a ALCA e outros tratados de livre comercio, mas esta vez em apoio às iniciativas para estabelecer a região como uma “zona de paz.” Por último, devemos seguir nos esforçando para garantir a continuidade dos projetos democráticos-populares na América Latina, em particular com a reeleição do Lula em outubro deste ano, para, assim, fortalecer o Brasil como porto seguro e soberano.
(*) Jana Silverman é professora de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC (UFABC), secretária-geral da Associação Docente da UFABC (ADUFABC) e militante da Articulação de Esquerda.
