Por Valter Pomar (*)

O companheiro José Dirceu divulgou uma nota com sua posição sobre a intervenção no PT do Rio Grande do Sul.
Dirceu não acha que se trate de uma intervenção.
Normal: em geral quem pratica uma violência não a reconhece como tal.
Para além disso, Dirceu tem outro bom motivo para não classificar como intervenção o que está sendo feito no Rio Grande do Sul.
Como o principal operador da intervenção ocorrida no PT do Rio de Janeiro, no longínquo ano de 1998, Dirceu sabe muito bem quais são os efeitos colaterais deletérios deste tipo de violência.
Assim sendo as coisas, não chamar a coisa pelo nome não é hipocrisia, mas sim uma operação linguística de redução de dano.
Que tempos vivemos!
A questão de fundo, na minha opinião, é que Dirceu e outros comportam-se como se só houvesse uma maneira de implementar a “tática nacional de privilegiar a candidatura e a reeleição do nosso presidente Lula”.
Maneira que inclui apoiar, em grande número de estados, candidatos de direita.
Quem não concorda com esta maneira é tratado como se fosse contra a reeleição de Lula.
Dirceu concede que a “direção estadual do PT gaúcho pode ter outro entendimento”. E reconhece que a posição do PT gaúcho é “legítima e legal”.
Mas essas afirmações são para inglês ver.
Pois no frigir dos ovos o que deve ser aplicada é “a política nacional”, leia-se, a interpretação que Dirceu e outros fazem de como implementar a prioridade de eleger Lula.
Estaria tudo perfeito, não fosse por um “detalhe”: a maneira como Dirceu e outros interpretam a prioridade de todos nós – eleger Lula – contribuiu para nos colocar na situação atual, que é extremamente perigosa e de alto risco eleitoral.
No RS, por exemplo, a intervenção prejudicará e muito o desempenho eleitoral da candidatura Lula. Prejuízo que não será compensado, nem de longe, pelo suposto maior engajamento do PDT nacional.
Infelizmente, tem gente que concede quase tudo aos aliados e muito pouco aos companheiros.
Para não dizer que não falei de flores: Dirceu diz que estariam ocorrendo “acusações indevidas, inclusive contra a pré-candidata do PDT”.
Quais?
A única acusação que ouvi e li é a de que Juliana Brizola apoia o governo neoliberal de Leite.
Se isto é indevido, tenho medo de perguntar o que seria devido.
(*) Valter Pomar é professor e diretor da FPA
Segue abaixo a nota divulgada por Dirceu e comentada acima.
Presidente,
Escrevo esta pequena carta para nossa Direção Nacional e ao GTE para expor minha posição com relação ao Rio Grande do Sul e à nossa tática eleitoral.
Como sabemos, o DN nacional do nosso PT adotou, por unanimidade, uma tática nacional de privilegiar, o que é óbvio, a candidatura e a reeleição do nosso presidente Lula, dado o momento histórico e político que vivemos, já definido também pelo nosso DN.
Praticamente em todo o Brasil, essa política foi acatada e definida pelas direções estaduais. Para citar alguns estados em que apoiamos ou podemos apoiar candidatos de outros partidos: no Sul, Santa Catarina e Paraná; no Sudeste, Minas Gerais e Rio de Janeiro; no Nordeste, Alagoas, Paraíba, Pernambuco, Sergipe e Maranhão; no Norte, Pará, Amapá, Amazonas, Acre e Rondônia; no Centro-Oeste, Mato Grosso.
Assim sendo, não se trata de intervenção, como está sendo argumentado no caso gaúcho, nem de uma violência estatutária, mas simplesmente da aplicação, no entender do GTE Nacional, da tática definida pelo DN.
A direção estadual do PT gaúcho pode ter outro entendimento. Para isso, o DR tem autonomia para decidir. Mas a direção nacional também tem autonomia para decidir sobre a aplicação da política nacional, defendida democraticamente a partir da avaliação política dela, tão legítima e legal quanto a do DR gaúcho.
Grave é a desqualificação do debate político e as acusações indevidas, inclusive contra a pré-candidata do PDT, de violação da democracia partidária por parte daqueles que defendem a aplicação da política nacional ao Rio Grande do Sul.
A unidade do PT é decisiva, mais do que nunca, nesta conjuntura e nesta eleição. Preservá-la é nosso dever.
Zé Dirceu

Respostas de 3
Uma posição construída ao longo de um semestre, debatida pelos partidos aliados, costurada nas correntes, validada nas instâncias partidárias, aprovada em Convenção de delegados. Efetivamente um processo mobilizador que nega qualquer mentira sobre imposição hegemônica do PT.
Numa posição pouco comum, todas as correntes fundadoras apoiaram a composição com Pretto, Manuela e Pimenta, guardando as suplências do Senado aos aliados e – apesar de seu crescente poder arregimentador – a vice-governança para o PDT. Maior compreensão sobre a importância da unidade em torno de Lula não há senão nossa aceitação do PDT e do PSB nessa frente. Nem sua participação nos governos neoliberais que venderam todas as empresas públicas criadas por Leonel Brizola, nem o apoio ao golpe contra Dilma. A vice-governança para o PDT, embora considerada uma desproporção, foi aceita por praticamente todos, no contexto da necessária reeleição de Lula. Mas a intervenção nacional desautorizando a decisão dos partidos da Frente foi, mais que uma violência que só tem parâmetros no Rio de Janeiro, uma estultice tática. Impuseram uma candidatura sem a força eleitoral; sem capacidade de liderança; interrompeu um processo de mobilização das bases que não se via há muitos anos. Não desejo acertar, mas prevejo que Lula escolheu perder votos no RS e ainda perderá filiados. Voltaremos para o início do jogo. Se Olívio, Raul, Tarso, Rossetto não sabem o que dizem, quem saberá?
Garantir a unidade de ação, camaradas!
Em vez de cada parlamentar ou membro agir por conta própria, o grupo vota e se posiciona em bloco.
Isso é criar um padrão ético de conduta.
Em contextos de luta por direitos, a falta de método e de responsabilidade pode colocar em risco a segurança e a integridade de todo mundo, importante defender postura ética ao invés de intervenções, ou seja, a capacidade de sustentar pautas de longo prazo, sem dispersar os debates internos infindáveis enquanto o adversário da classe avança. Demarcar linha de classe pra o inimigo não entrar.
È brochante,intervençao não é aceitavel pois desmotiva nossa militancia.