Governo do estado impõe conteúdo favorável a Israel nas escolas paulistas, em desrespeito a docentes, a discentes e a critérios pedagógicos

Por Paulo Sérgio de Proença (*)
Tarcísio de Freitas nunca escondeu sua queda por Israel, país com o qual mantém alinhamento ideológico. Na última Marcha para Jesus ele desfilou com a bandeira daquele país cobrindo suas vergonhas. A cena é contraditória: marchar para Jesus e exaltar Israel? A incoerência (seja religiosa, seja política) é a marca da extrema direita que, no dia 7 de setembro passado, em comemoração à Independência do país, estendeu uma bandeira dos Estados Unidos, na Av. Paulista. Patriotas!
Desde o início da gestão do atual governador, intensificou-se a precarização da educação no estado, sob orientação do secretário Renato Feder, defensor de interesses privados que impõem um sistema de plataformização, contra princípios didático-pedagógicos, com prejuízos irreparáveis a alunas e alunos e desrespeito ao papel dos docentes e a seus direitos; houve
[…] violações de liberdade de cátedra e de privacidade, supressão da autonomia, repressão a manifestações e o subfinanciamento da educação vêm sendo alguns dos pontos apontados por quem vive o dia a dia da escola pública no estado[1].
Acrescente-se a insistência na militarização de unidades escolares. Tudo isso desmonta a farsa da Escola sem partido (mote invocado pelo golpista Michel Temer), que escancara a hipocrisia desses políticos, verdadeiros testas de ferro nada patrióticos.
Sionismo nas escolas paulistas
O mais novo lance de Tarcísio foi impor goela abaixo um pacote educacional desenvolvido pela ONG StandWithUs Brasil, promotora do sionismo e divulgadora de conteúdos favoráveis ao Estado de Israel. O pacote tem este pomposo título: “Antissemitismo: passado, presente e futuro”[2].
Essa ONG se apresenta como “uma instituição educacional sobre Israel sem fins lucrativos. Nós acreditamos que a educação é o caminho para a paz”. No portal da entidade, lemos: “Educamos por meio de campanhas, materiais didáticos e palestrantes. Alcançamos milhões de pessoas em todo o mundo […]”[3]. Que educação? Sionista? Enquanto isso, Israel bombardeia civis, principalmente crianças e mulheres. A melhor educação que qualquer país deve oferecer é a renúncia à guerra, o juízo, o respeito à soberania dos povos.
A inclusão desse conteúdo sionista não prevista noplanejamento pedagógico do “Currículo Paulista” demonstra a arbitrariedade da medida, indicação de que interesses políticos se superpõem a diretrizes educacionais, com silenciamento da voz e da competência exclusiva dos profissionais da docência.
Abusos e parcialidade da intervenção
Especialistas criticam, além da forma autoritária e antipedagógica do processo, o conteúdo e o método, que apresentam um só lado da medalha – daí a motivação ideológica da iniciativa. A história recente de Israel, as referências acadêmicas e literárias e a interpretação dos fatos em visão parcial, dentre outros elementos, indicam que o lado palestino (história, cultura, valores e lutas por território) foi, em cálculo macabro, apagado e demonizado (como, aliás, ocorre aqui, em relação ao campo político progressista).
O objetivo declarado nos documentos é combater o preconceito e o racismo. Que farsa mais desengonçada! Combater o racismo com conteúdo sionista-racista? Não seria necessário ir tão longe para a finalidade, fosse esse o verdadeiro objetivo declarado.
Bastava apresentar a nossa ordem econômica em sua voracidade predadora capitalista que massacra o povo negro; o preconceito racial estampado no ódio com que os filhos de Palmares são tratados; a violência policial de que são vítimas os descendentes da África; as operações genocidas contra indígenas; o outros grupos minorizados que são perseguidos, como as mulheres (aumento preocupante do feminicídio, provocado por uma masculinidade tóxica de inspiração conservadora) e os quem têm sexualidade alternativa, vítimas do processo que produz o racismo. Bastava apresentar o nosso apartheid racial.
O relatório Apartheid de Israel contra os Palestinos: Um Sistema Cruel de Dominação e Um Crime contra a Humanidade, da Anistia Internacional, denunciou que
[…] apropriações massivas de terras e propriedades palestinas, assassinatos ilegais, migrações forçadas, restrições drásticas de movimento e a negação de nacionalidade e cidadania aos palestinos são todos componentes de um sistema que equivale ao apartheid sob o direito internacional.
Apartheid é regime desumano e perverso, adotado pelos estados colonialistas como Estados Unidos, África do Sul e Portugal (em colônias africanas); continua o relatório da Anistia Internacional, nas palavras de sua Secretária-Geral, Agnès Callamard:
[…] em Israel, os palestinos são tratados como um grupo racial inferior e sistematicamente privados de seus direitos. Descobrimos que as políticas cruéis de segregação, expropriação e exclusão de Israel em todos os territórios sob seu controle claramente equivalem ao apartheid[4].
É isso tudo o que está sendo justificado e entrando nas escolas do estado de São Paulo, em desonesto esforço de ampliar o lobby sionista, em consonância com os interesses da extrema direita. A iniciativa se torna mais perniciosa por se valer do prestígio do discurso pedagógico (a escola tem autoridade, ainda) e da falta de condições gerais de avaliação crítica pelos estudantes, por falta de acúmulo de experiência de vida, de informações válidas e de convicções críticas para pesar a procedência do conteúdo.
O sionismo imposto chancela o imperialismo, o genocídio e o racismo
Outro tempero desse prato indigesto é a tendência de estados imperialistas se tornarem genocidas, como consequência do racismo. Esta é a definição de genocídio:
1 extermínio deliberado, parcial ou total, de uma comunidade, grupo étnico, racial ou religioso;
2 p.ext. destruição de populações ou povos;
3 aniquilamento de grupos humanos,o qual, sem chegar ao assassínio em massa, inclui outras formas de exterminio,como a prevenção de nascimentos,sequestro sistemático de crianças dentro
de um determinado grupo étnico, a submissão a condições insuportáveis de vida etc[5].
As definições bem se ajustam ao que Israel faz em suas investidas belicosas contra palestinos e contra outros povos e nações. O terror produzido por esse país em Gaza (com suporte total dos Estados Unidos) não pode ser outra coisa senão genocídio, inspirado em ódio e em projeto racista-colonialista-genocida.
Desde outubro de 2023, só em Gaza, Israel já matou mais de 70 mil palestinos e feriu mais de 170 mil[6], com média diária de 47 mulheres e meninas e, segundo a ONU, crianças e mulheres superam a metade das vítimas, com mais de 38 mil mortes[7]. A perversidade reside principalmente no bombardeio de hospitais, de escolas e em impedir que ajuda humanitária chegue aos destinatários. Matar crianças e mulheres é anular a perenização de um povo; é genocídio em andamento.
Os israelenses fizeram da Faixa de Gaza a maior prisão ao ar livre do planeta, inferno na terra, conforme indica Ilan Papée, especialista em estudos palestinos, alertando para a estratégia discursiva, utilizada principalmente na mídia, que se serve de linguagem elaborada para o fim de “imunizar Israel e não permitir que a luta anticolonial palestina seja justificada, aceita e legitimada”. Para Papée,
o sionismo pertence à genealogia do racismo, não à história dos movimentos de libertação (que é como é ensinado na maioria das universidades americanas) nem à história dos movimentos nacionais (que é como é ensinado na maior parte do hemisfério norte ou onde quer que a mídia ocidental fale ou cubra). Não, pertence à história do racismo, que não era originalmente uma ideologia, mas que se manifestou como tal na terra da Palestina[8].
Para mascarar essas características negativas, Israel patrocina um lobby poderoso, alimentado pelo poder financeiro; é esse braço que chega com garras afiadas às salas de aula paulistas. E provoca confusão entre sionismo e antissemitismo, de forma deliberada.
O sionismo passeia também em outras instâncias de poder, inclusive nos gabinetes do Parlamento brasileiro. Prova disso foi o Projeto de Lei, apresentado pela deputada Tabata Amaral (PSB-SP), que equipara antissemitismo a crime de racismo. Tabata foi formada ideologicamente nos Estados Unidos e não surpreende que seja defensora desses estados siameses, que têm o mesmo DNA racista-imperialista-colonialista.
Conexão com a extrema-direita evangélica
Há outro ingrediente que convém mencionar. Trata-se da pressão da extrema direita evangélica (e católica). Esse segmento tende a ler a Bíblia de forma literal e é teologicamente fundamentalista, tendência que se serve de uma hermenêutica bíblica equivocada, para a qual Israel deve exercer algum protagonismo no mapa geopolítico mundial – prenúncio do advento de tempos apocalípticos. Essa apropriação é anacrônica na interpretação de temas considerados proféticos (termo mal compreendido), resultado de leitura seletiva que faz convergir trechos que não têm relação direta entre si, desconectados de seu contexto e do fato de o judaísmo ser uma religião étnica.
Há, por isso, confusão entre o Israel da Bíblia e o estado de Israel atual, sobretudo no que diz respeito à Palestina, reivindicada como posse exclusiva de Israel, a Terra Santa, em processo de inadequada fetichização (tema para outra conversa), apagada a história. Santa, santa mesmo, é a terra em que a humanidade é afirmada na justiça e onde os preceitos divinos são cumpridos; onde não se ensina nas escolas (nem nas igrejas nem nos lares nem em lugar algum) admiração e aprovação a estados supremacistas, racistas e genocidas.
(*) Paulo Sérgio de Proença é professor – Unilab-BA
[1] https://acaoeducativa.org.br/sob-tarcisio-educacao-paulista-aprofunda-processos-de-privatizacao-precarizacao-e-exclusao-escolar/.
[2] https://operamundi.uol.com.br/brasil/governo-tarcisio-orienta-adocao-de-material-de-ong-pro-israel-nas-escolas-paulistas/.
[3] https://standwithus.com/brazil/.
[4] https://anistia.org.br/informe/o-apartheid-de-israel-contra-palestinos-um-sistema-cruel-de-dominacao-e-um-crime-contra-a-humanidade/
[5] https://houaiss.uol.com.br/houaisson/apps/uol_www/vopen/html/inicio.php//.
[6] https://operamundi.uol.com.br/guerra-israel-x-palestina/israel-viola-cessar-fogo-com-novos-ataques-em-gaza-matando-seis-palestinos/.
[7] https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2026/04/17/guerra-em-gaza-matou-media-de-47-mulheres-e-meninas-por-dia-aponta-onu.ghtml.
[8] https://revistas.uece.br/index.php/tensoesmundiais/announcement/view/181
