Eduardo Leite quer vender a escola pública do Rio Grande do Sul

Texto publicado na edição de julho do jornal Página 13

As Parcerias Público-Privadas (PPPs) que o governo Eduardo Leite pretende impor à educação pública gaúcha não são uma inovação administrativa, nem uma solução técnica para os problemas da rede estadual. São parte de um projeto político global que, há décadas, vem sendo impulsionado por organismos como o Banco Mundial, o FMI e a OCDE.

Acontece que a educação tornou-se uma das novas fronteiras de acumulação do capitalismo. O que antes era reconhecido como direito social, agora é tratado como mercadoria. A escola deixa de ser um espaço de formação humana e cidadã, para ser vista como oportunidade de negócios. Não por acaso, fundações empresariais, consultorias, bancos e fundos de investimento passaram a disputar influência sobre as políticas educacionais em diversos países, inclusive no Brasil.

É verdade que a propaganda oficial acerca da privatização de 98 escolas estaduais afirma que a iniciativa privada cuidará “apenas” da infraestrutura, manutenção e serviços administrativos. Mas sabemos: quem “contrata a banda, escolhe a música”. As empresas que decidirão investimentos e formas de gestão passarão, gradativamente, a decidir prioridades e o conjunto do funcionamento da escola pública. O resultado disto já é conhecido: contratos bilionários – no Rio Grande do Sul são 4,8 bilhões -, aditivos sucessivos, dificuldades de fiscalização. Aliás, para Leite a fiscalização deve ser contratada pelo vencedor do certame, ou seja, menor transparência. Além disso, nesta PPP qualquer desentendimento deverá ser resolvido na justiça do Canadá. Como arremate, socialização dos prejuízos: quando os projetos fracassam, não será problema porque, mesmo que o governo do Estado vá à falência, os recursos reclamados pelas empresas vencedoras serão descontados antecipadamente do repasse do Fundo de Participação dos Estados e, na falta destes, do FNDE.

Especialistas, entidades representativas e órgãos de controle questionaram a modelagem, os mecanismos de fiscalização e os riscos ao patrimônio público. Mas, em vez de abrir um amplo debate com professores, funcionários, estudantes e comunidades escolares, o governo Leite preferiu acelerar o processo, ignorando críticas e tratando a sociedade como mera espectadora.

Eduardo Leite implanta na educação mais um capítulo de seu projeto neoliberal. Depois de privatizar parcialmente o Banrisul, a Sulgás, a CEEE e a Corsan, depois de insistir na redução da capacidade do Estado e na transferência de patrimônio público para a iniciativa privada, agora pretende levar a lógica do mercado para dentro das escolas. Trata-se de uma escolha política, não de uma necessidade financeira.

Seu vice, Gabriel Souza, pretende ampliar esse projeto privatista, entregando a segurança das escolas à iniciativa privada. E, pasme, sob as garras da Palantir, “big tech” dirigida por tecnofascistas assumidos. Verdade seja dita, Gabriel nunca esboçou qualquer contraponto ao processo. Pelo contrário, tornou-se um de seus principais defensores, reafirmando uma concepção de Estado mínimo para os direitos da população e máximo para garantir oportunidades ao grande capital.

No mesmo campo está o deputado federal Zucco, porta-voz de um ultraneoliberalismo que combina autoritarismo político com defesa incondicional das privatizações. No seu “projeto de país”, tudo pode ser transformado em mercadoria: empresas públicas, saúde, previdência e, agora, educação. Em entrevista como pré-candidato a governador, Zucco defendeu as privatizações e prometeu ampliar o programa, incluindo a terceirização de professores e contratos com o sistema S.

A grande contradição é evidente. O governo afirma não possuir recursos para investir diretamente nas escolas, mas compromete 4,8 bilhões de reais em contratos de 25 anos com empresas privadas. Se esses recursos fossem aplicados diretamente na rede estadual, cada uma das 2.320 escolas estaduais poderia ter os recursos da autonomia financeira multiplicados por 5. O que tornaria possível recuperar prédios, climatizar salas de aula, equipar laboratórios, fortalecer bibliotecas, realizar concursos públicos e valorizar os profissionais da educação. Dinheiro existe. O que falta é investimento, mas isso porque o governo não investe os 35% em educação, contrariando o que determina a constituição estadual, a política educacional e o programa para as escolas públicas.

A Constituição Federal estabelece que oferecer educação pública de qualidade é dever do Estado. Esse dever não pode ser terceirizado. A gestão democrática das escolas, a autonomia pedagógica e o controle social são incompatíveis com a lógica empresarial, cujo objetivo central é gerar rentabilidade para seus investidores.

Envolver a sociedade gaúcha na luta contra as PPPs é fundamental para derrotarmos essa política nefasta de Eduardo Leite. Depois, precisamos derrotar as outras formas de privatização que já estão dentro das escolas, como é o caso da plataforma Classroom, do Sigae do Instituto Unibanco, das formações pedagógicas do Instituto Natura, do Instituto Ayrton Senna e da Fundação Lemann, assim como a terceirização da alimentação e da manutenção, sem esquecer das escolas cívico militares e da municipalização das escolas. Cada uma destas ações de Leite representa uma mudança negativa para a educação pública. Afinal, quando o mercado entra pela porta da escola, o direito começa a sair pela janela.

Por tudo isso, defender a escola pública significa enfrentar esse projeto criminoso defendido por Eduardo Leite, Gabriel Souza e Zucco. A educação não pertence aos fundos de investimento, às consultorias ou às grandes corporações. Ela pertence ao povo gaúcho.

Nossa luta é todo dia!

Porque educação não é mercadoria!

Respostas de 4

  1. A urgência dessa mudança de mentalidade fica escancarada quando olhamos para a tragédia social imposta ao país. A educação pública brasileira piorou drasticamente desde o dia do golpe institucional de 2016.

    A imposição de reformas retrógradas, o congelamento de verbas constitucionais por décadas e o desmonte sistemático das universidades e institutos federais não foram acidentes de percurso; foram escolhas orçamentárias. Sob o verniz de uma suposta responsabilidade fiscal, aff, rasgaram-se os direitos fundamentais da juventude trabalhadora, precarizando escolas, achatando salários de professores e aprofundando o abismo da desigualdade educacional.

  2. A urgência dessa mudança de mentalidade fica escancarada quando olhamos para a tragédia social imposta ao país. A educação pública brasileira piorou drasticamente desde o dia do golpe institucional de 2016. A imposição de reformas retrógradas, o congelamento de verbas constitucionais por décadas e o desmonte sistemático das universidades e institutos federais não foram acidentes de percurso; foram escolhas orçamentárias. Sob o verniz de uma suposta “responsabilidade fiscal”, rasgaram-se os direitos fundamentais da juventude trabalhadora, precarizando escolas, achatando salários de professores e aprofundando o abismo da desigualdade educacional.

  3. Tratar o dinheiro público como “investimento” submete as políticas sociais à lógica do lucro e do teto de gastos. Quando dizemos que faltam “recursos para investir”, aceitamos a premissa de que o cofre está vazio por fatalidade, e não por escolhas políticas. Defender o orçamento público sob o controle da classe trabalhadora significa inverter essa lógica:
    O Estado não é uma empresa que deve gerar superávit para banqueiros, mas o gestor do fundo público gerado pelo suor da classe que produz.As decisões sobre onde alocar cada centavo devem partir de quem sustenta o país com o seu trabalho, e não de tecnocratas trancados em gabinetes em prol do mercado financeiro.
    A educação pública brasileira piorou drasticamente desde o dia do golpe institucional de 2016.Falar de orçamento público e não de “investimento público” é, portanto, um ato de insubordinação política. É recusar a narrativa de que “não há dinheiro” enquanto os juros da dívida pública drenam bilhões para o topo da pirâmide financeira. A classe trabalhadora precisa retomar o controle do fundo público para que a saúde, a ciência e a educação voltem a ser inegociáveis. Sem o orçamento nas mãos de quem produz, não há democracia real, nem soberania, nem futuro. Volta Dilma, volta Lula, volta PT.

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