A China socialista tornou-se nossa grande cliente, porque tirou da pobreza cerca de oitocentos milhões de pessoas

Balsas (MA), 09/10/2025 – Trator trabalha em fazenda de cultivo de soja na região da Batavo. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Por Milton Pomar (*)
Quando foi publicado o livro “Geografia da Fome”, do médico e geógrafo Josué de Castro, em 1946, o Brasil tinha muita gente passando fome, subnutrida e em situação de insegurança alimentar. Oitenta anos depois, o país voltou a sair do “Mapa da Fome” e deverá ultrapassar os Estados Unidos em exportação de alimentos, graças, segundo a propaganda do setor, à eficácia do agro brasileiro.
Sim, o agroexportador brasileiro é muito eficaz, sem dúvida. Não apenas as empresas privadas, o Estado também faz a sua parte – lhe proporciona recursos subsidiados, incentivos fiscais, pesquisa (a federal Embrapa e instituições estaduais, como o IRGA, o Iapar, o IAC, e tantos outros), extensão, assistência técnica, e a formação e aperfeiçoamento de centenas de milhares de profissionais de nível técnico e universitário.
Chega a ser engraçada a situação, mas é a mais pura realidade: a lucrativa relação comercial com a China socialista permitirá ao agro brasileiro superar os Estados Unidos, expressão máxima do capitalismo mundial, e até então imbatíveis maiores exportadores de alimentos. Foram as crescentes compras bilionárias da China, de carnes, grãos, suco de laranja, café, açúcar, frutas, algodão e celulose, que levaram os empresários do setor agropecuário no Brasil a expandir a capacidade instalada de produção, atingindo proporções inimagináveis naquele distante 15 de agosto de 1974, quando os dois países estabeleceram relações diplomáticas.
Mas… talvez a ultrapassagem dos Estados Unidos não aconteça, porque a China caminha para reduzir as suas compras de alguns produtos, substituindo-os por produção própria até 2030, e assim as exportações do agro brasileiro devem cair. Isso ocorrendo, aumentará a crise do setor, resultante do modelo de produção muito vulnerável – para obter elevadas produtividades depende de insumos industriais, cuja relação de troca é cada vez mais desvantajosa para a agropecuária –, e porque a enorme capacidade instalada não tem um “Plano B”, na medida em que o único país com demanda para absorver toda a produção brasileira é a Índia capitalista, hoje com 1,48 bilhão de habitantes.
Índia X China
Quando o representante da Índia afirmou, há quase vinte anos, em um evento do BRIC em Salvador (BA), que em seu país havia segurança alimentar, foi prontamente contestado pela plateia, com os números da produção indiana (pouco mais de duzentos milhões de toneladas de grãos) e o tamanho da sua população – na época 1,1 bilhão de habitantes. Ele respondeu com naturalidade, em alto e bom som, que o cálculo que faziam, de consumo per capita, era relativo apenas à população que consumia – ou seja, não incluía 700 milhões de pessoas excluídas do “mercado consumidor”.
Por isso, a Índia é apontada sempre como a “salvação da lavoura” para o agro brasileiro, porque a produção indiana de grãos é metade da chinesa, e menor também em outros alimentos importantes. Com tanta demanda reprimida de alimentos, terá que comprar ainda mais do que a China, e não tem para onde correr, porque a área do país é quase um terço da chinesa, e o Paquistão e Bangladesh, seus vizinhos com grandes populações, também têm pouca comida – e pouca água.
Por isso, a Índia deveria importar mais do que o dobro, e não apenas 10% do que a China compra do mundo anualmente. E a razão para isso ainda é a mesma de vinte anos atrás: mais da metade da população indiana quase não tem dinheiro, nem para comer. Conforme estimativa para 2026, do Fundo Monetário Internacional, pela Paridade do Poder de Compra (PPP), a renda per capita na China socialista é de US$ 31,6 mil, e na Índia capitalista US$ 12,8 mil. Saiba mais aqui.
O que fazer?
A perspectiva de redução das importações de alimentos pela China, anunciada há alguns anos, começou a ser efetivada no ano passado, com a imposição pelo país de cotas para carne bovina e o aumento da substituição de soja por aminoácidos sintéticos na alimentação animal. E em seu 15º Plano Quinquenal (2026/2030), ora em vigor, as diretrizes para o setor são muito claras, não apenas de “modernização” da agricultura, mas também de avançar no aumento da produção própria.
Ao investir para reduzir a sua dependência externa, principalmente de carne bovina e soja, a China socialista coloca para o agro brasileiro o desafio de vender muito para a Índia capitalista, e para alguns outros países asiáticos e africanos também capitalistas, tão populosos quanto muito pobres: Indonésia (288 milhões de habitantes agora, talvez 321 milhões em 2050); Paquistão (259 milhões e 372 milhões); Nigéria (242 e 359) e Bangladesh (178 e 202).
Esse é o dilema principal, em 2026, do agro brasileiro: a China socialista tornou-se nossa grande cliente, porque tirou da pobreza cerca de oitocentos milhões de pessoas, façanha que só foi possível porque a população chinesa teve acesso, e continua tendo, a parte expressiva da riqueza gerada a partir do desenvolvimento econômico iniciado em 1980. Desde então, o aumento do poder aquisitivo da população chinesa se tornou recorde mundial, o que lhe permitiu aumentar muito a quantidade e a qualidade de alimentos consumidos, em velocidade muito superior à capacidade de expansão da produção agrícola chinesa – o que resultou em importações crescentes de alimentos do Brasil.
Agravam a situação brasileira a pressão ambientalista dos consumidores europeus, preocupados em proteger sua saúde e a condição de vida de seus produtores de alimentos, mas também em evitar que aumente a devastação na Amazônia, Cerrado, Pantanal, Patagônia e em outros biomas da América do Sul, afetando cada vez mais o clima no mundo – as elevadas temperaturas e os incêndios no verão este ano na França, Espanha e Portugal confirmam a fragilidade das áreas urbanas densamente povoadas.
Essa é a outra faceta do dilema atual do agro brasileiro: ao expandir tanto a área com bois e grãos, devastou 112 milhões de hectares, de 1985 a 2024, segundo estudo realizado pelo Map Biomas
(https://oc.eco.br/brasil-perdeu-1117-milhoes-de-hectares-de-areas-naturais-emm-40-anos-aponta-mapbiomas/) – área equivalente à total utilizada pela agricultura da China.
Quando os custos da devastação ambiental no Cerrado e Amazônia forem incluídos nos custos totais dos grãos e carnes produzidas nessas regiões, a rentabilidade desses produtos despencará, porque se saberá que são muito maiores do que se divulga. Tanta devastação (minimizada pela expressão “desmatamento”) tem um custo alto para ser revertida. Quem pagará a sua regeneração?
Hoje sabe-se as quantidades de espécies de fauna e flora dos biomas. No caso do Pantanal, as estimativas da sua biodiversidade somam duas mil espécies de plantas, 580 de pássaros, 268 de peixes, 154 tipos de mamíferos, 131 de répteis e 57 de anfíbios.
Por isso, pode-se calcular os prejuízos ambientais causados pelas derrubadas e queimadas no Cerrado e Amazônia. Para que se tenha uma noção das dimensões do que foi devastado no Brasil nos últimos quarenta anos, esse total de 112 milhões de hectares equivale a 28 vezes os quatro milhões de hectares da área afetada pela queimada recorde no Pantanal em 2020, que matou dezessete milhões de animais, e queimou uma quantidade desconhecida de árvores e outras espécies vegetais.
Por isso também, não se trata de “desmatamento”, termo que mais esconde do que revela. Não há desmatamento, há devastação ambiental, porque milhões de árvores e outras espécies vegetais são cortadas e queimadas, junto com milhões de espécies animais, que viram cadáveres e cinzas.
Será necessário muito dinheiro para reverter o estrago ambiental causado pela expansão do agro no Cerrado e Amazônia. E para aumentar a capacidade de armazenagem e construir ferrovias. Tudo isso coloca novamente em destaque a Índia, em primeiro lugar enquanto alternativa à redução das compras da China, mais os quatro países citados, cujas populações, somadas, deverão aumentar em quinhentos milhões de habitantes até 2050, passando dos atuais 2,447 bilhões para 2,944 bilhões!
É assustador, mas é verdade: se as populações pobres desses cinco países capitalistas tiverem um aumento do poder aquisitivo semelhante ao que ocorreu na China socialista no período 1980-2025, haverá uma revolução mundial agropecuária e alimentar, porque não há capacidade instalada de produção nos países maiores exportadores para atender metade da demanda reprimida das populações subnutridas desses países. Havendo dinheiro para comprarem comida, entrarão no mercado mundial impactando água, preços, financiamento, produções, produtividades, transporte marítimo, exportações, e infraestruturas de insumos, armazenagem e transportes.
Sorte nossa que ainda há muita terra no Brasil disponível para produção agropecuária, sem precisar derrubar e queimar mais nenhuma árvore ou matar um único animal. O decreto federal de nº 11.815, de dezembro de 2023, que institui o Programa Nacional de Conversão de Pastagens Degradadas, define como meta nos próximos dez anos um total de quarenta milhões de hectares, dos quais 28 milhões podem ser utilizados para produzir mais de cem milhões de toneladas de grãos por ano.
Mas aumentar a área plantada, sem diversificar os grandes compradores de alimentos do Brasil, é insistir no erro que foi cometido em relação à China nos últimos vinte anos, de multiplicação da capacidade produtiva para atender a um único comprador. Mantidas as coisas como estão, há o risco de acontecer no Brasil algo semelhante à crise do agro nos Estados Unidos, no período 1973/1987.
(*) Milton Pomar é técnico agropecuário, geógrafo, mestre em Políticas Públicas. Autor do livro “O sucesso da China socialista”
Publicado originalmente no site da Fundação Perseu Abramo
