O Diabo está à solta: Igreja e hipocrisia na política e na vida do país, sob o olhar de Machado de Assis

Escritos do autor carioca lançam luzes para entender o Brasil, de ontem e de hoje

Por Paulo Sérgio de Proença (*)

Nos últimos anos a religião tem ocupado espaço decisivo na vida política do país. Há desdobramentos complexos, que exigem considerações a partir da sociologia da religião, da teologia, da economia e de teorias que interpretam a complexidade humana.

Nesta breve apresentação se falará de religião, de evangelho, de Bíblia, de Deus e de Diabo. Contudo, o lugar assumido não é o púlpito nem a sacristia. Essas referências são usadas para um exercício analítico a partir de alguns escritos de Machado de Assis.

Não é recente o fenômeno, que parece fazer parte do DNA do país; demonizar opositores é prática que vai além dos domínios religiosos; ao invadir a política, esta tendência talhou um termo que tem finalidade e peso diabólico: comunista.  O fenômeno se manifesta quando há condições favoráveis, como é o caso do nosso atual panorama político. Já no século XIX Machado de Assis não só reconhecia a convergência desses elementos, mas acusava as perversas consequências deles, em escritos de refinada inspiração ficcional, nos quais o Diabo figura como inspiração e chave de leitura..

No final dos anos 1880, no conto “A Igreja do Diabo”, o escritor aponta inconsistências e contradições do cristianismo histórico em relação a suas fontes bíblicas, a partir da observação do funcionamento da sociedade daquele tempo. Dentre outros temas do conto, aparece a venalidade como um dos principais: tudo se reduz a dinheiro, tudo é moeda de troca, nada escapa à insana acumulação capitalista, causa de caos social.

Princípios doutrinários do Diabo dizem que a venalidade é a máxima virtude, com a vantagem de estimular a hipocrisia; ele prega o seu evangelho, no conto, rivalizando com a narrativa evangélica. Este trecho representa o teor dos princípios venais diabólicos:

A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no absurdo e no contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos? Não pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? E o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem? Demonstrado assim o princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente.

A descrição se ajusta bem ao nosso atual momento político, na permanência dos ideais de rendição incondicional ao dinheiro. Exemplo disso são as motivações inconfessáveis que tomam nossas consciências, que nos tornam egoístas insensíveis. Em nível social, os escândalos de corrupção, atuais e passados, demonstram o fenômeno. O caso Banco Master indica que essa tendência seduz inclusive – e talvez principalmente – os que não são privados de bens e ocupam posições de prestígio ou de poder. Não há limites para a venalidade. Quanto mais tem, mais quer, o que deforma nossa humanidade.

Outro tema central do conto é o amor; na ordem em que a venalidade reina, não há lugar para ele, a não ser para o amor-interesse:

A única hipótese em que ele permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa espécie de amor tinha a particularidade de não ser outra coisa mais do que o amor do indivíduo a si mesmo.

A pregação do Diabo, nota-se, não é projeção nem imaginação; é o exato retrato daquela sociedade; é a precisa descrição dos princípios de organização daquela sociedade.

Passemos ao “Sermão do Diabo”, escrito poucos anos depois, construído em forma de paráfrase do Sermão da Montanha. Seguem alguns versículos:

1º E vendo o Diabo a grande multidão de povo, subiu a um monte, por nome Corcovado, e, depois de se ter sentado, vieram a ele os seus discípulos.

2º E ele, abrindo a boca, ensinou dizendo as palavras seguintes.

8º Folgai e exultai, porque o vosso galardão é copioso na terra.

9º Vós sois o sal do money market. E se o sal perder a força, com que outra coisa se há de salgar?

13. Ouvistes que foi dito aos homens: Amai-vos uns aos outros. Pois eu digo-vos: Comei-vos uns aos outros; melhor é comer que ser comido; o lombo alheio é muito mais nutritivo que o próprio.

18. Não façais as vossas obras diante de pessoas que possam ir contá-lo à polícia

22. Não vos fieis uns nos outros. Em verdade vos digo, que cada um de vós é capaz de comer o seu vizinho, e boa cara não quer dizer bom negócio.

Pode-se perceber a relevância de referências a dinheiro e a estratégias para ganhá-lo, ainda que de forma desonesta, em intersecção opositiva com o evangelho bíblico, modificado a partir da realidade observada pelo autor.

O fundo que sustenta o quadro é a hipocrisia exposta pelo Diabo, pois aquela sociedade se dizia seguidora do evangelho bíblico, mas se estruturava em valores contrários, motivados por ganância cumulativa: o Diabo ocupa o lugar de Deus.

Essa ambiguidade instaura a hipocrisia, num embate existencial entre o ser e o parecer. Esse dilema é próprio das contradições entre o prescrito pela religião e o socialmente pactuado, como apontam ainda outros escritos que Machado de Assis nos legou.

A crônica de 15 de junho de 1877 vincula Bíblia e escravidão, evocando, não sem ironia, a caridade de um anônimo, em exercício pleno de hipocrisia: a publicação do benefício para promoção pessoal, necessária aos mecanismos exigidos pela hipocrisia social. O benfeitor foi ironicamente descrito como um “digno homem do Evangelho”, que alforria uma escravizada idosa (a Lei dos Sexagenários é posterior, de 1885):

Tinha ele uma escrava de 65 anos, que já lhe havia dado a ganhar sete ou oito vezes o custo. Fez anos e lembrou-se de libertar a escrava… de graça. De graça! Já isto é gentil. Ora, como só a mão direita soube do caso (a esquerda ignorou-o), travou da pena, molhou-a no tinteiro e escreveu uma notícia singela para os jornais indicando o fato, o nome da preta, o seu nome, o motivo do benefício, e este único comentário: “Ações desta merecem todo o louvor das almas bem formadas”.

Coisas da mão direita!

“Mão direita” evoca o Evangelho (Mateus 5), que recomenda não fazer publicidade das boas ações. Assim, é falsa a benemerência dos senhores que tiram proveito da situação de escravizados e se beneficiam com a devida publicação da “generosidade”. Afinal, libertar uma escrava de 65 anos é lançá-la ao desamparo e se livrar dos ônus de sua manutenção, depois de ela ter dado ao senhor um ganho de “sete ou oito vezes o custo”. Mais: ainda se fazia publicidade evangélica disso. Pura hipocrisia.

A última menção é da crônica de 1º de janeiro de 1893, sobre renúncia, a propósito de questões políticas; o fim da peça é este, também articulado em termos econômicos:

Quem me parece que renuncia, sem admitir que comete um crime, é o Senhor Deus Sabbaoth, três vezes santo, criador do céu e da terra. Consta-me que abandonou completamente este mundo, desgostoso da obra, e que o passou ao diabo pelo custo. O diabo pretende organizar uma sociedade anônima, dividindo a propriedade em infinitas ações e prazo eterno. As ações, que ele dirá nos anúncios serem excelentes, mas que não podem deixar de ser execráveis, conta vendê-las com grande ágio. Há quem presuma que ele fuja com a caixa para outro planeta, deixando o nosso sem diabo nem Deus. Outros pensam que ele reformará o mundo, contraindo um empréstimo com Deus, sem lhe pagar um ceitil.

  O Diabo e seu ideário religioso, como visto, ocupa papel central nestes trechos e em outros aqui não reproduzidos. Por quê? Esse ser não tem imanência nos escritos de Machado, não é de carne, nem é ameaça existencial; trata-se de categoria analítica para compreender aquela sociedade, projetada na contradição das manifestações religiosas e na ambiguidade de seus efeitos. Com ele, Machado interpretou o Brasil perverso, injusto, escravagista, hipócrita: o Brasil diabólico.

Disso resulta que é nulo o efeito de decretar que “o Brasil pertence ao Senhor Jesus”, quando ele está dominado pelo Diabo que, ao fim e ao cabo, foi representado por um de seus mais fiéis seguidores, o que é ridículo e trágico. Aliás, a recente emersão da chamada Teologia do domínio em alguns círculos evangélicos, importada dos Estados Unidos, demonstra a funesta combinação desses movimentos.

 Assusta a permanente validade do que há de coerência nas peças ficcionais acima mencionadas, considerando ainda que as crônicas têm aderência maior a acontecimentos vividos. Tudo isso nos alerta a perceber a antiguidade das forças que atuam no tabuleiro político e as estratégias que o escritor utiliza, para desmascará-las. E não se trata somente das forças religiosas, mas ao alinhamento delas com outras, de morte, diabólicas.

A profusão de escândalos envolvendo políticos, empresários e principalmente pastores e outras personalidades do mundo religioso, hoje, não foge a essa marca característica da tradição política deste país, vigente desde os sombrios tempos da escravidão. A iníqua concentração de renda que aqui vigora supõe esse logro de que fala “O Sermão do Diabo”; importa o acúmulo desenfreado e não a igualdade no usufruto dos bens produzidos pela sociedade; isso produz segregação de pessoas e de grupos sociais, contra os quais há estigma irracional; a morte deles é oferta no altar ao deus Mamon, o Diabo de Machado. O Diabo domina; o inferno é aqui, gerenciado por seus embaixadores.

Vale a pena ler literatura. Vale a pena ler Machado de Assis. Inclusive para entender o Brasil, de ontem e de hoje.

(*) Paulo Sérgio de Proença é professor na Unilab-BA

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