Nossa Senhora Aparecida e a soberania nacional

Por Fausto Antonio (*)

Epigrafia alusiva à força do lugar: Nossa Senhora Aparecida

O fundamentalismo religioso bolsonarista, instrumento da burguesia branca racista e do imperialismo estadunidense, é força vertical e antinacional. O lugar, espaço de pacto negro-popular, Nossa Senhora Aparecida, expulsou a tentativa de imposição da verticalidade burguesa, racista e vassala do império estadunidense, conforme ressalta o artigo na íntegra, dando voz e corpo ao lugar.

A soberania exige a defesa integral do território brasileiro. É o primeiro e fundamental ponto para assegurar o Brasil como país soberano. O território, na sistematização do geógrafo Milton Santos, é o quadro de vida dos brasileiros e brasileiras. Defender o território nacional é, portanto, defender igualmente a inseparabilidade entre o território, a partir do seu uso, e o povo brasileiro.

Além do território, o projeto e a concretização da soberania não podem prescindir da industrialização de ponta e estratégica na extração, no processamento e na transformação de fontes naturais em bens sociais e/ou recursos energéticos, minerais e hídricos. Para tanto, há de ter por equivalência a inadiável valorização e os investimentos na ciência e no ensino como parte do  projeto de soberania nacional. Isso dinamiza a centralidade da pesquisa e de substantivos recursos advindos do Estado e, da mesma forma, dirigidos pelo Estado brasileiro, com controle social estabelecido democraticamente por campanhas e outros meios definidos pela participação via referendo e plebiscito.

Como parte da soberania nacional, avulta a defesa das manifestações populares consolidadas historicamente pelas lutas favoráveis ao campo negro-popular. Nossa Senhora Aparecida, a despeito das plataformas capitalistas e de suas bolhas, está fundamentalmente enraizada no território brasileiro. Sendo assim, as plataformas capitalistas e a extração de mais-valia informacional de seus chamados “usuários” — e não trabalhadores(as) — constituem uma força vertical e um motor apenas de informação e de imposição, muitas vezes descolado do território e da realidade histórico-social determinada pelas desigualdades de classe, raça e gênero.

No território e, sobretudo, nos lugares, há comunicação e uma relação de contiguidade encruzilhada pela comunicação, a qual revela um pacto (categoria política) de inseparabilidade de milhões de brasileiros e brasileiras com Nossa Senhora Aparecida: santa negra, envolta por um manto azulado, egrégora sinonímica do Globo Azul, que brada que a verdadeira comunicação se dá com o próximo e com a exigência prévia de solidariedade e de rejeição ao texto, à política e aos valores impostos de fora e sem raiz com o lugar. Assim, o lugar, como chave para interpretação e/ou como espaço, só o é quando expulsa as produções totalitárias e igualmente universalizantes.

Nossa Senhora retirou o debate das redes e o inseriu nos lugares, o que é fundamental para deslocar a discussão das instâncias controladas pela burguesia branca e racista brasileira — a propósito, falamos do sistema formal e capitalista de comunicação, do STF e de outros espaços controlados pela burguesia e pelo imperialismo.

O lugar e o território funcionam como encruzilhada dos corpos e das relações socioespaciais inseparáveis da cultura negro-popular, que põe em destaque Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil e representação da socioespacialidade negro-popular inseparável da soberania nacional. Nossa Senhora Aparecida ativou, no chão-terreiro nacional, a base imaterial e material da soberania nacional. O lugar, como espaço político e amálgama do ethos nacional, ativa a soberania referenciada na cultura e nos valores civilizatórios negro-populares. O fundamentalismo religioso bolsonarista, instrumento da burguesia branca racista e do imperialismo estadunidense, é força vertical e antinacional. O lugar, espaço de pacto negro-popular, Nossa Senhora Aparecida, expulsou a tentativa de imposição da verticalidade burguesa, racista e vassala do império estadunidense, conforme ressalta o artigo na íntegra, dando voz e corpo ao lugar.

(*) Fausto Antonio  é  escritor, poeta, dramaturgo  e  professor  Associado da  Unilab-Bahia. 

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