Por Fausto Antonio (*)

Epigrafia do mar esfinge e do mito
O mar-esfinge olha para o seu corpo partido.
O mesmo sol queria unir o que foi dividido.
Saca o mar em onda e lambe o rosto antigo.
O anterior rosto é o do filho e a mãe o signo.
O que farei eu, mãe parida, ao devir do signo?
O filho, de mim dividido, o que oculta fundo?
Oculta o pai, que de mim partido, vela as faces?
Como encaixar, nos dois lados, as contrapartes?
A mãe, África negra, ao restituir o que sois.
Lambe, no partido, o parido e ambos são o nós.
A boca-mãe engole o filho, o pai e são os sois.
O que aportou em sangue, o rito fixou no mito.
Memória lavada em lágrimas, em Valongo-grito.
Zumbindo pelos mares, Palmares, eis o mito.
(ANTONIO, Fausto. Patuá Adinkra. Londrina- PR:Galileu , 2025.)
Enquanto circulavam pela praia, no calçadão, Dolincar leu para Anaya o cartão enviado pelos amigos Rufino e Lia: “O casamento é, pela lei das anterioridades, aquilo que já fora unidade”. Ela riu; era uma forma de concordância. Estava o texto lavrado no cartão de enlace dos noivos.
Anaya, revendo o texto e olhando fisicamente as ondas e o balanço lento das águas, fixou os olhos além do horizonte, descortinou, numa aparente digressão, outra unidade. São palavras dela. Não há dúvidas, olhando a costa atlântica brasileira, que o subcontinente América do Sul foi um dia parte da África. O possível encaixe parece meio que esculpido, notadamente no litoral brasileiro e no espelho invertido dos países africanos que fitam, do outro lado do Atlântico, frontalmente o Brasil. Os casamentos deixam num paralelo comparativo ou sustentam desenhos, formas esculpidas que lembram por muito tempo a unidade desfeita, muitas vezes apenas no descontínuo abraço.
Eles eram o espelho Atlântico em forma humana; oceano aberto pelo amor e por ele contido num afeto profundo. Os dois Atlânticos se beijam e se desejam e, nas margens, se refletem nas formas esculpidas; existem aquelas das terras apartadas, no inverso e universo dos amantes, às vezes em voltas, lembranças e distâncias. Não era o caso dos enamorados, casados e abençoados pelo mar.
Anaya e Dolincar sentiram os abalos da separação num lapso exíguo de tempo. Era ainda o início do namoro e houve um repentino abalo e o desenlace. Tudo durou muito pouco no tempo do relógio. Logo refizeram os laços. Tudo se deu, o romance e o reencontro, no litoral Norte do estado de São Paulo. Existem cenas que são de cinema; outras são roteiros abertos para os cortes e sucessivas e plásticas montagens. Eis como se fez por si e pelos namorados a cena.
— Não acredito — anunciou com voz firme e baixa, Anaya.
Além do lábio e coração, a palavra ficou retida no vácuo do reencontro.
— Estou feliz pelo momento — disse ao tocar o chão escorregadio do contato.
Dolincar ficou paralisado ao não dar a resposta. O coração disparou. A história, que se fazia e se refazia pelo reencontro, ganhou o corpo e largou por inteiro, como um elo trançado pelas carapinhas, o enunciado pelo corpo. O que estava insinuado, então? Apenas o encontro fazia valer o tempo e o espaço. Entre o seu corpo, foi o que sentiu Dolincar, havia o de Anaya, que era o seu próprio corpo ao se misturarem no abraço. A liquidez do tempo andara como um navio em partida, em um derradeiro desaparecimento após a partida. No entanto, o movimento que se dera pelo início era circular, e o fim e o meio se voltavam como a água na praia. Refluxo sem fim, mas o navio, estranhamente, continuava saindo lentamente do porto. A cena, meio de cinema, foi experimentada quando tinham dezoito anos. O tempo circular correu para trás e para frente.
— “Si vis amari, ama”, meu velho.
Ouviu e não deu de ombros. Por dentro, efetivou o abraço com o dito. O preceptor do dito, além de quem o enunciou, Anaya, era a experiência do vivido e do revivido. Enquanto o mar batia em avanços e recuos pela areia da praia Grande, em Ubatuba, os dois namorados caminhavam de mãos dadas; os pés afundavam e saíam inteiros da areia macia e úmida. Dolincar e Anaya eram um casal envolvido pelo amor, apesar dos longos anos de casamento. Namorados, então, pela excepcionalidade do contínuo afeto, nutriam o amor pelo amor. Passado e presente eram aquele arco aberto e fechado num caracol de memórias. Na ponta da praia, olhos fixos, em parte, no horizonte, Anaya fitou, fechando o ângulo de enquadramento, o rosto de Dolincar; em seguida o beijou e disse:
— Vivemos o nosso eterno amavisse, não é? É possível transformar o “ter amado” num contínuo amoroso, Dolincar?
— Amavisse é, Anaya, da linhagem sonora e visual das palavras escorregadias, limbosas, sinuosas e fascinantes pelo que revelam e mais ainda pelo que escondem. Amavisse, ter amado, é o infinitivo perfeito do verbo latino amare. A ideia do amor acabado, no circular e restitutivo retorno memorial ancestral, refaz, no presente circular, o passado.
— No amor, nada é realmente acabado — enfatizou Anaya —, estamos diante de um poço sem fundo.
— Amavisse, então, na ressonância da memória, é a presentificação circular e circulada do vivido no revivido. Conforme é concebido o conceito aqui, a palavra não respeita ou não corresponde fielmente à significação, sem embargo do uso, a despeito de respeitar a conjugação diacronicamente aceita do verbo amare. No romance das idades, amavisse é o amor presente no tempo e no espaço.
— Pode ser também, Dolincar, uma espécie de esquecimento?
— Sim, Anaya, pode ser — e seguiu cavando, como se da saudade, talvez, saísse a memória presentificada.
As palavras transitam pelo corredor escuro, sinuoso e escorregadio do sem-tempo; vibração atemporal que, ao ser de certo modo percebida, escorre em palavras esculpidas em longas e intermináveis nuvens. Elas nasceram, no limbo liso, para completar a criação eterna. Algumas se fixam temporariamente num certo uso, depois correm livres e renovadas esteticamente. A palavra é a chave para entrar e sair do paraíso; há quem sustente que o é também para entrar e sair do inferno interior. Elas sabem, talvez pelo que há de humano e divino nelas, que estão contidas noutras palavras e, nelas, por sua vez, estão contidos os mundos. Tudo à semelhança do que somos, inseparáveis: corpo, alma e espírito. Os mundos estão contidos nos mundos e, por pendular e restitutiva relação, o inferno e o paraíso habitam, por certo tempo, o nosso interior.
Amavisse é uma palavra recolhida e, principalmente, escolhida a partir do passeio pelo corredor escuro e escorregadio da criação. No passado, ainda menino, não tive medo de ali, no domínio do inesperado, visualizar e depois internalizar os Exumos — a palavra que é o que não é. Sem o prejuízo da idade, não tive medo e me aproximei dos Exumos e assim, com Deus e o Diabo entrelaçados em um e, sobretudo, em mim, andei livremente pelo corredor escuro e escorregadio, útero que gera e gira o sol, a vida. Na unidade, então, o sol é a contraparte de amavisse. Há palavras que se atraem, se beijam e têm, na união, o avesso transitivo de múltiplas associações e, sobretudo, recriações.
(*) Fausto Antonio é poeta, escritor, dramaturgo e professor Associado da Unilab- Bahia .
