Por Valter Pomar (*)

O mundo, o continente e o Brasil estão em disputa.
Esta disputa não vai terminar dia 25 de outubro.
Mas quem ganhar as eleições de 2026 – especialmente a presidencial – terá melhores condições de fazer valer sua posição.
Todo nós petistas sabemos disso. E sabemos, também, que as eleições estão muito difíceis.
Parte da dificuldade é política, outra parte é organizativa, embora na prática esteja tudo junto e misturado.
As candidaturas da direita têm ao seu lado o imperialismo, a maior parte das instituições, dos meios de comunicação e do empresariado.
As direitas têm ao seu dispor, também, a maior parte dos R$ 4.961.519.777 do fundo eleitoral.
Deste total o PT recebeu 12,4% ou aproximadamente 615 milhões, para dividir entre as candidaturas petistas à presidência, governos estaduais, senado, Câmara e Assembleias Legislativas.
A divisão destes 615 milhões entre todas as candidaturas petistas foi decidida pela executiva nacional do Partido. E quase todo mundo ficou insatisfeito com o resultado.
Alguns não receberam nada, outros receberam muito pouco, muitos receberam menos do que consideram necessário, a maioria não entende (ou não concorda) com os critérios adotados.
Salvo ajustes pontuais, o que está feito, está feito. Mas em 2027, o Partido vai ter que discutir a fundo a questão e construir outro método para alocar os recursos do Fundo Eleitoral.
O ponto de partida desta discussão é reconhecer que – enquanto vivermos no capitalismo e atuarmos numa democracia eleitoral burguesa – o dinheiro continuará sendo um problema para as candidaturas da classe trabalhadora.
E que sempre teremos menos que o necessário.
O único jeito de superar a falta de dinheiro é com militância.
E a tristíssima verdade é que a militância voluntária, assim como a decorrente contribuição financeira, diminuiu muito ao longo dos últimos 46 anos.
Este é o primeiro problema que precisamos enfrentar: os recursos públicos do Fundo Partidário e do Fundo Eleitoral cresceram ao longo dos anos, mas os recursos financeiros e não financeiros resultantes da militância voluntária caíram muito, tendo como resultado final que, hoje, temos menos dinheiro do que precisaríamos ter.
A solução deste problema é fácil de dizer e difícil de fazer: reativar a militância e a arrecadação voluntária.
Se isso não for feito, continuará valendo a regra não escrita, que vem sendo adotada em muitos estados, a saber: não lançar candidaturas (majoritárias e proporcionais) por razões financeiras, mesmo onde isso é politicamente necessário.
O segundo problema que precisamos enfrentar deriva da legislação eleitoral. Cada eleição que passa, a direita muda a legislação, sempre no sentido de enfraquecer os partidos e, ao mesmo tempo, no sentido de fortalecer as candidaturas individuais.
Um dos resultados disso é esse fundo eleitoral bilionário, planejado não para fazer a campanha de 30 partidos, mas sim para dar conta das necessidades de 20.506 candidaturas.
O único jeito do fundo eleitoral funcionar adequadamente é se mudar o sistema eleitoral e for instituído o voto em lista partidária.
Mesmo que seja mantido o sistema atual, o terceiro problema que deve ser resolvido é o método de distribuição dos recursos.
O método atual – que, com algumas diferenças, foi adotado nas eleições de 2022 e 2024 – não está funcionando adequadamente.
A maior parte da militância e mesmo das candidaturas não conhece ou não entende este método e suas regras, inclusive as legais.
Além disso, é perfeitamente possível debater e aprovar critérios com mais antecedência, em espaços mais democráticos do que as reuniões de uma comissão, de uma executiva ou de um diretório.
Finalmente, é preciso enfrentar um quarto problema: o conflito entre os atuais mandatários, que priorizam sua reeleição, e o conjunto do Partido, que pretende ampliar as bancadas.
É às vezes tratado como piada, mas na verdade é muito grave que parte de nossa bancada de deputados tenha constituído um autodenominado “sindicato”, onde muitos se acreditam proprietários do Fundo Partidário e do Fundo Eleitoral, ao mesmo tempo que fingem desconhecer o desequilíbrio causado pelas emendas.
O referido “sindicato” obteve, em 2024, uma grande vitória, quando o Diretório Nacional do PT aprovou uma decisão, por maioria mas ilegal, que permite reeleições indefinidas no mesmo cargo. E se não fosse a legislação eleitoral, o Sindicato teria abocanhado parte ainda maior do fundo eleitoral.
Claro que precisamos garantir a reeleição dos atuais mandatários. Mas isso não pode ser feito às custas da ampliação e da renovação de nossa representação institucional. Os dados demonstram que nossa renovação está abaixo do necessário. E que nossa ampliação – se comparado ao nosso desempenho de 2002 – não está ocorrendo.
As razões disso, como já dissemos antes, são políticas e organizativas. O dinheiro não é solução mágica para nada, como demonstram os resultados frustrantes da fortuna investida na candidatura de Boulos em 2024. Mas o dinheiro tem que deixar de ser o grande problema que virou hoje.
E, no que diz respeito às eleições de 2026, temos que dar uma “arrumada geral” na casa. Mas a verdade é que, mais uma vez, só a militância salva.
(*) Valter Pomar é professor e diretor da FPA
