Vencedor da Mostra de Tiradentes, documentário de Anita Leandro estreia nesta quinta-feira (20) em 17 cidades e recupera registros inéditos da luta contra a ditadura e a impunidade dos torturadores

Em Anistia 79, a diretora Anita Leandro recupera imagens inéditas encontradas durante uma pesquisa na França e aproxima os registros da Conferência de Roma das memórias de quem viveu a luta pela anistia. Foto: Divulgação
Publicado originalmente no site da Fundação Perseu Abramo
Durante quase meio século, imagens da luta de exilados brasileiros contra a ditadura permaneceram guardadas em um porão de Paris. Filmado em junho de 1979, o material registra os três dias da Conferência Internacional pela Anistia e as Liberdades Democráticas no Brasil, realizada em Roma. Agora, essas cenas chegam às telas em Anistia 79, documentário dirigido por Anita Leandro que estreia nesta quinta-feira, 20 de agosto, em cinemas de 17 cidades brasileiras.
Original do Canal Curta! e distribuído pela Embaúba Filmes, o longa chega ao circuito depois de conquistar os prêmios de Melhor Filme da competição Olhos Livres e do Júri Popular na Mostra de Cinema de Tiradentes. A produção também recebeu o Prêmio de Apoio à Distribuição no FIDMarseille e foi escolhida como Melhor Longa-Metragem Documental no FID:Rio.
As imagens foram registradas por Hamilton Lopes dos Santos, então exilado em Paris. Sem dinheiro ou experiência em cinema, ele alugou uma câmera, reuniu uma pequena equipe e viajou até Roma com a intenção de preservar aquele momento. O resultado são quase duas horas de filme em 16 milímetros, preto e branco, nas quais aparecem centenas de exilados brasileiros e defensores dos direitos humanos de diferentes países.
Décadas depois, Anita Leandro encontrou uma cópia mal digitalizada e sem som, gravada em cassetes mini-DV, numa biblioteca da Universidade de Nanterre, nos arredores de Paris. A instituição, especializada em questões políticas da América Latina, colocou a diretora em contato com Hamilton, autor dos registros.
O reencontro com as imagens
Anistia 79 não utiliza o arquivo apenas para reconstituir um acontecimento histórico. Anita mostra as filmagens a 11 pessoas que participaram daquele processo e registra o impacto do reencontro com suas próprias imagens, quase cinco décadas mais jovens.
“Não se trata de um filme temático sobre anistia”, explica a diretora, “mas de um filme sobre a emoção de 11 pessoas que viveram esse processo, diante de imagens de arquivo onde elas aparecem”.

A pesquisa de arquivo de Anistia 79 partiu de uma cópia mal digitalizada e sem som, localizada na Universidade de Nanterre, na França, e chegou a Hamilton Lopes dos Santos, responsável pelos registros em 16 mm da Conferência de Roma. Foto: Divulgação
A força do documentário está nesse confronto entre tempos. As imagens da Conferência de Roma carregam a mobilização política e a esperança de quem lutava pelo fim da ditadura. Vistas no presente por seus personagens, também trazem à superfície as perdas, as marcas da repressão e as cobranças que o Estado brasileiro ainda não respondeu.
No centro dessa construção está Denise Crispim. Presa e torturada enquanto estava grávida, ela aparece no início do filme em imagens de seu depoimento ao Tribunal Bertrand Russell II, em 1974. Sem condições de falar, Denise teve o testemunho lido por um jurista. Quatro anos antes, seu marido, Eduardo Leite, o Bacuri, havia sido preso, torturado por mais de cem dias e assassinado no DOPS de São Paulo por agentes do Estado.
Anita não mostra a Denise apenas o registro do tribunal, que ela já conhecia. Apresenta outras imagens, até então inéditas, feitas durante a Conferência de Roma. Nelas, Denise aparece ao lado da filha Eduarda, nascida na prisão e levada para o exílio. É a passagem de uma imagem marcada pela violência para outra atravessada pela sobrevivência e pela expectativa de mudança.
O trabalho retoma uma linha presente na filmografia de Anita Leandro. Em Retratos de Identificação, lançado em 2014, a diretora reconstituiu a trajetória de Maria Auxiliadora Lara Barcellos, presa e torturada durante a ditadura e morta no exílio, em Berlim. Documentarista, pesquisadora e professora de cinema da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Anita desenvolve um trabalho voltado aos arquivos produzidos pelos órgãos de repressão e às memórias das pessoas perseguidas pelo regime.
A anistia em debate 47 anos depois
O lançamento ocorre no mês em que a Lei da Anistia completa 47 anos. Sancionada em 28 de agosto de 1979 pelo general João Figueiredo, a Lei nº 6.683 concedeu perdão a pessoas que haviam cometido “crimes políticos ou conexos com estes”. A interpretação adotada permitiu que agentes responsáveis por prisões ilegais, torturas, assassinatos e desaparecimentos forçados também fossem beneficiados.
A extensão da anistia aos agentes da repressão continua contestada por organizações de direitos humanos e especialistas. Crimes de tortura são considerados crimes contra a humanidade e, portanto, não poderiam ser anistiados. O desaparecimento forçado e a ocultação de cadáver também são crimes permanentes enquanto o destino das vítimas não for esclarecido.
Ao recuperar o debate anterior à aprovação da lei e permitir que seus participantes revejam as próprias imagens, Anistia 79 registra as demandas defendidas naquele momento e as questões que permaneceram sem resposta. O passado reaparece no filme por meio de documentos produzidos pelos próprios exilados, preservados durante décadas e colocados novamente em circulação.
Assista ao trailer de Anistia 79.
Onde assistir a ‘Anistia 79’
Programação de 20 a 26 de agosto:
Afogados da Ingazeira
Cine São José: sexta-feira e domingo, às 16h30.
Aracaju
Cinema do Centro Cultural de Aracaju: quinta-feira, às 16h; domingo, às 14h15.
Belo Horizonte
Cinema do Centro Cultural Unimed-BH Minas: quinta-feira, às 20h; sexta-feira, domingo e terça-feira, às 18h35; quarta-feira, às 17h.
Una Cine Belas Artes: todos os dias, às 16h10.
Caxias do Sul
Sala Ulysses Geremia: quarta-feira, às 19h30.
Fortaleza
Cinema do Dragão: quinta e sexta-feira, às 20h; sábado e domingo, às 19h30; terça e quarta-feira, às 20h.
Maceió
Cine Cultura Arte Pajuçara: sexta-feira, às 20h.
Niterói
Cine Arte UFF: sábado, às 15h; terça-feira, às 20h; quarta-feira, às 14h30.
Palmas
Cine Cultura: todos os dias, às 19h.
Penedo
Cine Penedo: horários disponíveis nas redes do cinema.
Poços de Caldas
IMS Poços de Caldas: sábado, às 16h; domingo, às 17h30.
Porto Alegre
Cine Bancários: às 19h, exceto segunda-feira.
Recife
Cinema da Fundação | Museu: quinta-feira, às 17h; sexta-feira, às 14h20; sábado, às 18h25; domingo, às 16h25; segunda-feira, às 14h50; terça-feira, às 17h10; quarta-feira, às 19h10.
Rio de Janeiro
Estação Claro | Rio: quinta-feira, sábado, domingo e terça-feira, às 20h55.
Cine Santa Tereza: todos os dias, às 17h.
Cinecarioca José Wilker: todos os dias, às 18h30.
Salvador
Cine Glauber Rocha: todos os dias, às 14h.
Circuito Saladearte | CineMAM: sexta-feira, domingo, terça e quarta-feira, às 16h30.
Circuito Saladearte | Cine Paseo: sábado e domingo, às 12h20.
São Paulo
Espaço Petrobras de Cinema: todos os dias, às 16h.
IMS SP: quinta-feira, às 20h; sexta-feira, às 15h50; sábado, às 18h50; domingo, às 20h; terça-feira, às 17h20.
Cine Bijou: quinta-feira, às 17h30.
Circuito SP Cine | Cine Olido: às 18h, exceto segunda e terça-feira.
Cine Segall: todos os dias, às 16h45.
Vitória
Cine Metrópolis: quinta e sábado, às 20h; segunda e terça-feira, às 18h; quarta-feira, às 16h45.
Circuito Embaúba em Nova Friburgo
Lumière Cineclube, na Casa dos Saberes: sexta-feira, 21 de agosto, às 19h.
Ficha técnica
Direção: Anita Leandro
Roteiro: Anita Leandro e Alice de Andrade
Produção: Maria Flor Brazil e Alice de Andrade
Produção executiva: Maria Flor Brazil
Fotografia: Bené Machado
Montagem: Anita Leandro e Isabel de Castro
Som: Glaydson Mendes
Gênero: documentário
Duração: 105 minutos
País e ano de produção: Brasil, 2026
Empresas produtoras: Montanha Russa Cinematográfica e Banda Filmes
Distribuição: Embaúba Filmes
Participações: Luiz Eduardo Greenhalgh, Heloísa Greco, Hamilton Lopes dos Santos, Dirceu Greco Monteiro, Branca Moreira Alves, José Pedro da Silva, Marijane Lisboa, Jean Marc von der Weid, Denise Leal, Mariana Conceição Leal e Denise Crispim.
