Nota política da Articulação de Esquerda sobre a tática eleitoral em Minas Gerais – 2026

 “Todo artista tem que ir aonde o povo está.”

Trecho da música “Nos Bailes da Vida”, dos compositores mineiros Milton Nascimento e Fernando Brant

Introdução

A tendência petistas Articulação de Esquerda (AE) em Minas Gerais, reunida no Congresso Estadual de 21 de fevereiro, aprovou encaminhamentos para orientar nossa intervenção na disputa de 2026. Esta nota busca reelaborar esses encaminhamentos em chave política: não como um “manual de campanha”, mas como uma afirmação de rumo. Porque, em tempos de crise orgânica e de guerra social permanente, eleição é disputa de governo, de Estado e de futuro — e disputa de povo, no sentido forte da palavra: quem fala com as maiorias, quem as organiza e quem progride a sua luta.

Minas sempre foi vendida como “equilíbrio”, como “centro” e como “encontro do Brasil”. Mas, na prática, o que se chama de equilíbrio muitas vezes é apenas o nome elegante da conciliação com os de cima. A AE afirma o contrário: em 2026, não podemos naturalizar a política como mera administração de limites. A extrema-direita não opera no registro do meio-termo; ela opera no registro do assalto e do ataque incessante às nossas pautas. E quando o campo popular hesita, a hesitação vira método de combate do adversário. Por isso, nossa tática começa pela nitidez: é preciso oferecer ao povo mineiro um campo de identificação, uma narrativa de esperança e um programa que não seja apenas catálogo de entregas e amorfo em nome da amplitude, mas projeto de país e de estado.

A tarefa central da AE: conquistar representação estadual na ALMG

A AE chega a 2026 com acúmulos, experiência e presença pública. Mas acúmulo não vira representação automaticamente. Representação exige foco, método e unidade de ação. Por isso, definimos como objetivo central conquistar uma vaga na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, ampliando a capacidade de incidência do campo popular no estado e fortalecendo a disputa política de longo prazo.

Nesse sentido, a AE indica como candidatura orgânica à ALMG a companheira Adriana Souza. A indicação não é mero gesto formal; é uma opção estratégica por uma candidatura com capacidade de sintetizar nossa linha política, dialogar com as maiorias, construir base real e operar a combinação indispensável entre luta social e disputa institucional. Em 2026, nossa candidatura não pode ser a soma de apoios dispersos; precisa ser a expressão de uma construção coletiva, com disciplina, orientação e metas territoriais.

O Senado e o palanque de Lula em Minas: Marília Campos como eixo estruturante

A pré-candidatura de Marília Campos ao Senado deve ser tratada como ponto de apoio estratégico. Não apenas pelo peso popular de Marília, mas porque o Senado é uma trincheira central na defesa da soberania nacional, na proteção do Estado Democrático de Direito e na disputa por capacidade de governo. Em 2026, a extrema-direita e seus aliados disputarão o Senado como quem disputa um cofre e um botão de emergência: para travar o país, chantagear políticas públicas e manter a sociedade em permanente instabilidade.

Defender Marília ao Senado é, portanto, defender um palanque nítido do projeto democrático-popular em Minas e fortalecer a capacidade de Lula governar e reconstruir o país com base popular. A AE reafirma que não há espaço para vacilações que fragilizem o PT no terreno mineiro. E reafirma também que a candidatura ao Senado precisa conversar com uma estratégia estadual coerente: palanque se constrói com antecipação, com programa e com povo organizado.

Disputar brancos e nulos: reconectar política e vida concreta

A AE assume como tarefa explícita disputar votos brancos e nulos. Não como estatística, mas como sintoma social. Parte desse campo expressa desilusão, cansaço, raiva contida, sentimento de abandono e distância da política eleitoral. A extrema-direita tenta capturar esse sentimento com ódio e moralismo; nós precisamos capturar com verdade, escuta e projeto.

Essa disputa exige linguagem concreta: tempo de vida (jornada), dinheiro no bolso (salário e preço), direito à cidade (transporte e serviços), direito de viver (combate às violências, especialmente contra as mulheres) e direito de sonhar (juventude, trabalho, futuro). Exige, sobretudo, uma prática que combine escuta e direção: a esquerda só reconquista confiança quando aparece, permanece e resolve — e quando organiza o povo para que ele mesmo seja sujeito da mudança. Por isso, é importante saber formar nossa militância para apresentar o projeto do PT não somente em entregas imediatas, como também numa perspectiva histórica: afinal, como o país apresentou melhorias significativas para as maiorias enquanto o Partido  dos Trabalhadores e Trabalhadoras esteve à frente do governo? Qual é a importância histórica da erradicação da fome durante nossas gestões? Qual é a importância de termos um país com luz elétrica para a maioria de sua população? Qual é o impacto na qualidade da vida democrática com mais pessoas de diferentes classes sociais tendo acesso à educação superior? Tais questões necessitam de uma formulação política qualificada, algo que deve ser um diferencial com relação aos nossos adversários, em grande parte acostumados a fazerem política na base da gritaria e da ausência de projeto para o país.

Certamente, uma formulação política qualificada não deve ser confundida com uma comunicação erudita ou academicista. Pelo contrário, é preciso saber utilizarmos os instrumentos das redes sociais e nos comunicarmos dentro da sua demanda, balizada pela alta intensidade e velocidade, com mensagens que consigam atingir uma parcela considerável do nosso povo.

Programa como mobilização: em defesa da Construção  de um  Seminário Estadual

Os encaminhamentos aprovados apontam para uma tarefa programática central: realizar um conjunto  de Seminários Estaduais como instrumentos de mobilização, síntese política e reorganização militante. Não são eventos para “marcar posição”. É um mecanismo de construção de horizonte, capaz de articular a disputa de Minas Gerais com formação e reflexão.

O seminário deve produzir diretrizes públicas e mobilizadoras, ancoradas em temas que mexem com a vida real e enfrentam os poderes: mundo do trabalho e jornada (com centralidade para a luta contra a escala 6×1 e por redução de jornada), serviços públicos, combate ao feminicídio e às violências, desenvolvimento com justiça ambiental, soberania econômica e tecnológica (incluindo o debate sobre IA e interesse público), além de uma crítica frontal aos mecanismos de privilégio e captura do orçamento que deformam a democracia.

Dobradas, território e campanha real: organização popular no tempo das redes

A experiência do último período ensina: campanha vitoriosa não é a que “faz barulho”; é a que organiza presença. A AE reafirma que a política de dobradas deve ser tratada como instrumento de organização territorial e ampliação — e não como lista engessada de acordos formais. Dobrada, para nós, é método de enraizamento: agenda conjunta, circulação, metas e linguagem alinhada com o povo trabalhador. Por isso, não deve ser fixada rigidamente a priori, mas construída onde há capacidade real de campanha, respeitando a realidade local e potencializando sinergias.

Ao mesmo tempo, precisamos dizer com clareza: não existe campanha popular que dependa apenas do digital.

Nosso estilo de trabalho sintetizado no binômio “ruas e redes” não é mero slogan, é necessidade histórica. As redes aceleram, mas não substituem vínculo; não substituem escuta; não substituem capilaridade. Além disso, a disputa digital é atravessada por assimetrias que não controlamos. Se a voz popular vira refém do impulsionamento e do algoritmo, a resposta deve ser soberania comunicacional popular: rede de base organizada via redes sociais, comitês territoriais, trabalho de porta, plenárias, rodas, presença nos lugares onde a vida acontece — estação, feira, porta de fábrica, escola, bairro.

A campanha precisa voltar a ser pedagogia de massas:  ideias fortes, sustentadas com coerência, vínculo e presença.

Minas Gerais: riqueza capturada, povo apertado, e a urgência de um programa petista

Minas é um estado de potência material e de compressão social. Contamos com uma base objetiva material de terras raras, água, energia, minérios, ciência, indústria e logística. O problema, entretanto, é a economia política que organiza a base material. Quem controla a riqueza? Quem decide o destino do território? Quem se beneficia do desenvolvimento? Há décadas, o debate mineiro é rebaixado à gestão do possível, enquanto o impossível (privatizações, favores, rearranjos oligárquicos) avança como se fosse inevitável.

A AE afirma que o PT precisa apresentar em Minas um programa partidário que tenha densidade social e coragem política. Programa não é ornamento; programa é arma. Sem programa, a campanha vira remendo de alianças, e o palanque vira um “lugar vazio” onde cada um fala uma língua. E sem definição majoritária com antecedência, a política entra atrasada numa corrida que já começou, fragmentando o esforço militante e deixando o campo popular refém do improviso.

Por isso, defendemos que o PT deve construir, com urgência, uma estratégia estadual que inclua a definição do palanque majoritário e a apresentação de um horizonte mineiro de desenvolvimento democrático-popular. Caso essa indecisão se mantenha, defendemos o esforço de construção de uma candidatura própria do PT, visando o combate de ideias necessário no plano estadual que represente os interesses de nossa militância, nossos históricos aliados e de possíveis aliados mais amplos fora do nosso espectro.

 Conclusão

A AE em Minas chama a militância petista e o campo popular a assumirem 2026 como disputa decisiva. Não se trata apenas de resistir; trata-se de avançar. Com palanque nítido, programa vivo e base organizada, podemos derrotar a extrema-direita, fortalecer Lula, eleger Marília ao Senado e conquistar representação estadual na ALMG com Adriana Souza, ampliando a capacidade do povo intervir no destino de Minas.

Belo Horizonte, 26 fevereiro de 2026

Direção Estadual da Articulação de Esquerda em Minas Gerais

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