O anti-imperialismo enquanto programa da esquerda na América Latina

Por Gabriel Cavalcante (*)

O imperialismo se configura como uma ditadura global. Se, nas origens do século XX, tivemos o surgimento e/ou a estruturação de conglomerados empresariais globais controlados pelas nações imperialistas, hoje temos uma estrutura mundializada que abrange mecanismos como o dólar enquanto moeda hegemônica para trocas internacionais, o controle sobre o sistema financeiro global, sobre os preços das commodities e a existência de bases militares norte-americanas espalhadas por todos os continentes.

Dessa maneira, um dos núcleos centrais da reprodução global do imperialismo envolve o domínio econômico sobre bens naturais localizados em países periféricos, explorados por oligopólios mundiais, sendo esse núcleo central contornado por aspectos culturais, ideológicos, políticos e militares.

No concreto, do ponto de vista histórico, o Estado nacional norte-americano esteve historicamente a serviço de enormes companhias petrolíferas herdeiras diretas da Standard Oil, como a Chevron e a Exxon. O aparato militar estatal serve, por exemplo, tanto como instrumento de apropriação de reservas petrolíferas por meio da invasão de países quanto como comprador estatal de enormes volumes de combustíveis.

Por outro lado, os países latino-americanos apresentam abundância de recursos petrolíferos, minerais e agrários. A herança colonial, no entanto, colocou esses recursos a serviço de pequenas elites nacionais e dos oligopólios mundiais. Com o despertar do século XXI, inúmeras foram as experiências de governos de esquerda na América Latina.

Na América do Sul, todos os países latino-americanos tiveram, em algum momento, governos de esquerda. Algumas experiências tiveram ampla duração; outras apresentaram curto tempo de comando sobre o governo. Algumas realizaram amplos processos de reformas do Estado e nacionalizações; outras mantiveram intactas as estruturas deixadas pelos governos neoliberais anteriores.

O fio condutor da aplicação do receituário neoliberal na América Latina derivou, em inúmeros sentidos, do modo como se reproduz globalmente o imperialismo a partir da década de 1990. Por exemplo, grande parte das reformas regressivas que atingiram os povos latino-americanos decorreu de pressões externas que utilizaram instrumentos de dívida pública por meio de entidades transnacionais como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional.

Do ponto de vista global, após a queda do Muro de Berlim, o que temos é que a esmagadora maioria dos poros da economia mundial, no que se refere às trocas internacionais, foi tornada subordinada à produção de valor do sistema financeiro internacional controlado pelo imperialismo. Mesmo sociedades pós-revolucionárias, como a chinesa, hoje mantêm, ainda que com relativa autonomia, dependência do capital financeiro mundial.

A tônica geral é a existência de nações com maior ou menor autonomia em relação à atmosfera de ditadura das finanças mundiais controladas pelo imperialismo e, excepcionalmente, de nações que são desligadas do sistema global para serem destruídas.

Assim, tanto sociedades pós-revolucionárias como Cuba e Coreia do Norte permanecem excluídas da possibilidade de realizar comércio quanto nações que, do ponto de vista regional, ofereciam algum grau de desatrelamento dos interesses imperialistas, como Iraque e Líbia, foram esmagadas do ponto de vista econômico e/ou militar.

Trazendo essa discussão para a América Latina, em que pese o fato de que, invariavelmente, nenhuma experiência de esquerda no governo conseguiu romper com o caráter primário-exportador das nações do continente, a dinâmica de maior ou menor autonomia em relação ao capital financeiro mundial controlado pelos oligopólios permanece como a tônica. Para exemplificar, há, em comum nos governos de esquerda do Peru Libre, da Frente Ampla no Chile e do PT no Brasil, a prática de indicar para a presidência do Banco Central representantes dos mercados, o que deixa intacta a política monetária adequada aos interesses dos oligopólios mundiais.

O giro que se processa com a nova doutrina norte-americana para sua política exterior no que se refere à América Latina tem seu ponto de expressão mais visível e chocante na agressão militar e no sequestro do presidente Maduro, da Venezuela, mas envolve também outras medidas menos midiáticas, como a autorização, pelo Congresso do Peru, da entrada e permanência de forças armadas norte-americanas no país ao longo do ano de 2026, ou a possibilidade de reativação de bases militares no Panamá, no Equador e em Porto Rico.

Dupla é a questão que se apresenta a partir do giro geopolítico que os EUA realizam em direção à América Latina. A primeira é que, diante do relativo declínio de sua hegemonia global frente aos países do Sul Global, o imperialismo norte-americano busca ampliar a extração de excedente daquilo que considera seu “quintal”. A segunda é que, por essa perspectiva, não irá mais tolerar nenhum nível de autonomia por parte dos países latino-americanos. A disjuntiva que surge para esses países é, portanto, ou a submissão total, ou a violência econômica, institucional e até mesmo bélica.

Assim, se por um lado, a aparência imediata da vida social nos faz perceber o mundo como um conjunto de espaços separados: o “interno” de cada Estado nacional, com sua política doméstica, e o “externo”, onde operariam as potências e a geopolítica. Se, para a consciência individual, essa separação comparece como algo quase natural: acredita-se que os conflitos de classe se resolvem principalmente no interior das fronteiras e que a política internacional atua como pano de fundo. Por outro lado, o próximo período tende a desfazer essa divisão aparente. A intensificação da interferência externa dos Estados Unidos na América Latina, seja por mecanismos financeiros, por controle tecnológico e informacional, por guerra jurídica, por coerção diplomática ou por presença militar direta e indireta, tende a produzir um efeito específico: derrubar como biombos as fronteiras imaginárias que isolam os povos, revelando que o “interno” de cada país é atravessado por determinações externas que organizam o próprio campo de possibilidades do Estado.

Quando uma potência imperial decide aumentar o grau de comando sobre a região, ela não atua apenas sobre governos; ela opera sobre a totalidade social. Ao interferir nos preços, na moeda, na circulação de capitais, na logística, nos sistemas de segurança e na capacidade soberana de definir políticas econômicas, o imperialismo reorganiza a reprodução social em vários países simultaneamente.

Nesse quadro, a classe trabalhadora de cada país deixa de ser apenas uma classe “nacional” e volta a aparecer como aquilo que sempre foi em essência: parte de uma classe regional submetida a um mesmo regime de extração de excedente, de um mesmo enquadramento da dependência e de um mesmo horizonte de coerção. O avanço da intervenção imperial torna mais visível o que já estava dado no real: as classes trabalhadoras latino-americanas estão interconectadas pela mesma estrutura histórica de subordinação, ainda que essa interconexão permaneça obscurecida em períodos de menor tensão geopolítica.

Daí decorre uma consequência decisiva: a solidariedade latino-americana não pode ser tratada como valor moral abstrato, como gesto cultural ou como preferência subjetiva de militantes. Ela tende a se converter, cada vez mais, em necessidade histórica, isto é, em condição prática de sobrevivência política e material.

Quando o comando imperial se torna mais agressivo, a derrota de um processo popular em um país tende a funcionar como precedente e laboratório de contenção para os demais; e o êxito relativo de um governo que amplia margens de soberania tende a produzir efeitos de encorajamento e abertura para outras experiências. A coerção internacional opera em cadeia: sanções, bloqueios, estrangulamento financeiro, desestabilização política e militarização seletiva não se distribuem por acaso, são mecanismos de disciplina regional. O que se impõe, portanto, é uma elevação do nível de consciência: não se trata de “cada povo resolver seu problema”, mas de reconhecer que há um conflito de escala continental, onde as vitórias e derrotas se comunicam. A unidade passa a ser menos um ideal e mais um imperativo de autodefesa coletiva.

É nesse ponto que se torna possível enunciar o segundo movimento: o anti-imperialismo como razão existencial das organizações e dos governos de esquerda latino-americanos. Existencialmente, a esquerda não pode ser definida apenas por intenções éticas ou por programas distributivos; ela se define pela posição que ocupa no conflito entre a reprodução social da classe trabalhadora e os mecanismos estruturais que transformam essa reprodução em excedente apropriável por oligopólios mundiais. Em formações dependentes e primário-exportadoras, o imperialismo não é um fenômeno externo acidental: ele é um elemento constitutivo da forma concreta de existência do Estado, das classes dominantes locais e do lugar do país na divisão internacional do trabalho.

Por isso, a esquerda que se limita a gerir o Estado sem enfrentar os mecanismos de subordinação externa tende a ser capturada pela própria forma do Estado dependente: ela administra a escassez, negocia margens mínimas, preserva o essencial da dependência e se torna refém das condições impostas pelo capital financeiro e pelos dispositivos geopolíticos.

Ser anti-imperialista, então, não é um “tema” adicional, nem uma ênfase discursiva: é a própria condição existencial para que governos e organizações de esquerda possam existir enquanto tais. Se a esquerda pretende representar o trabalho e ampliar a soberania popular, ela precisa confrontar aquilo que, na periferia, delimita de antemão o que é possível governar: o controle externo da moeda e do crédito, a chantagem da dívida, o comando sobre cadeias logísticas e tecnológicas, a tutela militar e o regime de sanções como punição exemplificadora. Não se trata de negar contradições internas, elites locais, burguesias dependentes, aparelhos repressivos e formas específicas de dominação nacional, mas de reconhecer que, em nossa região, essas contradições internas estão organicamente articuladas ao comando imperial.

A burguesia local não é apenas uma classe nacional: ela é também mediadora interna de um sistema mundial de apropriação. Portanto, a luta democrática, a luta social e a luta anti-imperialista não são três lutas separadas; são dimensões de um mesmo processo histórico.

Assim, a conclusão se impõe com rigor: no próximo período, o aumento do grau de intervenção imperial tende a expor a unidade real do continente como campo de disputa e tende a deslocar a esquerda para uma prova de verdade. Ou a esquerda assume o anti-imperialismo como núcleo organizador de sua estratégia — por necessidade existencial e por imperativo de sobrevivência política — ou ela será empurrada para a gestão impotente da dependência, sendo eventualmente substituída por formas abertas de coerção e submissão. A tarefa histórica, portanto, não é apenas resistir a medidas pontuais, mas construir uma forma continental de solidariedade, coordenação política e projeto econômico que torne material a soberania dos povos. Quanto mais o imperialismo tentar separar e disciplinar as nações, mais o real exigirá que elas se reconheçam como parte de uma mesma luta.

(*) Gabriel Cavalcante é militante petista e da Articulação de Esquerda na Bahia.

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