O grande ausente

Por Leandro Eliel P. Moraes (*)

As eleições brasileiras de 2026 devem ser compreendidas no contexto do atual estágio do capitalismo, da conjuntura de ascensão da direita e da extrema direita pelo mundo afora, do papel dos Estados Unidos e do momento de defensiva estratégica do movimento socialista, considerando como tudo isso se expressa aqui no Brasil.

Além desses aspectos estruturais e conjunturais, o resultado eleitoral deste primeiro turno deve ser também analisado à luz da confluência de três fatores locais: a) o desempenho do governo Lula, em particular neste último período; b) a força da extrema direita, que expressa interesses concretos do grande capital; c) o papel da esquerda brasileira, em particular do Partido dos Trabalhadores.

Os apontamentos aqui apresentados abordam apenas esse último fator, indicando que o PT foi o grande ausente neste processo eleitoral. Não se trata da militância petista, mas de uma estratégia equivocada dos setores majoritários, que colocaram o PT numa situação de coadjuvante na luta política e eleitoral.

A estratégia democrática e popular, formulada nos primeiros anos do PT, propunha um programa de reformas estruturais articulado com uma perspectiva socialista. No campo da organização partidária, apontava para uma articulação entre a luta institucional e a luta social, apelidada de “pinça”: um braço na luta eleitoral e outro na organização popular e da classe trabalhadora.

Essa estratégia levava em consideração que a classe dominante brasileira, marcada por séculos de herança escravagista e autoritária, não aceitaria melhorias crescentes nas condições de trabalho e de vida da classe trabalhadora e que um governo que enfrentasse as imensas desigualdades sociais existentes seria boicotado e derrubado. Para enfrentar isso, o PT deveria aliar a luta por conquistas eleitorais, principalmente a conquista do governo federal, à luta política e social que daria respaldo nas ruas para que o governo avançasse nas reformas estruturais, abrindo, assim, possibilidades de uma transição socialista.

Após as eleições de 1989, no debate sobre as causas da derrota para Collor no segundo turno, setores que conformariam o campo moderado do PT defenderam a necessidade de uma alteração na estratégia partidária. Essa orientação se tornaria hegemônica na direção do partido após 1995. As mudanças produziram uma moderação programática, alianças com setores de centro-direita e alterações na organização partidária, retirando da base mecanismos de controle e participação nos rumos do PT, entre outros aspectos.

Se essa nova estratégia foi vitoriosa na conquista do governo federal em 2002 e possibilitou a conquista de um número considerável de governos estaduais e municipais até 2012, por outro lado, produziu um enfraquecimento da luta social. O PT foi se transformando em um partido cada vez mais institucional, que funcionava muito mais em anos pares, mas se esvaziava em anos ímpares. A nova estratégia, por nós denominada de centro-esquerda, não necessitava mais de um partido enraizado nas lutas sociais, capaz de dar respaldo às grandes transformações que seriam impulsionadas pelo governo federal. Necessitava de um partido organizado para ganhar eleições e apoiar, no lugar das reformas estruturais, políticas públicas e sociais. Essas políticas são importantes, mas insuficientes para enfrentar as imensas desigualdades sociais e a concentração de renda, riqueza e poder nas mãos da classe dominante, que, mesmo diante desse programa limitado, não permite que um governo como o nosso prossiga.

O golpe contra a presidenta Dilma, o governo ultraliberal de Temer, a prisão e a interdição eleitoral de Lula, o governo Bolsonaro e a tentativa de golpe em janeiro de 2023 foram mais uma demonstração de que a classe dominante brasileira não permite avanços políticos, econômicos e sociais dos setores populares. Todos esses ataques fragilizaram ainda mais o PT.

A institucionalização do PT, comandada pelos setores moderados, também enfraqueceu a própria luta institucional. A fonte de nossa fortaleza — a classe trabalhadora organizada, mobilizada e que disputava espaços de poder popular —, privada de uma estratégia de enfrentamento, também se voltou quase exclusivamente para a conquista eleitoral. Nesse processo, cada mandato foi se transformando num feudo eleitoral, e a CNB, corrente majoritária do PT, numa espécie de federação de mandatos, em que cada um atua para perpetuar seus interesses eleitorais. A construção de um projeto político coletivo e combativo foi se subordinando a interesses individuais e eleitorais, numa estratégia que não permite enfrentar de forma mais efetiva as imensas desigualdades sociais brasileiras. As alianças com setores da própria classe dominante travam esses avanços por dentro do governo.

Essa dinâmica subordinou o PT às estruturas institucionais de governos e parlamentos. Não havia mais necessidade de formação política, organização e mobilização da militância petista: bastava mobilizá-la para as eleições. Não havia mais necessidade de sedes partidárias em funcionamento, com espaços de acolhimento e atividades: bastava um comitê eleitoral. Não havia mais necessidade de construção de programas e táticas eleitorais pelo PT: bastava confiar no mandatário ou na candidatura, como ocorreu em 2026 com o programa de governo de Lula, que não foi aprovado pelas instâncias partidárias.

Se, em momentos anteriores, criticávamos o PT pelo abandono da luta social, parece que estamos numa situação ainda mais grave: o abandono da luta eleitoral em 2026, cuja responsabilidade foi transferida para o governo federal. A ausência do PT como agente de planejamento, organização e mobilização foi nítida. O próprio presidente Lula afirmou que esta eleição foi a mais desorganizada desde 1989.

Do ponto de vista de onde atuo, ainda que a responsabilidade seja coletiva, os presidentes nacional, estadual de São Paulo e municipal de Campinas foram cuidar de suas próprias campanhas e não organizaram minimamente a intervenção do PT nas campanhas majoritárias. Aqui em Campinas, houve um completo abandono. Só depois de muita pressão, a sede do PT Campinas foi aberta, apenas para distribuir escassos materiais.

Nosso prioridade agora é vira o jogo, eleger Lula presidente. Após o segundo turno, conquistando a vitória eleitoral, estaremos diante de novos desafios para enfrentar e extrema direita e necessitaremos ainda mais de estruturas coletivas e partidárias combativas, a altura do tempos de guerras que vivemos.

Essa ausência de estrutura organizativa foi suprida, em parte, pela indignação de uma parcela de nossa militância, que, agora, neste segundo turno, demonstra estar muito acima da capacidade e da disposição da maioria de nossos dirigentes. Graças a ela, venceremos em 25 de outubro e levaremos Lula a um quarto mandato. Bora, Lula! Viva a militância petista!

(*) Leandro Eliel P. Moraes é militante do PT Campinas

Uma resposta

  1. A nossa luta agora é contra extrema direita, mas eu já falei e falo.
    O convite é digital pra chamar a militância.
    Mas o embate é na rua.

    Como a esposa que o marido foi comprar cigarros e não voltou sendo deixada só para cuidar dos filhos.O PT foi este pai mas a militância é a mãe brasileira que não desiste nunca.

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