Resistência Bolivariana 2.0

Por Anisio Pires (*)

Texto publicado originalmente em Aporrea e traduzido por Lucas Arieh Medina

Resistência Bolivariana 2.0 [1]

O ato de barbárie contra a Venezuela (03/01/26), com o sequestro do presidente Maduro e de sua esposa Cilia, redefine tudo. As pretensões de voltar à “normalidade” devem despertar.

Respondendo às manipulações da direita para nos dividir, ou por honestas intenções de elevar nossa moral para resistir, circularam comparações históricas tentando evitar que as concessões que a presidenta (E) Delcy Rodríguez teve que fazer, sob a mira de armas, sejam interpretadas como “traição”.

Citaram o Tratado de Brest-Litovsk, o “Trem para a Finlândia”, a NEP (Nova Política Econômica – Lenin) e as negociações de Ho Chi Minh com os EUA, entre outras. Exemplos louváveis nos quais os revolucionários aceitaram coisas inaceitáveis, preservando o poder que permitiria atender às demandas populares quando as condições o permitissem. O brutal desequilíbrio tecnológico e militar do que ocorreu na Venezuela invalida essas comparações, embora a busca por preservar o poder bolivariano deva ser a preocupação de todos.

Devemos nos reinventar e descartar a ilusão de que poderemos enfrentar esse vendaval com práticas que já vinham desgastadas. Não esqueçamos que, quase sem fazer campanha, a “múmia” González obteve uma votação importante em 2024. É momento de uma introspecção coletiva profunda, como propôs o general Padrino López.

Com ela devemos buscar os caminhos de uma revolução prática dentro da revolução. Seria confortável transferir nossa responsabilidade, transformando o presidente Maduro em um super timoneiro infalível que tudo previu e calculou, deixando ainda claras instruções para proceder no cenário atual.

Restaria apenas esperar e confiar na indiscutível capacidade e lealdade da presidenta Delcy Rodríguez, acreditando que assim poderemos manobrar a chantagem norte-americana, preservar o poder político e atender à população quando chegarem os recursos petrolíferos. O momento é de alerta porque a situação é grave. Vimos declarações difíceis de compreender e que colocam à prova nossa lealdade[2]. Soberania tutelada? Calma e sensatez.

O analista O. Schemel advertiu que, manipulando o ataque, corre-se “o perigo de um Trump convertido em líder protetor, salvador e portador de bem-estar com autoridade simbólica”.

Dado que os meios para enfrentar a guerra cognitiva também não nos favorecem, que novas formas de resistência implementaremos para que as melhorias na vida do povo sejam vistas como conquistas da resistência bolivariana e não dos agressores?

Haverá uma disputa pela verdade que não venceremos apenas com celulares, mas revolucionando nossas práticas. Mostrar ao povo, com fatos, que o terrível golpe nos fez refletir e que agora, da maneira mais séria e consequente, reorientaremos nossos passos.

Oscar Schemel acrescenta: “Diante de um novo momento histórico, impõe-se uma renovada superestrutura cultural e emocional”. Precisamos de ações novas que emocionem. Basta de discursos sem resultados.

O povo revolucionário nos conhece bem. Sabe de nosso patriotismo inegociável, de nossa generosidade, solidariedade e humanismo à prova de tudo, mas também conhece aqueles que, por falta de austeridade republicana, ostentam, bem como o burocratismo e outras falhas que se repetem.

Falta ver que leitura têm de nós os chamados “nem-nem”[3], esse expressivo setor de nossa população colocado no centro do espectro político e muito pragmático. Estará conosco se mostrarmos resultados que melhorem sua vida. Se não inventarmos essas mudanças, as forças imperiais acabarão usando o petróleo, a anistia e a paz contra nós.

Com dor descobrimos que os S-300 e os Sukhoi russos não dissuadiram o inimigo. A “associação estratégica à prova de tudo e em todo tempo” com a China tampouco. O analista Pepe Escobar disse depois do ataque: “Há apenas UMA maneira de deter um império do saque que se descontrola: um guarda-chuva militar-nuclear para todo o Sul Global”. Esse guarda-chuva não virá tão cedo, e a escala de violência imperialista que ocorre no mundo apenas confirma isso. Caberá resistir e avançar rumo ao futuro, enfrentando nossa principal falha: a qualidade.

Enquanto nos maravilhamos com os êxitos da China como se fossem um filme de ficção científica, mantemos essa cultura normalizada de conformar-se com o mal-feito, onde operam a desídia e a falta de cuidado com nossas obras e projetos.

Para enfrentar o capitalismo, a China entendeu que deveria passar da quantidade à produção eficiente e de qualidade, mas não apenas no “econômico”, e sim em todas as dimensões da vida. Para que qualidade e eficiência possam desenvolver-se consistentemente nos espaços produtivos de um país, é necessário que também se disseminem por toda a sociedade como um novo senso comum civilizatório. Ordem, limpeza, beleza e ecologia.

As extraordinárias imagens que recebemos de toda a China falam por si mesmas. Agora, o “Feito na Venezuela” não basta. Devemos passar ao Feito na Venezuela e para a Venezuela com excelência, dando ao povo novas energias para resistir. Aprender com a humildade de uma cultura milenar:

“Devemos adotar uma atitude inclusiva, aprender modestamente com os aspectos positivos de outras civilizações, digeri-los, absorvê-los e transformá-los no que nos possa servir” (Xi Jinping, 2014).

Algumas ações, objetivos e metas de curto, médio e longo prazo:

SAÚDE: intervenção cívico-militar-policial na saúde. Reestruturação total de seu funcionamento, com bonificação especial para seus trabalhadores, eliminando jornadas extenuantes e contraproducentes para os pacientes. Controle, fim das corruptelas, ordem, asseio e extrema higiene com pessoal capacitado. O rumo? Saúde e hospitais em cada estado em nível “grandes ligas”, inspirados no Estádio Monumental Simón Bolívar.

PODER POPULAR: politizar as consultas trimestrais. Cada comuna deveria votar UM projeto local territorial e OUTRO de caráter municipal/estadual em debate com as demais comunas do município e do estado. O atual democratismo (cada comuna “seu” projeto) fragmenta as decisões, gerando uso menos eficiente dos escassos recursos.

TERCEIRA IDADE: aumento especial imediato de pensões e aposentadorias. Honrar nossos idosos aqui e agora. Eles não terão outra vida para continuar resistindo.

TRABALHO: fazer cumprir a lei de Chávez de 2012. Boa parte dos empresários não a respeita, com trabalhadores fazendo jornadas de até 12 horas sem a devida compensação. Propor simultaneamente o que é ético para os socialistas: redução da jornada de trabalho.

EDUCAÇÃO: a juventude está chegando às universidades com várias carências formativas. Reengenharia pedagógica com dotação mínima permanente para manutenção de escolas e liceus e uma bonificação especial para professores. Tomar medidas rapidamente, como vêm fazendo outros países, em relação ao uso de celulares e redes sociais, para que a promoção da leitura possa se concretizar.

UNIVERSIDADES: não se construirá a Venezuela do futuro com universidades marcadas pela precariedade. Dotá-las do mínimo necessário para seu funcionamento permanente, com uma nova identidade real em que se cuidem seus espaços e se promova maior participação protagonista para construir com as comunidades a verdadeira democracia.

Para finalizar, algumas reflexões sobre qualidade.

Ser venezuelano e ser bolivariano não é a mesma coisa. Marx era alemão, mas a maioria dos grandes marxistas não o era. O Che nasceu argentino e morreu como um cubano exemplar. No Discurso de Angostura, o documento mais brilhante de Bolívar, perto do final, depois de projetar-se desde o futuro contemplando as maravilhas que as terras americanas ofereceram a seus habitantes, o Libertador diz que nos vê “mostrando ao mundo antigo a majestade do mundo moderno”. Se há um povo que, hoje, está mostrando ao mundo a majestade que os seres humanos podem alcançar, é o povo da China. A César e a Deus o que lhes corresponde. Preparemo-nos e pratiquemos para sermos bolivarianos como eles.

(*) Anisio Pires é sociólogo venezolano (UFRGS/Brasil), profesor de la Universidad Bolivariana de Venezuela (UBV)


[1] Texto original traduzido: Resistencia bolivariana 2.0 – Por: Anisio Pires @AnisioVenezuela

[2] O autor se refere provavelmente à troca de elogios entre a presidenta encarregada Delcy Rodríguez – quem, vale lembrar, teve o pai assassinado pela CIA – e Trump. Vide: Trump y Delcy Rodríguez intercambian elogios en redes: esto se dijeron https://www.aporrea.org/actualidad/n416205.html

[3] Eleitores que não participam diretamente da luta política e não têm filiação ideológica bem definida.

Respostas de 2

  1. A presidente Dilma (NBD) compreende que o fortalecimento da América Latina dentro dos BRICS é essencial para que a região venezuelana deixe de ser o “quintal” de potências do Norte e passe a ser protagonista de seu destino.
    A integração da Venezuela não é apenas sobre economia; é sobre consolidar um mundo onde o Sul Global tenha voz e vez nas decisões que moldam o futuro do planeta.
    Es aí, a ponte diplomática com precisão !

  2. Em um país historicamente dependente do “petrodólar” para importar comida, incentivar a produção interna é uma estratégia de segurança nacional contra bloqueios e sanções externas.
    *Reforma agrária venezuelana*

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