Por Pedro Estevam da Rocha Pomar (*)

Salvo engano, o candidato neofascista Flávio Bolsonaro sobreviveu, com folga, à sabatina promovida pelo Jornal Nacional da TV Globo nesta quinta-feira 16 de outubro, e conduzida pela jornalista Renata Lo Prete. O senador do Partido Liberal (PL) saiu-se relativamente bem, mesmo nas poucas vezes em que foi explicitamente confrontado pela entrevistadora.
Em diversas respostas, Flávio esquivou-se das perguntas, tangenciou, mentiu descaradamente, atacou seu oponente Lula sem medir palavras. Em algumas ocasiões não foi sequer interrompido, em outras o foi quando já havia dito o que desejava.
Enquanto Lula, sabatinado na véspera pelo mesmo Jornal Nacional, optou por mostrar projetos, como as realizações em educação, saúde e moradia, mostrando seriedade, Flávio preferiu recorrer ao “vale tudo” e à cortina de fumaça tão típicos das campanhas eleitorais neofascistas.
Para ele, na realidade, foi um bom treino para os debates na TV Bandeirantes (neste domingo, 18) e na própria Globo (na sexta, 23). No “aquecimento” realizado no Jornal Nacional, o candidato neofascista demonstrou que não hesita em disparar mentiras a torto e a direito.
Embora a direção do Grupo Globo tenha sido visitada por Flávio na mesma data da entrevista, episódio digno de repúdio e que deu origem a justificados temores (e variados rumores), não há evidências, por enquanto, de que ele tenha recebido previamente as perguntas que lhe seriam feitas ou de que tenha havido alguma combinação a respeito.
Quando apertado por Renata Lo Prete no tocante ao caso “Dark Horse”, o candidato neofascista contra-atacou fazendo referência a potenciais laços do banqueiro Daniel Vorcaro com a Globo — com o apresentador Luciano Huk e com Frederico Kachar, CEO da emissora recém-demitido.
No entanto, a desenvoltura demonstrada por Flávio na sabatina do Jornal Nacional evidencia que o “jornalismo de script”, o formato engessado imposto pela Globo, é útil para constranger Lula, mas não para conter nem desmascarar as mentiras-em-série de Flávio.
O problema não está em Renata Lo Prete, jornalista capaz e razoavelmente bem informada. Ela tratou Lula com respeito e civilidade. Ao procurar manter-se equidistante, concedendo a Flávio o mesmo tratamento polido, ela não teve como evitar a delinquência verbal e os dribles do candidato neofascista. Mesmo as pontuações que a entrevistadora fez, como quando negou veracidade ao áudio de Vorcaro referente a um suposto filme sobre Lula, foram tão diplomáticas e “técnicas” que talvez não tenham sido bem compreendidas por muita gente.
Mais grave ainda, Renata deixou de fazer perguntas essenciais. Não indagou quanto à natureza neofascista do PL e do próprio candidato. Perguntou a Flávio se Eduardo Bolsonaro se tornaria ministro das Relações Exteriores, mas não o questionou sobre a relação visceral entre Trump (e EUA) e a família Bolsonaro, nem sobre questões estratégicas, como a das terras raras e do petróleo.
Flávio falou à vontade de “corrupção”, sem que Renata cobrasse dele explicações sobre sua extensa capivara pré-caso Master: rachadinha, compra de imóveis em dinheiro vivo, lavagem de recursos, laços materiais com milicianos e crime organizado. Por outro lado, a jornalista conseguiu expor o candidato neofascista ao lhe pedir que explicasse o projeto de lei 3.723/2019, que retira a numeração das munições de armas, impedindo sua rastreabilidade. Ao tergiversar, chamando o assunto de “detalhezinho”, o senador pisou em falso.
De qualquer modo, entrevistar um candidato desse tipo, cujo compromisso com a verdade dos fatos é zero, requer pelo menos duas pessoas na bancada, para que ele não possa cometer mentiras-em-série impunemente. E o script não deve ser cumprido à risca nesses casos: é preciso corrigir a rota da entrevista, de modo a se contrapor às manobras do entrevistado e a obter respostas que sejam minimamente esclarecedoras.
Por fim, 40 minutos de entrevista parece duração insuficiente quando se leva em conta a gravidade do que estará em jogo no próximo 25 de outubro.
Reitere-se que o problema reside num formato que é definido no alto escalão do jornalismo da Globo, amarrando o entrevistador numa camisa-de-força. O fato de que, historicamente, a emissora tem tomado partido contra Lula e o PT — tendo inegáveis responsabilidades concretas na ascensão do bolsonarismo — é um complicador de qualquer análise dos seus telejornais.
O resultado prático, porém, é indiscutível. Flávio se deu bem, produziu “cortes” para suas redes sociais e efetuou um bom treinamento para o confronto deste domingo com Lula. Que deve se preparar para ataques no melhor estilo “baixaria”.
(*) Pedro Estevam da Rocha Pomar é diretor do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo e militante petista.
