Por Fausto Antonio (*)

Epigrafia da tripla intertextualidade e de homenagem ao dia de Santa Luzia, a protetora dos olhos e da visão, celebrado em 13 de dezembro.
“O título da crônica, ‘Uma Bíblia velha e um sentimento de revolta’, foi extraído do desfecho de um conto de Machado de Assis, contemporaneamente citado, em parte, numa letra de Mano Brown (‘Eu tenho uma Bíblia velha, uma pistola automática e um sentimento de revolta. Eu tô tentando sobreviver no inferno’). No corpo da crônica, a intertextualidade conecta um fragmento de samba, cujo refrão diz ‘mas tenho o corpo cansado das poeiras do caminho’, às referências bíblicas, a Mano Brown e ao universo ficcional do Bruxo do Cosme Velho.”
Levou as mãos ao rosto e limpou o suor que escorria.
— Está quente? — indagou o servente, que era da mesma igreja.
— Menino, calor está, mas senti foram os calos na pele do rosto.
Eu, que assistia ao diálogo, percebi que, pelo esforço das pelejas, ele tinha as mãos calejadas e “o corpo cansado das poeiras do caminho”. Seus olhos, com a visão nublada, eram reconhecidamente vermelhos. Olhava para o alto e, de vez em quando, pingava um colírio lubrificante. Era o peso da idade, dizia a esposa, que cuidava da casa e espremia os olhos para passar a linha pela agulha e tecer costuras. Iam à igreja regularmente e recebiam aquele conforto espiritual de quem tem fé e acredita piamente no céu e no inferno.
Enquanto a tarde ia e os tijolos se multiplicavam à sua frente, ele recuou no tempo.
— Comecei cedo, Felisberto.
O servente parou e emendou:
— Tenho quinze anos.
— Pois é… será que teremos nosso lugar no céu?
— Aqui na terra? — reagiu Felisberto. — Segundo a Palavra, é noutro canto o lugar do repouso eterno, o paraíso. O senhor cansou da lida?
— Não, o trabalho faz bem. Mas depois de gastar o sol e muitas luas, olha o pouco que tenho — estendeu as mãos vazias.
Largou a colher de pedreiro e sentou na sombra que a parede defronte permitia.
— Não é a lida diária, Feliz, mas o que não vem, além do suor e dos calos sentidos na própria pele. Ora, ora, menino, não há aposentadoria que chegue; e quando chega, é farelo ou areia fina ao vento. Não sobra nada. Hoje, no almoço, quando orava, olhei para você e me vi num espelho invertido. A sua pele preta, os seus dentes ainda inteiros e o corpo de luta, por enquanto, envolto pela força da juventude e das orações. Você não viu, Feliz, mas chorei pelos cantos dos olhos. A emoção, com certeza, você interpretou como se fosse da leitura e da força da Palavra. Não, agora entrei no “templo de dentro” e abandonei a leitura corrida do texto bíblico. Não levarei para casa aquela Bíblia que me acompanha há muitos e muitos anos. Ela ficará aqui. Chegarei em casa desarmado e pronto para ouvir e falar sem rumo fechado.
— Mas a Bíblia… — balbuciou Felisberto.
— Vou ouvir o que diz Anamaria, minha esposa, que costura e dorme pensando nos vestidos e panos que nunca teve e nem terá aqui. No céu, os panos serão apenas a lembrança da falta de tantas coisas.
Felisberto insistiu:
— Mas a Palavra de Deus não é tudo? Ele não é onipotente, onipresente e onisciente?
— Não viu, certamente, você e a mim. Aos setenta anos, Ele nos deixou para depois ou para nunca.
— E o livro?
— Não levo e não abro mais.
o chegar em casa, Feliz, vou ouvir sem críticas a belíssima oração que Anamaria fez, dedicada à Santa Luzia. Fiz isso enquanto folheava a Bíblia em zigue-zague, para não reconhecer, muitas vezes, o que sou e de onde venho. Anamaria, quando quase perdi a visão, recitava de coração:
A perfeição do Deus único Santa Luzia enxergou e vivenciou. E dela a perfeição, a partir do meu merecimento e autocura, o meu corpo espiritual em Santa Luzia e Deus nela e em mim, o meu olho curou.
À imagem e à semelhança de Santa Luzia, a de Deus, o meu olho, que é do meu Deus interior, na perfeição do Deus único, perfeito se tornou e curado estou.
E ela insistia: “Meu amado esposo, repita e ficará curado”.
Mesmo com o efeito na minha visão, que nunca foi, nunca repeti, Feliz. Nuvens brancas impediam a liberdade e queriam que o céu ficasse além do céu, e muito além de tudo.
Agora, Feliz, farei o caminho inverso, ou à semelhança de Anamaria. Assim, a voz do pastor — que tem as mãos finas e a palavra que retira do livro de Deus a verdade absoluta, o pensamento único que serve para quem lucra, explora e manda — será como folhas secas ao vento, nada mais.
Amanhã, Feliz, direi que sobrou na memória apenas uma Bíblia velha e um sentimento de revolta.
(*) Fausto Antonio é professor Associado da Unilab, BA, escritor, poeta e dramaturgo.
