Por Júlio Quadros (*)

Os Estados Unidos atacaram a Venezuela, sequestraram Nicolás Maduro e Cilia Flores, chantageiam abertamente a presidenta Delcy Rodríguez e anunciam ao mundo que o continente é deles.
Além da Venezuela, o governo Trump mantém pressão permanente sobre Cuba, Colômbia e México. Do ponto de vista ideológico, o objeto de desejo do governo Trump, especialmente de Marco Rubio, seria derrubar o governo cubano. Mas, do ponto de vista geopolítico e econômico, o alvo mais importante é o Brasil.
Nesse sentido, a preços de hoje, o mais provável é que as eleições presidenciais de 2026 sofram ingerência direta dos Estados Unidos. A extrema-direita tentará agir no Brasil como faz na Venezuela, um país onde as candidaturas presidenciais da direita têm o apoio aberto, escancarado, explícito dos Estados Unidos.
Entretanto, é preciso lembrar que não é apenas a geopolítica e a doutrina Donroe (mistura das palavras Donald e Monroe) que orientam a ação dos Estados Unidos. Trump tem um olho no peixe (o mundo) e outro olho no gato (os EUA). E a situação dos Estados Unidos está muito tumultuada, entre outros motivos porque parte da população está reagindo contra a política migratória de Trump e sua infame ICE, sigla que corresponde às seguintes palavras em inglês: Immigration and Customs Enforcement’s (Imigração e Alfândega).
Além disso, a oposição (vinculada ao Partido Democrata) e mesmo parte dos Republicanos estão questionando o fato de Trump ter praticado atos de guerra sem a autorização do Congresso. E haverá eleições legislativas nos EUA em novembro de 2026, logo depois das eleições brasileiras.
Um político normal buscaria baixar a poeira. Mas Trump não rima com normalidade. Pelo contrário. Assim, não se devem descartar novas agressões, seja contra a Groenlândia, seja contra Cuba, seja contra o Irã, seja contra outro alvo que Trump considere politicamente vantajoso. Lembrando sempre que o estilo de Trump inclui idiossincrasias que o levam a atacar num dia e, no outro, falar que gosta da pessoa que ele atacou, o que confunde muita gente que acredita em química, mas esquece que, na política e na guerra, a física joga imenso papel.
Não importa quantas concessões nosso governo faça (e a concessão mais recente foi trabalhar pela assinatura do Tratado entre Mercosul e União Europeia, que beneficia o agronegócio local e também a indústria do velho mundo), não somos de confiança do imperialismo. Por isso, a ingerência dos EUA em nosso país está na ordem do dia. E ela não vai se limitar ao processo eleitoral. Se tudo correr bem, se Lula for reeleito, as pressões vão aumentar de tamanho.
Há várias táticas possíveis para lidar com essa situação. A pior delas é a crença de que, se não brigarmos com eles, eles não vão brigar conosco. O conflito dos EUA contra a esquerda brasileira já existe, é estrutural e inevitável. Nosso desafio é convencer a maioria do povo brasileiro de que, para construir uma sociedade diferente e melhor, precisamos de integração regional e precisamos do chamado Sul Global; e que, por isso, é indispensável defender nossa soberania contra os Estados Unidos.
A decadência do império americano não será rápida nem pacífica. Muitas batalhas serão travadas e os imperialistas ganharão várias. Parte importante da guerra será travada na América Latina e Caribe, região que os EUA consideram seu “quintal”. Cabe a nós, do Brasil, contribuir para que a América Latina seja dos latino-americanos.
(*) Júlio Quadros é integrante do Diretório Nacional do PT.
