Por Fausto Antonio (*)
Epigrafia das ruas como extensão e expressão da luta de classes
Um ótimo exemplo de presença nas ruas e de organização de frações de trabalhadores e partidos de esquerda foi o ato do dia 11 de janeiro de 2026, às 10h, com concentração e intervenção na Avenida Paulista, convocado inicialmente pelo PCO (Partido da Causa Operária).
Chamadas dessa natureza deveriam partir também do PT, da CUT e do MST, que são inegavelmente as forças políticas de maior envergadura no contexto da esquerda brasileira. Os sindicatos de alcance estadual — como é o caso da APEOESP — poderiam cumprir um papel fundamental na oposição às visões ditadas pelo imperialismo e pela burguesia branca brasileira, que criminalizam os projetos soberanos (Cuba, Venezuela, Irã) e, consequentemente, os governos e regimes contrários aos desígnios impostos pela plutocracia estadunidense via mídias totalitárias (formais e informais), sanções, bloqueios, armas e golpes.

Argélia, Líbia e Síria
Argélia, Líbia e Síria nos ensinam que golpes imperialistas não representam uma transição para a propalada democracia burguesa atlanticista. Os golpes obliteraram, nos casos vertentes, os processos políticos internos, regionais e globais soberanos.
Na Argélia, prevaleceram os privilégios políticos e econômicos capitaneados pela parelha ou condomínio opressor franco-ianque, extensivos ao bloco atlanticista europeu em geral. No limite do norte da África, com as fronteiras europeias delimitadas pelo Mediterrâneo e com uma relação geopolítica historicamente indissociável do oeste da Ásia, a Argélia sofreu ação intervencionista imperialista com vistas ao controle dos recursos minerais e energéticos , o gás, em especial, e para, sobretudo, garantir poder geopolítico estratégico no interior do país e na região, além de impedir fluxos migratórios. As duas questões são indissociáveis: o controle do território argelino e o dos recursos energéticos, notadamente o gás, o que coloca o país no cerne dos principais conflitos da atualidade. Na impossibilidade de uso do gás russo, a União Europeia tende a fechar o cerco político contra a Argélia para assegurar o monopólio do uso deste recurso.
A Líbia, além das reservas de ferro, magnésio e outros minerais, possui as maiores reservas de petróleo do continente africano. A proximidade com a Europa facilita o transporte, diminuindo o tempo de deslocamento e os custos para os ‘destinatários’ na Itália, Alemanha e França. O gás é outra peça-chave para as necessidades europeias pois, ao atravessar o Mediterrâneo, chega com rapidez à Itália. Por razões de ordem econômica e geoestratégica, a Líbia foi duramente golpeada para solapar a soberania nacional e deixar à disposição dos EUA/OTAN os recursos petrolíferos de alta qualidade (com baixo teor de enxofre) e, ao mesmo tempo, promover o desmonte das políticas de confederação e de uma unidade arquitetada, conforme preconizava Kadafi, entre países, economias e moedas africanas. Por fim, o estrangulamento político da Líbia tem por finalidade , considerando que o país é o principal polo para as migrações em escala subsariana para a Europa , o controle do território usado para impedir os processos migratórios ou deixá-lo sob o comando da OTAN.
A Síria, por sua vez, foi atacada para assegurar, via mudança de regime, as políticas genocidas e de dominação no Oeste da Ásia, notadamente na Faixa de Gaza, organizada e ativada pela simbiose opressora império-sionista. O ataque ao governo Assad foi, em suma, um ataque do sionismo/OTAN ao Eixo de Resistência, cujos principais alvos foram o Irã e o Hezbollah no Líbano. Fica exposta a política império-sionista em cujo escopo está confiada a contenção estratégica do Irã e do Eixo de Resistência.
Venezuela, Cuba e Irã
Os ataques crescentes às soberanias venezuelana, cubana e iraniana têm por objetivo a dominação, a exploração e a opressão sob o poder da ‘moeda despótica’, o dólar. Trata-se de uma geopolítica de contraposição aos BRICS e às soberanias nacionais, encetada pelo controle lastreado no petrodólar. Tais ações buscam o bloqueio flagrante às Novas Rotas da Seda, corolário chinês para as relações internacionais nos âmbitos diplomático, comercial, industrial e tecnológico, fundamentais para a consolidação dos BRICS.
Pragmática e notadamente, a ‘lei do mais forte’ e o imperialismo vigoram há muito tempo. Exemplos disso são a partilha criminosa e intervencionista do continente africano (Conferência de Berlim, 1885) e a divisão de países asiáticos no século XX. Somam-se a esse cenário as duas Grandes Guerras Mundiais (1914-1918 e 1939-1945) e a fundação da OTAN em 1949, notadamente um instrumento de força e de opressão econômica e militar.
Existe um extenso histórico de aproximadamente 90 golpes liderados diretamente pelos EUA e pela OTAN, com ênfase na África, América Latina, Caribe e Ásia. O marco da supremacia bélica tem como ápice o uso de bombas atômicas contra a população civil em Hiroshima e Nagasaki (1945), estendendo-se pelas ações armadas contra o Vietnã e a Coreia. Na África, dentre vários processos golpistas e genocidas, destaca-se o caso do Congo. Essas políticas deliberadas de violência na África, Ásia e, principalmente, no Oeste Asiático, consolidaram dezenas de ditaduras a serviço da OTAN durante o século XX. Na América Latina, há um ‘rosário’ de golpes e ditaduras organizadas e comandadas estrategicamente para assegurar a hegemonia econômica, midiática e bélica imposta pelo eixo OTAN/EUA e pelo sionismo.
Qual a novidade, então, no tocante ao ataque aos governos e à soberania do povo venezuelano? Acabou o verniz? A rigor, ele nunca existiu, pois a violência do Departamento de Estado estadunidense nunca foi subjacente ou orientada apenas pelo convencimento. Em suma, o denominado soft power faz parte de uma política totalitária de pensamento único, que confere ao agressor o rótulo de ‘democrático’ e ‘defensor de liberdades’, independentemente das atrocidades cometidas. Não se trata de novidade, nem se limita tampouco ao conjuntural Trump; a opressão intervencionista ascendeu à categoria de violência escancarada, com a plutocracia dos EUA tentando definir a América do Sul como seu protetorado.
O papel da esquerda em contraposição ao imperialismo
O instrumento mais forte e eficaz da esquerda brasileira para enfrentar os ataques do império estadunidense são as organizações , as mobilizações de rua e a criação de comitês de solidariedade a Cuba, Venezuela, Palestina ocupada, Irã, Mali, Níger e Burkina Faso. Há uma urgente necessidade de unidade nas intervenções de rua no que toca à defesa intransigente dos governos e regimes desses países, além da articulação com os processos brasileiros voltados aos embates contra a burguesia branca racista e o imperialismo-sionismo, que são indissociáveis no contexto geopolítico global.
Um ótimo exemplo de presença nas ruas e de organização de frações de trabalhadores e partidos de esquerda foi o ato do dia 11 de janeiro de 2026, às 10h, com concentração e intervenção na Avenida Paulista, convocado inicialmente pelo PCO (Partido da Causa Operária).
Chamadas dessa natureza deveriam partir também do PT, da CUT e do MST, que são inegavelmente as forças políticas de maior envergadura no contexto da esquerda brasileira. Os sindicatos de alcance estadual — como é o caso da APEOESP — poderiam cumprir um papel fundamental na oposição às visões ditadas pelo imperialismo e pela burguesia branca brasileira, que criminalizam os projetos soberanos (Cuba, Venezuela, Irã) e, consequentemente, os governos e regimes contrários aos desígnios impostos pela plutocracia estadunidense via mídias totalitárias (formais e informais), sanções, bloqueios, armas e golpes.
(*) Fausto Antonio é escritor, poeta, dramaturgo e professor associado da Unilab – Bahia, além de componente do Afoxé Ylê Ogum, em Campinas, SP.
