Por Maria Carlotto (*)

O início do ano de 2026 confirmou a tendência que já vinha se delineando desde meados de 2025, de uma enorme intensificação do ritmo e da gravidade dos acontecimentos, gerando, por sua vez, um aumento da imprevisibilidade no cenário político, inclusive eleitoral. Evidencia isso em ordem cronológica:
Primeiro, o sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores na invasão militar dos Estados Unidos à Venezuela em 3 de janeiro mostrou que Trump está literalmente disposto a tudo para conter o declínio estadunidense, inclusive fazer uso ostensivo e violento do seu poderoso aparato militar, pondo em xeque a soberania de todos os países, especialmente os que não têm como enfrentar militarmente o império. Desde a invasão militar do maior campo de petróleo do mundo na América do Sul, Trump reiterou sua ameaça de anexar a Groelândia, de atacar militarmente o Irã e de submeter completamente a Faixa de Gaza, na Palestina, por meio do seu Conselho da Paz, para não falar em Cuba, que vive uma crise sem precedentes em função do cerco estadunidense que impede o envio de petróleo. Nesse cenário, fica evidente a possibilidade de que Trump interfira abertamente nas eleições brasileiras de outubro em favor do candidato de extrema-direita.
Na esteira desses acontecimentos, uma das alas mais radicais da extrema-direita organizou a assim chamada “caminhada da liberdade”, um movimento que levou, mais uma vez, milhares de pessoas A Brasília pedindo anistia para os condenados pelos atos antidemocráticos de 8 de janeiro. Liderada por Nikolas Ferreira, a caminhada, e principalmente o ato de chegada em Brasília, não obstante o acidente com um raio ou também por conta dele, tornou a mobilização da extrema-direita a principal ação política, na rua e nas redes, deste início de ano, mostrando que o poder de convocação e engajamento da extrema-direita segue vivo e forte.
Nesse contexto, a intensificação da crise envolvendo o Banco Master a partir de meados de janeiro tem intensificado a tensão entre os poderes, sugerindo a possibilidade de consequências imprevisíveis. De um lado, as investigações da PF revelaram o provável envolvimento de Ministros do Supremo Tribunal Federal, especialmente do então relator do caso, Dias Toffoli, com o que vem sendo considerada a maior fraude financeira da história do país. De outro, apesar de ter afastado Toffoli do caso, o STF passou a tensionar abertamente as agências de controle do Executivo, especialmente a PF e a Receita Federal, que, atendendo à orientação de Lula, seguiram investigando, “doa a quem doer”. Nesse cenário, o Legislativo busca assumir protagonismo com a abertura ou ampliações de CPI, sugerindo que a crise do Banco Master pode seguir monopolizando o noticiário por mais tempo, fortalecendo o ânimo antissistema que pode respingar, sobretudo, contra quem ocupa o cargo de maior visibilidade, no caso, a Presidência da República.
Por fim, o julgamento da ação movida por partidos de direita e extrema-direita contra a homenagem a Lula no Carnaval do Rio de Janeiro, apesar de ter terminado com a autorização do desfile, também acendeu um alerta de que o Supremo Tribunal Eleitoral, sob a presidência de dois indicados de Jair Bolsonaro, Kássio Nunes Marques e André Mendonça, a partir de junho, pode ser uma fonte de cerceamento adicional para a candidatura de Lula.
Em meio a esses acontecimentos que tornaram a conjuntura mais intensa e mais instável, pesquisas mostram o crescimento resiliente da candidatura de Flávio Bolsonaro que, segundo as sondagens, tem tudo para chegar muito competitivo ao segundo turno. Isso indica que as eleições de 2026 vão caminhando para repetir, em parte, 2022: uma eleição fortemente polarizada, extremamente difícil e totalmente imprevisível.
É verdade que com Lula à frente do Poder Executivo central e Bolsonaro preso na papudinha, o cenário segue ainda mais favorável para o PT nas eleições de outubro, porém, por tudo que viemos nesse início de 2026, fica evidente que as eleições de outubro serão dificílimas e nada está decidido.
Nesse contexto, será fundamental a unidade das forças do campo democrático popular em defesa da candidatura de Lula desde o primeiro turno, para ampliar nossa vantagem e reduzir o espaço de crescimento da extrema-direita no segundo turno, cuja ocorrência depende da existência e da força de outras candidaturas. Mais do que unidade, será preciso disposição de luta, tensionamento ideológico e um programa ousado e popular capaz de gerar, do nosso lado, o engajamento e a mobilização necessários para a vitória em outubro.
(*) Maria Carlotto é presidenta da ADUFABC, professora de Economia Política Mundial da UFABC, integrante da Confluência Democrática no ANDES e militante da AE.
