Guida Calixto: mulher, negra, periférica, feminista, antirracista e nossa pré-candidata

Por Rita Camacho (*)


Nona entre os dez filhos de um carpinteiro alagoano e uma costureira paraense, Margarida da Silva Calixto, a Guida, nasceu em Santos, litoral de São Paulo, em 8 de setembro de 1970. A família vivia em São Vicente, numa casa de palafita. Eram tempos de ditadura militar e seus pais, militantes do PCB, estavam perseguidos pelo regime. “Minha mãe, que também se chamava Margarida, era militante daquele bairro. Ela militava, fazia parte de um coletivo de mulheres, fazia a discussão para colocar energia, saneamento básico”. Após a prisão de um companheiro, foram avisados pelo padrinho de Guida, que era policial militar, para que deixassem a cidade a fim de evitarem o mesmo destino. A pequena Guida tinha quatro meses quando chegou com seus pais, um irmão e sete irmãs a Campinas, onde nasceria o caçula da família e ela construiria sua trajetória no serviço público municipal, no sindicalismo combativo e no Partido dos Trabalhadores. Guida, que está em seu segundo mandato de vereadora na cidade, é a pré-candidata da PT-SP à Câmara Federal.

Guida conta que a grande motivação da vinda dos pais para SP foi “a luta pela sobrevivência”, como era comum naqueles anos 60 e 70. “Meu pai era trabalhador da construção civil e São Paulo estava naquele período de efervescência desse setor. Tanto é que ele trabalhou muito na capital paulista antes de a minha mãe vir [de Belém] para cá com os filhos, em 1965”.

Em Campinas, os Silva foram pingando de bairro em bairro, sempre em moradias precárias. “No mês que a gente comia, podia contar que vinha ação de despejo, porque faltava dinheiro para o aluguel.” Viveram no bairro São Bernardo, nos Campos Elísios e no Jardim São Fernando. “Lá, eu acabei residindo mesmo na favela”. Depois, quando os pais finalmente conseguiram “uma casinha” da Cohab”, a família se mudou para a Vila Padre Anchieta.

O pai, seu Wenceslau, continuou desempenhando seu ofício na construção civil até se aposentar. Era sindicalizado. E era o sindicato quem garantia algo crucial para os filhos menores. “Todo ano, a gente não via a hora de chegar o material escolar, porque a gente não tinha como comprar, a gente ganhava”. O pai tinha uma militância discreta, mas orientava a filha Guida a decorar os nomes de todos os ministros dos governos da ditadura para ela saber quem eram os inimigos.

Dona Margarida trabalhou como costureira em lojas e em fábricas, além de costurar em casa. “E ela era costureira também de escola de samba. Usava os detalhes das roupas da escola de samba para fazer as minhas fantasias. E eu tinha que sair na escola de samba. Às vezes eu não queria, mas ela exigia.” Apesar de trabalhar muito, dona Margarida, também apelidada Guida, mantinha militância partidária e participava ativamente de reuniões. Filiada então ao PDT, foi candidata a vereadora na eleição de 1982. “Eu participei ativamente dessa campanha, ajudei minha mãe, a gente teve camiseta, a gente pintava muro. Ela tinha uma atuação na comunidade muito forte. No Padre Anchieta, ela era fiscal de quarteirão. No Parque da Floresta, ela foi presidente da Associação de Moradores. O Centro de Saúde do Parque da Floresta recebe o nome da minha mãe porque ela foi uma das pessoas que lutaram muito para ter um centro de saúde lá.”

Guida estudou no Centro Infantil Carlos Zinc e no Geny Rodrigues. Ela afirma ter sido uma estudante mediana. “E uma aluna muito intimidada”. Na escola, teve que enfrentar a gagueira em público. Na sala de aula, dizer “presente” após a chamada de seu nome era apenas o primeiro desafio do dia. “Nossa, aquilo para mim é uma tortura”. Hoje, se ela não comenta sobre essa dificuldade, é difícil notar, principalmente quando está esbravejando contra seus opositores na Câmara Municipal. Seu perfil combativo é notório e uma marca de sua atuação.

Guida integrou a primeira turma do CEFAM (Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério) de Campinas, onde recebia uma bolsa, “que seria um salário-mínimo”. Se sua formação em casa já lhe apontava o caminho da esquerda, nessa escola, o convívio com alguns professores ampliou sua visão do mundo e seu repertório para essa rota. “Eu tive professores lá muito bacanas, professores de esquerda, progressistas. Eu tive professores de história muito bons, a gente fez um resgate histórico, principalmente da cidade. Eu lembro da professora Lígia, que também falava sobre geografia, com ela, a gente estudou a questão da imigração, eu lembro que eu fiz uma intervenção, ela pediu para a gente fazer um estudo com base muito nessa experiência de vida, da expulsão do homem do campo para a cidade, da saída imigratória, foi muito bom. Também teve a professora de Língua Portuguesa, Maria do Rosário Mortatti, que era insuportável, mas ela era insuportavelmente inteligente e necessária, ela fez toda a discussão da linguagem padrão, da linguagem oculta, do dialeto padrão, enfim, do contexto de visão de mundo, foi muito interessante. “

Ainda que pensasse em ser professora, Guida e seu então companheiro foram surpreendidos pelos acontecimentos. “No último ano [de magistério], eu engravidei, e isso me paralisou um pouco [os planos]. E eu fiquei um pouco presa naquela condição de cuidar da minha filha.” Mas, em 1996, aproveitou a oportunidade de concurso na Prefeitura de Campinas e foi aprovada para a função de monitora da educação, assumindo o cargo em 1997.

Dois anos depois, durante a primeira greve desde sua chegada ao serviço público, Guida demorou um pouco a aderir, sendo estimulada por uma dirigente sindical que a desafiou com um papel na mão: “Você quer assinar aqui concordando em abrir mão dos direitos que podemos conquistar com esse movimento?” Depois dessa sacudida, Guida não só se juntou aos grevistas como a militância sindical passou a ser parte de sua rotina. “Eu era representante sindical no meu local de trabalho”.

A filiação ao PT veio em 2003. “Naquele ano, nós tivemos uma disputa sindical muito acirrada e foi quando eu comecei a ter uma relação mais próxima dos petistas. Aí a gente teve uma chapa que reunia boa parte de petistas”. Identificando na nova filiada fortes potencialidades de liderança, a Articulação de Esquerda se aproxima de Guida e passa a apoiá-la na luta social e a investir em sua formação política e ideológica, enviando-a inclusive para um encontro de mulheres em Cuba. “Foi um momento de dedicação mesmo, quase exclusiva. Foi o momento em que eu tive a consciência de classe. E aí eu dediquei mesmo a minha vida a isso. Fui até muito criticada pelas colegas no trabalho. Mas continuei trabalhando, fazendo a militância sindical, trazendo as discussões para dentro da escola, organizando os trabalhadores e trabalhadoras. Eu sempre fiz isso.”

Em 2008, Guida estreia na seara eleitoral e sai “anticandidata” a vereadora. Essa expressão foi usada por seus companheiros de corrente por uma circunstância inusitada. Ocorre que, naquele ano, o PT apoiou a chapa majoritária integrada pelo prefeito ao qual a AE fazia oposição. Então Guida, apesar de trazer em seu material os dados da candidatura do desafeto, fez uma campanha integralmente de oposição a ele. Com 450 votos, não ganhou a vaga, mas seu nome, suas ideias, suas bandeiras iam conquistando a cidade. O acúmulo político foi enorme.

A essa altura, Guida se qualificava também profissionalmente. Formou-se em Direito em 2010. Se quando era criança já pensava em ser advogada, a militância reforçou ainda mais esse desejo. Atua nas áreas trabalhista e de família. Ela foi ganhando projeção. “Teve uma situação que o prefeito tentou sacar os nossos recursos da previdência. Eu saí gritando para todo mundo: “Olha, nós vamos ser saqueados, saqueados, saqueados.” De fato, o prefeito sacou, mas foi obrigado a devolver. Logo em seguida, houve uma eleição para o Conselho Municipal Previdenciário, para a qual Guida, por conta de sua atuação, foi a mais votada da história da cidade, com quase 2 mil votos, enquanto a média para esse tipo de cargo é de 50 a 500 votos. O governo articulou para que Guida, na ocasião, não presidisse o Conselho. “Mas a minha atuação no Conselho era muito forte, muito forte mesmo. Tudo o pessoal vinha me falar, até hoje, quando se fala do sistema de previdência Campinas, eu sou a referência.”

Nas eleições seguintes, o candidato da AE foi Adriano Bueno, enquanto Guida ampliava sua militância sindical e partidária, consolidando-se como liderança da cidade. Em 2020, na eleição em que o PT apoiava Pedro Tourinho para prefeito, Guida foi a candidata à Câmara Municipal: “Essa eleição foi interessante, porque a gente viu uma janela de oportunidade. O Pedro era um candidato do PT, ele era um vereador. A situação do PT estava tão ruim que a atuação do Pedro enquanto vereador era uma atuação interessante e ele tinha que se colocar também nessa posição. Então tinha muito servidor que votava no Pedro. Quando o Pedro sai a prefeito, e eu para vereadora, fizemos uma espécie de dobrada interessante. Não íamos dividir votos. Então foi muito bom.” Guida é eleita com 3.645 votos, a maior votação entre os candidatos do PT na cidade naquele pleito. “Mas, pelas previsões, eu ia ser a quinta colocada. Eles falavam isso na minha cara. ‘Ah, entram três, entram quatro’, mas eu era a quinta.”

O mandato foi desafiador. Em meio à pandemia e ao governo Bolsonaro, Guida sofreu todo tipo de ataque. Após o lançamento pelo mandato da história em quadrinhos Territórios Negros, que teve uma repercussão positiva gigantesca na cidade, nas escolas, nos espaços de lazer, a direita reagiu e o mandato de Guida enfrentou duas tentativas de cassação. Seus opositores se apoiavam numa frase que constava numa das imagens do material: ”Paz entre nós, fogo nos racistas” e alegavam que isso incentivava as crianças a atacarem as pessoas. “Mas, na verdade, a questão ali é que tinha uma faixa onde estava escrito: ‘Fora Bolsonaro’, e isso estava dentro das escolas, entendeu?

Óbvio, o militante professor do movimento negro entende muito bem o que aquele material está trazendo e isso para eles [a direita] era uma afronta.” Guida jamais recuou apesar dos apelos até mesmo de integrantes do PT. “Eu falei assim: ‘Olha, um dos elementos do racismo é o apagamento da minha história, da nossa história. Eu não tenho autorização do movimento negro de rasgar isso aqui, de tirar isso aqui. Porque isso daqui faz parte da nossa história.” A firmeza de Guida lhe rendeu três ameaças de morte, mas também a vitória. A comoção foi tão grande no movimento popular e no movimento negro que, no dia da votação da cassação, a militância lotou e cercou a Câmara, pressionando os parlamentares. O placar foi de 27 a 3 a favor de Guida.

Em 2024, Guida foi reeleita com 5.495 votos. “Foi uma campanha também interessante, porque foi uma campanha bem militante. A gente continua nessa linha. A gente tem uma campanha muito militante. Uma participação da nossa militância, tanto na discussão do nosso programa, na discussão dos encaminhamentos das nossas pautas, do financiamento, principalmente do financiamento. Se você olha a minha conta de campanha, você vai ver lá a doação de 30, 50 reais de pessoas que participam ativamente. Isso demonstra algo que é a participação ativa daquele militante, daquele filiado, daquele apoiador que quer contribuir de alguma forma e participa desse processo.”

O mapa de votos também mostra imensa capilaridade. “Eu não sou vereadora de território. Eu sou uma vereadora de opinião, que faz a defesa de pautas mais gerais, serviço público, servidor público, educação, saúde, que atua na luta das mulheres, na luta antirrascista, contra a especulação imobiliária e toda ordem de injustiças. Então eu não tenho voto concentrado num determinado território. E obviamente que, quando você olha proporcionalmente o território onde tem uma população mais pobre, vulnerável, eu tenho mais votos. Mas isso não quer dizer que seja uma concentração muito alta ali. Eu tive votos muito espalhados. Eu sou uma vereadora mesmo da cidade. Isso é bom, mas, ao mesmo tempo, é mais um desafio, porque você tem que andar por toda a cidade mesmo. Então eu tenho que entender a cidade como um todo. Eu tenho que olhar a cidade como um todo. Eu tenho que saber que em Sousas existe uma questão ambiental muito séria, eu tenho que saber que no outro bairro há uma questão de moradia muito séria, uma questão de segurança…”

Página 13 – Como esse perfil amplo de seu mandato municipal joga a favor na sua pré-candidatura a deputada federal?

Guida Calixto – É uma preparação importante, porque, numa candidatura a deputada federal, você tem que discutir as pautas nacionais. Até porque é no município, é no território que você sofre os efeitos de tudo o que é discutido nacionalmente. Então, por exemplo, como que a discussão de justiça tributária vai impactar, por exemplo, as mulheres que vivem no Bassoli, que é um bairro muito pobre na minha cidade. Porque ali o bairro é composto amplamente por mulheres negras, pobres, mães solos, que trabalham, são trabalhadoras domésticas, que ganham pouco e que têm que pagar o imposto de renda, por exemplo. São tributadas mulheres que ganham baixos salários. Também do ponto de vista do desmonte do Estado brasileiro, e você vai ver isso em várias prefeituras, temos o avanço da privatização, da terceirização, o quanto empresas terceirizadas, que terceirizam atividades de serviço, limpeza, cozinha, que recrutam mulheres, mulheres pobres, mulheres negras, e pagam pouco e ainda dão calote no pagamento, atrasam o salário, não pagam benefício. Então, com certeza, essa atuação minha mais ampla, não restrita no território, ela facilita quando você vai discutir uma pauta nacional, uma pauta mais geral.

P13 – O que você e o PT esperam de um possível mandato seu? Quais seriam os seus principais desafios no Congresso Nacional?

Guida – Hoje a gente sabe que nós temos uma Câmara Federal muito hostil, uma Câmara Federal polarizada, hegemonizada, vamos dizer assim, por um grupo da extrema-direita que não quer discutir as pautas do interesse da ampla maioria do povo brasileiro e trabalhador, que é um Congresso pautado em setores que defendem os interesses do mercado, os interesses da elite brasileira que não pensa no Brasil, não pensa em ampliar direito, não pensa em ampliar emprego, não pensa em ampliar recursos públicos, serviço público, pelo contrário, apresentam projetos para restringir a atuação do Estado na ampliação de serviços públicos que poderiam impactar positivamente a vida da ampla maioria da população brasileira. Por exemplo, hoje, se eu tenho um serviço de saúde que funciona bem, isso vai impactar positivamente a vida de muitas mulheres, porque são elas que estão que precisam que esse serviço funcione bem, são elas que precisam que tenhamos médicos no centro de saúde, que tenhamos exames no serviço de saúde, que as cirurgias não fiquem com uma fila extensa, porque são elas que estão na tarefa do cuidado, cuidando dos filhos, cuidando dos idosos e dos doentes. Então o desafio é enfrentar essa composição hoje no Congresso, que está hegemonizada por esse setor que não pensa no povo brasileiro, pensa nos interesses do agronegócio, nos interesses dos super-ricos.

Mas eu acho que é um desafio extremamente importante, porque tem que ser uma pessoa do meu perfil para estar lá mesmo, ou seja, uma mulher trabalhadora, uma mulher que vem da periferia, que sabe, que sente, que entende essas dores para estar lá, representando o nosso povo.

P13 – Que pautas você imagina priorizar?

Guida – Bom, priorizar a defesa do orçamento público para o serviço público. Acho que uma delas é essa. Priorizar a pauta das mulheres. É inadmissível o momento histórico que a gente vive. Uma epidemia de violência, a retirada de direitos, o sufocamento das mulheres, da mulher trabalhadora, que não tem direito, que não é reconhecida. Essa é uma pauta também extremamente importante. A questão da educação.A educação pública precisa ter qualidade para os filhos da classe trabalhadora. A gente ainda tem uma educação que é destinada para um setor, os filhos dos ricos, e outra para os filhos dos pobres.

A questão do SUS, a defesa do SUS. Esse projeto no Brasil é um projeto fantástico. Mas a todo momento ele é atacado. Querem retirar recursos da saúde pública para favorecer empresas que se aproveitam utilizando a saúde como mercadoria. Então pretendo também fazer a defesa dessa agenda.

Outra defesa importantíssima é a redução da jornada de trabalho. É inadmissível que o Brasil viva uma jornada extenuante, uma jornada que coloca as mulheres num grau de violência, de exploração altíssima, a juventude também, sem ter um mínimo de qualidade de vida. Além da jornada, tem a escala: não dá para trabalhar seis dias e folgar apenas um dia. Isso amplia a exploração. Entendo que é também uma agenda extremamente importante.

P13 – O que você concretamente acha que pode fazer através do Congresso Nacional para combater a violência contra as mulheres?

Guida – Bom, eu penso que é necessário a cobrança que o Executivo apresente políticas públicas de fato para pautar e combater a violência contra as mulheres. Nós temos uma situação gravíssima em várias cidades, em vários municípios do próprio estado de São Paulo em que nós não temos estruturas com condições de atender as mulheres vítimas de violência. Muitas vezes as mulheres não sabem nem onde recorrer, porque existe toda uma questão de medo, de vergonha de se expor. Então, por exemplo, nós não temos nos municípios DDMs, que são delegacias de defesa das mulheres, que atendam de forma 24 horas. Isso precisa se tornar lei. É obrigatório que tenhamos, principalmente no final de semana, porque é o período que essas mulheres sofrem mais violência, porque é o período que seus companheiros estão em casa, que se utilizam muitas vezes de bebida, enfim. E, nos municípios, nós não temos muitas vezes delegacias funcionando. A gente não tem estrutura, casas de acolhimento, espaços para poder acolher essas mulheres.

Trago, por exemplo, uma experiência da minha cidade, Campinas, que é uma cidade de um milhão e meio de habitantes, e mais de 50% de habitantes são mulheres. E boa parte dessas mulheres sofre violência. Nós só temos uma equipe de atendimento para atender essas mulheres vítimas de violência no centro de referência lá, que é o CEAMO. O que é essa equipe? É uma psicóloga, um advogado e uma assistente social. Só isso. Então, veja, como que você vai atender uma cidade com mais de 50% de mulheres? O orçamento público não está sendo destinado para potencializar, fortalecer esses espaços de acolhimento.

São Paulo tem essa realidade, no estado de São Paulo, o governador Tarcísio de Freitas não executou todo o orçamento de 2024 para 2025. No orçamento do ano passado, ele não utilizou todo o orçamento da Secretaria de Mulheres, teve todo o esvaziamento desse orçamento e, para 2026, ele reduziu em 54%. Ou seja, ele está dando uma declaração assim, está assinando o recibo de que ele não se preocupa com essa pauta, com essa agenda.

O mínimo que ele deveria fazer era manter o orçamento ou ampliar, obviamente, mas contratar e priorizar essa agenda mesmo, ter ali equipes sérias que pudessem pensar políticas públicas sérias para que a gente possa reduzir esse número alto de violência que a gente tem. Então, embora o presidente Lula tenha feito um pacto nacional de enfrentamento ao feminicídio e o Tarcísio assinou aqui em São Paulo, é só proforma, porque, de fato, o que ele faz em seguida? Ele vai e reduz o orçamento.

Apartir do Congresso, vamos cobrar que os estados, os municípios garantam esse orçamento, esse financiamento e cumpram em determinadas questões como essa, DDM tem que funcionar 24 horas, todo município tem que ter espaço de acolhimento, rede de proteção para essas mulheres, garantir que as políticas sejam políticas integradas, proteção, prevenção, se não tiver isso a gente não está fazendo o combate à violência.

P13 – Você acha que a medida protetiva protege de verdade? Temos visto que algumas mulheres assassinadas tinham medida protetiva.

Guida – É uma armadilha a nós dizer que a medida protetiva não é necessária. É uma armadilha isso, nós temos sim, temos que ter medidas protetivas, as mulheres têm que denunciar e exigir a medida protetiva, ponto. Isso eu já começo por aí. É fato, o que está acontecendo não é a falha da medida protetiva, é a falha do Estado em cumprir a legislação, porque a legislação fala que além de ter a medida protetiva, essa mulher tem que estar protegida. Nesse pacote nacional que o presidente Lula apresentou de enfrentamento ao feminicídio, ele apresenta um conjunto ali de elementos para poder fazer essa proteção.

Por exemplo, ele coloca a necessidade de se colocar uma tornozeleira eletrônica no agressor, uma pulseira no agressor, essa mulher ter um dispositivo como um botão do pânico, como muitos chamam, se o agressor aparecer perto dela, ela poder acionar a guarda municipal, o que está faltando é isso. Sabe aqueles 54% que o Tarcísio retirou? É isso que está faltando.

Então a medida protetiva precisa continuar existindo, até porque é ela que vai nos dar o dado efetivo de quantas mulheres sofrem violência e de quantas mulheres estão morrendo. É a ineficiência do Estado. É ela que vai ser o indicador que vai apontar isso. Inclusive em Campinas a gente está fazendo isso. Nós apresentamos um projeto de lei com referência a essa questão nacional e também estadual. O deputado [estadual] Barba, ele teve a iniciativa de pensar um projeto estadual de enfrentamento ao feminicídio e nos ofertou e nós adequamos isso para o município.

Então eu sou autora de um projeto de lei também de enfrentamento ao município. Apresentando medidas. Uma delas é isso, nós precisamos pensar a mulher como um todo. O quanto as secretarias no município, as pastas estão integradas para fazer esse enfrentamento, para acolher essa mulher. Porque, veja, às vezes você não tem um centro de referência no seu bairro, essa mulher não é atendida num centro de referência, mas ela é atendida no centro de saúde. O centro de saúde pode ali detectar se essa mulher está sendo vítima de violência ou não e acionar os órgãos.

Eu sou da educação, qual é a grande dificuldade que eu vejo na educação muitas vezes? Como é uma unidade, uma instituição que está no território, tem essa dificuldade muitas vezes de denunciar os nossos alunos quando são vítimas de violência, porque o pai está ali, a mãe está ali todo dia. Então, nós temos que nos corresponsabilizar com isso.

Tem que ter essa ação integrada de prevenção, tem que ter ações das guardas, tem que ter ações da segurança pública também destinadas para isso. Nós temos que ter departamentos destinados dentro das guardas municipais que discutam políticas de combate à violência doméstica, que discutam como vão enfrentar essa questão da violência doméstica nos seus municípios. Temos que ter uma rede de proteção, casa de acolhimento, abrigo, casa de passagem.

As delegacias precisam funcionar. Tem cidades que não têm, tem outras que funcionam no horário comercial. No horário comercial, muitas vezes, a mulher não está sofrendo violência. A mulher está trabalhando, o companheiro também está trabalhando. Ela vai sofrer à noite, ela vai sofrer no final de semana, e a gente não tem essas DDMs abertas. Enfim, tem um conjunto de questões e esse mapeamento. Nós precisamos mapear esse homem agressor.

P13 – Por que você se considera uma boa pré-candidata?

Guida – Sou uma mulher, mulher negra, trabalhadora, faço a defesa de bandeiras do interesse da ampla maioria dos trabalhadores. Então eu represento essa expressão, essa expressão de estar no lugar que historicamente nunca foi ocupado por pessoas do meu perfil ou pouquíssimas vezes tiveram a ocupação de pessoas do meu perfil com essa bandeira, com essa defesa. O Brasil é um país extremamente desigual, onde a gente vive níveis de exploração altíssimos, níveis de violência altíssimos. Então, no sentido de reverter essa realidade, eu pretendo representar essa população lá, porque sei que a classe trabalhadora é atravessada por todas essas questões. E pretendo representar a ampla maioria da população brasileira que está nessa condição. Como já demonstrei ser capaz de fazer como vereadora, quero fazer um mandato nesse sentido, combativo e socialista.

(*) Rita Camacho é jornalista e filiada ao PT.

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