Por Guida Calixto (*)

O Brasil já reconheceu, ao menos no papel, a gravidade da violência contra as mulheres. A tipificação do feminicídio em 2015 e sua evolução recente para crime autônomo mostram que houve avanço jurídico importante. Mas os dados escancaram um abismo entre lei e realidade: milhares de mulheres assassinadas na última década, a maioria dentro de casa, muitas vezes por companheiros ou ex-companheiros. Ou seja, não estamos diante de casos isolados — é um padrão estrutural.
O que muda no cenário recente é a força de um elemento que antes era subestimado: a misoginia digital organizada. O ódio às mulheres deixou de ser apenas uma expressão cultural difusa e passou a ser também um modelo de negócio. Plataformas digitais monetizam engajamento, e o conflito — especialmente o que envolve gênero — gera cliques, visualizações e lucro. Nesse contexto, conteúdos misóginos não são apenas tolerados: eles são impulsionados.
A chamada “manosphere” não é um fenômeno marginal. Trata-se de um ecossistema articulado, com influenciadores, cursos pagos, comunidades fechadas e uma estética própria que associa dominação masculina a sucesso financeiro e status social. Jovens são diariamente expostos a discursos que naturalizam a humilhação das mulheres, incentivam a manipulação afetiva e, nos casos mais extremos, justificam a violência.
Não se trata de censura ou de “opinião impopular”. Estamos falando de uma engrenagem que transforma frustração em ressentimento e ressentimento em ódio político e social. Quando grupos mais radicalizados ganham escala, o impacto deixa de ser simbólico: ele se traduz em violência concreta. O feminicídio não nasce do nada — ele é alimentado por uma cultura que desumaniza mulheres.
É nesse contexto que ganha ainda mais relevância uma conquista recente: o deferimento de uma ação cautelar pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo em favor do nosso mandato. A decisão proibiu que um grupo de homens bolsonaristas e da extrema direita continue sua investida de violência política de gênero — uma prática que inclui perseguições, constrangimentos e ameaças.
Essa vitória não é apenas individual. Ela estabelece um precedente importante na defesa de mandatos exercidos por mulheres, especialmente em um ambiente político cada vez mais contaminado por práticas misóginas organizadas. Ao reconhecer e coibir esse tipo de violência, a Justiça Eleitoral sinaliza que a atuação política feminina não pode ser silenciada pelo medo ou pela intimidação.
Por isso, a proposta de criminalizar a misoginia e equipará-la ao racismo aponta para um caminho necessário. Não resolve tudo, mas estabelece um marco: o ódio sistemático às mulheres não pode ser tratado como liberdade de expressão irrestrita quando produz danos reais e coletivos.
Ainda assim, legislar não basta. É urgente enfrentar a responsabilidade das plataformas digitais. Não é aceitável que empresas lucrem com conteúdos que incentivam violência e, ao mesmo tempo, aleguem neutralidade tecnológica. Algoritmos não são neutros — eles são programados para maximizar engajamento, mesmo que isso signifique amplificar o pior do comportamento humano.
Por fim, há um desafio mais profundo: o da formação social. Combater a misoginia exige educação digital crítica, políticas públicas de prevenção e disputa de valores. Se milhões de jovens estão sendo capturados por esse discurso, é porque há um vazio sendo ocupado — e ele precisa ser enfrentado com alternativas reais, não apenas repressão.
O Brasil já avançou ao reconhecer o feminicídio como crime. Agora precisa dar o próximo passo: entender que a violência contra as mulheres começa muito antes do ato final. Ela começa no discurso, na naturalização do desprezo, na transformação do ódio em entretenimento.
Ignorar isso é permitir que a violência continue sendo produzida em escala. E, como os próprios dados mostram — e como a realidade política recente confirma —, essa omissão custa vidas e ameaça a própria democracia.
(*) Guida Calixto é vereadora pelo PT em Campinas (SP)
