Por Fausto Antonio (*)

Epigrafía da totalidade em movimento
O processo eleitoral brasileiro não é um evento isolado, mas um capítulo da “luta de classes global’
A estratégia de opressão global define o imperialismo. Em outros termos, a extração de mais-valia em escala mundial é o que o caracteriza. A definição de imperialismo reside, sobretudo, na sua dinâmica de atuação como classe dominante em escala global. No que concerne à luta de classes, o combate ao imperialismo é o que define a estratégia fundamental da classe trabalhadora, tanto nacional quanto internacional. Em contrapartida ao entendimento histórico do imperialismo como o ápice do acúmulo capitalista, surge o método analítico do uso das categorias de análise sistêmica e de totalidade.
Respeitando essa premissa, avulta a impostergável necessidade de recuperar permanentemente a visão política e estratégica da totalidade. O imperialismo não se define por expressões individuais — como Obama, Biden ou Trump — nem por governos conjunturais. Embora Donald Trump vocalize suas intenções de forma mais explícita, o comando efetivo é centralizado e histórico. O domínio mundial, portanto, é o foco das intervenções dos EUA, independentemente de quem ocupe a Casa Branca. O projeto imperialista estadunidense e seus países auxiliares buscam consolidar-se de forma absoluta no sistema-mundo.
Não é um projeto novo este que tenta, em 2026, consolidar via força armada o propalado “Grande Israel”. O saque contra as soberanias no Oeste da Ásia — território que engloba o Estreito de Ormuz e o Canal de Suez — fora inicialmente objeto da perversa política britânica na região. Atualmente, a política expansionista, colonizadora e racista é o corolário das ações estadunidenses e sionistas. Não se trata de uma simples simbiose: nossa tese propugna que o imperialismo possui, em seu núcleo de poder, o capital financeiro e o lobby sionista em uma ação concatenada historicamente na transição do “motor” imperialista britânico para o estadunidense, emergente ainda no final do século XIX.
Para interpretar esse “motor imperialista” que se pretende único, um eixo fundamental é a passagem do “motor particular” — encabeçado pelas potências colonizadoras na Conferência de Berlim (1885) — para um modelo que não seria mais comandado isoladamente por Portugal, França, Bélgica ou Inglaterra. O território africano, retalhado por fronteiras artificiais ditadas pela cobiça externa, consolidou um bloco de poder intervencionista dirigido hegemonicamente pelos EUA.
Estabeleceu-se um domínio arbitrário assegurado por “condomínios” geopolíticos, como o anglo-ianque e o franco-ianque. Decorre dessa realidade a influência de Portugal sobre os países de língua oficial portuguesa na África: a rigor, não é a força isolada do motor português, mas a eficácia do condomínio luso-ianque em ação indissociável.
O nexo central deste motor único é a mais-valia global que se estende a outros continentes sob a mesma lógica de privilégios de classe e raça. Com a fundação da OTAN em 1949, o projeto reescreve-se em termos de poder bélico e violência sistêmica: aparato jurídico-militar, sanções e bloqueios. O alvo do imperialismo recai invariavelmente sobre a população civil, visando desarticular a coesão interna e comprometer a soberania nacional. São emblemáticas as asfixias materiais-estruturais e midiáticas a que estão submetidos os povos de Cuba e do Irã.
Em síntese, os mesmos países que lucraram com o colonialismo e o trabalho escravizado estão presentes nos dois projetos que se retroalimentam: a Conferência de Berlim (1885) e o advento da OTAN (1949). Todo projeto de opressão partiu do “Ocidente” para o “Oriente”, ao menos nos últimos séculos. O imperialismo evoluiu para um bloco econômico e bélico unitário, neutralizando conflitos interimperialistas que causaram as Grandes Guerras. A mais-valia global — sedimentada pelo dólar como moeda despótica e pelo controle do petrodólar — promoveu uma unidade voltada ao esmagamento de projetos civilizatórios e nacionais antagônicos ao poder da aliança atlanticista.
Imperialismo e burguesia branca no processo eleitoral
A manchete acima poderia ser substituída ou ser compreendida assim: o processo eleitoral brasileiro não é um evento isolado, mas um capítulo da “luta de classes global”. Feita a ressalva, seguiremos com o entendimento sistêmico do quadro eleitoral brasileiro.
Embora os indicadores econômicos sejam positivos — com crescimento do PIB, geração de emprego, aumento da renda média, controle da inflação e isenção de impostos para quem ganha até cinco salários mínimos — e o governo goze de indiscutível reconhecimento internacional, a avaliação de Lula está em baixa, segundo institutos de pesquisa. Decorre disso (e é rigorosamente uma constatação) que uma campanha celebrativa, em concordância com os marcos destacados acima, terá pouca eficácia para assegurar a reeleição do presidente Lula. O que fazer, então, para reverter o quadro atual?
O método deve alterar o eixo de intervenção
Metodologicamente, é preciso compreender a contradição entre os resultados macroeconômicos e a queda da popularidade. É fato que os números não refletem a realidade concreta de milhões de brasileiros. No limite institucional, as “coisas certas” são feitas, mas a dinâmica social é complexa e exige uma linha política que supere o atual gradualismo. O governo, no momento, não encanta nem gera utopia. Sendo assim, a política celebrativa dos feitos graduais e sem alcance estrutural em profundidade não organiza nem mobiliza; ao contrário, arrefece a chave interventiva propulsora do sonho socialista e de transformação radical, conforme as necessidades da classe trabalhadora, sobretudo.
A classe trabalhadora e o campo negro-popular necessitam de medidas que desloquem o eixo de intervenção para as ruas, com mobilização, organização e pressão de classe nos espaços parlamentares e outras instituições burguesas e antipovo — como é o caso emblemático do Banco Central. Tal método inverte o jogo, lançando o desgaste para o seio da direita, da extrema-direita e do projeto da burguesia branca e do imperialismo.
O que galvaniza e mobiliza é o desenvolvimento da indústria e da soberania nacional, fundamentado nas forças produtivas e nos recursos voltados à classe trabalhadora. É imperativo utilizar o gasto público para impulsionar o projeto nacional. O arcabouço fiscal, entretanto, atua como um artefato de bloqueio que limita o governo e contribui para o declínio da aprovação conjuntural de Lula.
No contexto atual, as ações intervencionistas do imperialismo visam — apesar das políticas conciliadoras do governo — retirar Lula da disputa. A burguesia branca brasileira alinha-se (o que não é uma novidade) ao imperialismo para isolar a reeleição e, certamente, fechar apoio cerrado ao candidato da extrema-direita. Para esses setores, direita e extrema-direita são forças convergentes.
Nota-se o retorno de uma “frente única” contra Lula. Para vencê-la, o governo precisará de um programa capaz de organizar a base negro-popular e os trabalhadores. Frequentemente, a mudança de programa e a radicalização ocorrem no calor da luta de classes; é nisso que apostamos.
Haverá disposição política para radicalizar a disputa e enfatizar os projetos da classe trabalhadora e da soberania nacional? Além dessa guinada de Lula à esquerda, os quadros da esquerda radical, revolucionária e do PT devem entrar em cena, empurrando o programa de governo para além dos marcos meramente institucionais. Lula deve vocalizar as aspirações fundamentais da classe trabalhadora em defesa do projeto nacional e tensionar o enfrentamento contra a direita e a extrema-direita.
Nesse embate, a CUT será o ponto nuclear para acionar os sindicatos, indo além das pautas reivindicativas específicas para enfrentar a burguesia nacional e o imperialismo. Ambos se alinham no ataque aos trabalhadores e na tentativa de impedir mais quatro anos de um governo que, embora vacilante, não é burguês, muito menos pró-imperialismo.
A conjuntura, revelando derrotas no Senado e uma previsível unidade entre setores do Judiciário e o bolsonarismo, exige uma guinada à esquerda. É fundamental transformar o “veneno” — a associação do Centrão (representação da burguesia financeira) ao projeto imperialista — em força de oposição, organização, mobilização e ofensiva da classe trabalhadora.
Uma nova cadeia de desenvolvimento
É necessária uma nova cadeia de desenvolvimento com as terras raras, recursos energéticos e minerais, pois há nichos para o impulsionamento de um novo ciclo industrial. É preciso, no projeto nacional, a enunciação de um plano voltado para criar, em parceria com a China e os BRICS, uma indústria ferroviária estatal que passe por uma malha nacional ligando as grandes cidades e as regiões.
Nessa mesma linha de produção, há a necessidade de formar engenheiros(as), técnicos e trabalhadores (as) especializados na construção de locomotivas ferroviárias, técnicas inovadoras e geração de emprego, em interlocução com uma política integrada de renovação da indústria brasileira. O projeto nacional só pode ser consolidado com uma malha nacional ferroviária para deslocar íntegrar milhões de brasileiros, turistas estrangeiros e mercadorias processadas pela indústria geral, diversificada e renovada do ponto de vista tecnológico e cientítico.
Numa produção enunciativa, e não apenas celebrativa das conquistas parciais, emergem a reforma tributária, a reforma financeira e o fim da pseudo-autonomia do Banco Central. É vital propor um referendo contra as emendas parlamentares; são necessárias políticas que possibilitem um ciclo de desenvolvimento econômico nacionalista, de substantiva distribuição de renda e de acirramento da luta de classes na perspectiva da classe trabalhadora.
(*) Fausto Antonio é escritor, poeta, dramaturgo e professor Associado da Unilab – Bahia.
