Reflexões de uma educadora social e futura historiadora sobre o Dia do Trabalhador

Texto publicado originalmente na rede social da autora

Esse feriado internacional que relembra a história da Revolta de Haymarket, quando milhares de trabalhadores de Chicago nos EUA protestaram por melhores condições de trabalho e pela jornada de 8 horas diárias. O protesto foi feito como continuação de lutas e greves, o movimeto vinha sendo brutalmente reprimido pela polícia que já havia matado trabalhadores na porta das fábricas. Em 4 de maio de 1886, durante o protesto, o conflito armado escala pra explosão de uma bomba dos trabalhadores organizados, a polícia responde com troca de tiros. Em meio ao confronto houveram mortes de ambos os lados, todos trabalhadores, nenhum burguês. Nas semanas seguintes se intensificou a prisão de dezenas de lideranças sindicais e anarquistas, a maioria com pouco ou nenhum envolvimento com a bomba. Foram condenados à morte num julgamento fraudulento, e enforcados em 11 de novembro de 1887. Estes foram conhecidos como os mártires de Chicago e símbolo internacional da resistência trabalhista no avançar da industrialização.

Enquanto tudo isto acontecia nos Estados Unidos, no Brasil seguíamos sendo um país escravagista. Tomados pela crise do Império sob regência de D. Pedro II, com intensas revoltas abolicionistas, além da insatisfação da elite cafeeira que ansiava a modernização sem perder seus escravos. Essa data, 1º de maio, por mais radical que tenham sido os protestos em Chicago, pouco se comunica com a nossa memória histórica no Brasil. Seria subversivo demais homenagear com um feriado uma greve trabalhista brasileira. Parece insano imaginar que o dia do trabalhador remonta a um período onde os antepassados da classe trabalhadora do Brasil ainda não eram trabalhadores livres. Bom, ainda não somos por completo. Nem o melhor salário, nem o melhor conjunto de leis trabalhistas é o suficiente pra nos libertar do sistema.

Estive lendo Ailton Krenak (sabe como é mês dos povos indígenas, planejamento das aulas dos adolescentes…) ele fala sobre a importância da instituição do sonho para diversos povos indígenas. Onde o sonhar é um espaço em que elaboramos a nossa realidade e podemos nos encontrar com descobertas e o universo de nós mesmos. Trabalhamos para viver bem, vivemos bem porque temos dinheiro pra comprar essa qualidade de vida, mas não comemos dinheiro. O dinheiro, a economia, o sistema, são invenções que podemos sim viver sem.

Povos indígenas nos falam sobre um mundo onde o trabalho é comunitário, onde o nosso dia pode ser muito mais do que bater o ponto, podemos brincar, conviver e sonhar. Às vezes durante a semana eu sonho que estou trabalhando. Chego em casa da faculdade pelas 22h, ainda regada pelas 3 ou 4 xícaras de café do dia, passo até meia noite assistindo série, estudando, escrevendo o planejamento de aula do dia seguinte… Nas seis horas que passo dormindo sigo pensando, hiper focada no trabalho, elaborando os traumas dos meus educandos, pensando o vínculo e acolhimento, me aprofundando em como organizar a revolta deles contra o mundo. Meu sonhar agitado onde eu sigo correndo e nunca paro. Hoje eu dormi até 12h, sonhei com fadas e gravidez, tinha música, alguma coisa a ver com o filme que eu vi antes de dormir.

Os trabalhadores de Chicago em 1886 lutavam pelo fim da sua jornada de 60h semanais, sendo 17h diárias, além de diversas outras insalubridades das condições de trabalho. Hoje no Brasil nós, os descendentes daqueles que protagonizaram as revoltas populares e políticas para conquistar a abolição em 1888, lutamos pelo fim da escala 6×1. Essa jornada de 44h que é constantemente burlada pelas multinacionais e supermercados para maximizar lucros, culminado nos escândalos de escalas criminosas de 10×1 no grupo Zaffari.

Toda semana uns 4 adolescentes de 13 a 15 anos, depois de brincar no brinquedão e correr no pique esconde, me dizem que vão largar curriculo no Asun e me pedem ajuda pra escrever. Claro que a prof ajuda, tô aqui planejando o projeto “Partiu IF” e espero essa noite sonhar que coloquei 5 adolescentes na federal pra trabalhar de bolsista, não que seja uma realidade fácil, mas que eles possam pelo menos viver o ensino médio sendo crianças.

Feliz dia do trabalhador, feliz daqueles que não são trabalhadores, toda felicidade aos filhos desse povo que caminha sem nada a perder, além dos seus grilhões.

Gabriela Affonso Frison
1º de maio de 2026

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