Gleice Jane militou no movimento de jovens e no movimento estudantil, é liderança feminista e nossa pré-candidata à reeleição para a Assembleia

São Bernardo do Campo. Sim, o berço do Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras no estado de São Paulo foi também o lugar que viu nascer a deputada estadual Gleice Jane em 10 de dezembro de 1979, em meio à efervescência das greves dos metalúrgicos lideradas pelo então sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva. Seus pais, Osvaldo e Cleide Alves Barbosa, naturais do Mato Grosso do Sul, haviam migrado pouco antes, tendo como referência um parente que vivia em Diadema, na mesma região. O boom de empregos nas indústrias locais os havia atraído.
Enquanto Cleide trabalhava nos afazeres domésticos e nos cuidados com duas filhas, Osvaldo era operário na Brastemp. Com a bebê Gleice recém-nascida em casa, Osvaldo teve receio de aderir a uma das paralisações da categoria e sofrer represálias. Mas furar a greve não o protegeu de uma demissão. A família, então, decidiu voltar ao Centro Oeste.
Estabeleceram-se em Mundo Novo (MS), onde, em 1981, nasceu a caçula da família. Osvaldo defendia o sustento da casa atuando como taxista. Quando Gleice havia completado quatro anos de idade, mudaram-se para Dourados (MS), onde Osvaldo conseguiu um emprego para trabalhar de motorista no banco Bamerindus.
“Eu e minhas irmãs estudamos na Escola Estadual Antônia da Silveira Capilé, onde fiz todo o ensino fundamental e médio. Eu era uma aluna estudiosa, não era nota dez, mas era uma aluna que estava sempre acima da média. Era comportada e me relacionava bem na escola. Na adolescência, a gente deu um pouquinho mais de trabalho para a minha mãe, mas nada demais. E, no ensino médio, foi um momento de a gente fazer muita festa”.
Mas a liderança de Gleice não se dava apenas na organização dessas festas. Ainda na quinta série, ela e outras colegas de classe denunciaram um professor por assédio sexual contra uma das alunas. Mesmo que ainda não conhecessem essa expressão, sabiam que as atitudes dele eram inadequadas e as reportaram à coordenação. “Eu já era feminista desde esse período. A gente não falava em assédio, né? A gente falava: ‘Olha, ele dá muita atenção só para ela, ele ignora o restante, a menina é bonita, ele fica o tempo inteiro próximo a ela’. A gente fez esse tipo de questionamento”. Os responsáveis tomaram providências. “O professor mudou de comportamento imediatamente”.
Gleice conta que não havia propriamente uma “vivência política” na escola, mas ela acompanhava com interesse e dava apoio a todas as greves dos professores. “A gente não tinha um grêmio estudantil. Se tivesse, acho que provavelmente eu teria participado. Mas eu participei das lutas pelo passe-livre no ensino fundamental ainda. No ensino médio, a gente tinha já uma preocupação com o vestibular. A gente já estava nessa vibe de pensar o que fazer depois”.
Paralelamente à sua vida escolar, Gleice participava das atividades na Igreja Católica, desenvolvendo liderança no movimento de jovens, junto ao qual participava também de grupos de música, cantando canções religiosas na Igreja São João Batista, no bairro Água Boa, próximo ao Jardim Rigotti, onde residia com a família. “Eu organizei junto com outras pessoas um coral de crianças, e foi muito engraçado isso. A gente um dia chegou na igreja e falou, vamos começar a ensaiar umas crianças aqui. De repente, virou um coral. Eu também organizei grupos de teatro, participei de banda de rock. Era um grupo de jovens que a gente estava sempre junto. A gente fazia muita coisa nessa parte criativa, cultural, sabe? Então acho que essa foi uma experiência bem bacana também na Igreja”.
Influência sindical
Quando concluiu o ensino médio, Gleice dedicou-se a trabalhar de balconista no comércio local, mas logo mudou-se para Guarulhos (SP) para fazer um curso de teatro. Era 1999. Hospedou-se na casa de um tio materno, Sebastião Almeida, que era um sindicalista muito ativo no Sindicato dos Servidores Públicos, do qual fora presidente. “Depois, ele foi vereador [eleito em 2000], foi deputado estadual [eleito em 2002 e 2006], e prefeito de Guarulhos [eleito em 2008 e 2012]. Foi uma influência boa da luta sindical. Eu ia junto com ele. Teve uma eleição sindical, e a gente foi para campanha. Ia distribuir material. Teve campanha de filiação, que eu participei também. Tinha as greves, a gente ia junto. Eu fui trabalhar com ele”.
Ao terminar o curso de teatro, Gleice decidiu regressar a Dourados. “Eu fui vendo o que era a vida de artista em São Paulo. Muita instabilidade no mundo da arte. E cheguei à conclusão de que era melhor fazer uma faculdade. Aí, eu voltei”.
Militância estudantil
Na metade do ano de 2001, ingressou na carreira de Letras na Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS). “Era o curso com o qual eu mais me identificava, porque era um trabalho de docência, que era do magistério, e liderar uma turma era uma coisa que eu já sabia fazer, então eu já achava que não seria difícil. E tinha o curso de literatura, que estava dentro das artes também, que eu gostava. Então, assim, tinha uma afinidade com a linguagem, com as artes, com a literatura, por isso eu escolhi esse curso”.
A universidade abriria também as portas da militância política para Gleice. Mesmo antes de se integrar oficialmente ao Diretório Central dos Estudantes (DCE), ela participava dos movimentos, das comissões, da organização. De 2003 a 2004, Gleice presidiu o DCE. “Nesse período, foi quando a gente constituiu [em 2004] a União Estadual de Estudantes, então foram várias reuniões, encontros. A gente fez também muitas lutas pelo passe livre, pelo acesso à universidade, que ficava distante da rua, a gente fechou rodovia algumas vezes para poder melhorar o acesso”.
Nessa fase, a universitária Gleice integrou-se ao Partido dos Trabalhadores. “Eu estava em contato com o pessoal da UNE e a juventude organizada do PT, com quem eu me relacionava muito. Porque eu entro no PT nesse processo. E eu sempre levava assim, olha: ‘O PT é o partido do governo, então eu tenho que levar as nossas lutas para dentro do Partido’. E a gente tinha muito esse cuidado de não transformar o movimento numa instrumentalização do Partido. Mas a gente tinha uma influência muito grande, porque a organização nacional do movimento era partidária”.
Estamos falando de um tempo em que o Partido dos Trabalhadores governava o município de Dourados, com Laerte Tetila; o estado, com Zeca do PT; e o país, com Lula. “Eu era do PT e a gente fazia todas essas lutas enfrentando todos os governos do PT. A gente fechou a universidade duas vezes, nós tivemos greve na universidade, porque nós estávamos discutindo a reforma do ensino superior, a gente tinha nossas pautas e a gente participava dos movimentos de luta. Então a gente teve uma vida acadêmica muito grande, foi no momento que a gente lutou [com professores e técnicos] e conquistou a autonomia [financeira] da UEMS [no início de 2004]. A gente também lutava por mais bolsas, por garantia de acesso e de permanência”.
Gleice também tinha uma grande preocupação com a verticalização da universidade. “A UEMS era uma universidade construída muito na horizontal. Primeiro ela se estabeleceu em 15 municípios para depois pensar o mestrado. Então a gente estava pensando muito na verticalização da universidade, que era um debate interno da UEMS, e de abertura de cursos para além da licenciatura, pois a gente queria uma universidade mais robusta naquele momento, com cursos que fossem abertos dentro de um critério, de uma programação, e a gente rompeu um pouco com a organização política da universidade, que foi criada para formar profissionais para a educação básica. E e a gente fazia uma discussão: ‘Não, a universidade é muito mais que isso, a gente tem que avançar, tem que ter uma universidade pesquisadora, então a gente estava nesse processo de construção’”.
Mulheres
Foi também por meio da militância estudantil que Gleice passou a ter contato com os movimentos de mulheres. “A gente fez muitos encontros nacionais, nos CONEGs [Conselho Nacional de Entidades Gerais], que eram os conselhos nacionais da UNE, das entidades de base, e, nesse processo, eu também me encontrei com o movimento de mulheres da UNE, e nós participamos, ajudei a construir, participei do primeiro encontro de mulheres da UNE, primeiro encontro nacional de mulheres estudantes, que aconteceu em 2005, e foi um momento de encontro também com a Marcha Mundial de Mulheres. E, aí, quando a gente voltou desse encontro, a gente já voltou organizando a marcha aqui, no município e no estado”.
Cotas
Gleice pôde testemunhar na universidade também a implantação das cotas. “Eu vivi a universidade antes e depois das cotas. E a gente participou muito dessa luta sobre a compreensão da universidade, do debate sobre o que é o racismo, como não ser racista. e eu acompanhei o primeiro caso de racismo da universidade logo depois [da implantação] das cotas. Era um professor que contava piadas e tal, e foi todo um debate bem intenso e duro na universidade para defender um aluno. Eu fui a presidenta do DCE que defendeu um estudante vítima de racismo. Acho que foi o primeiro caso emblemático. Foi um caso[1] que deu repercussão nacional e tudo mais”.
Crítica
Para concluir o curso de Letras, Gleice dedicou-se a um trabalho que fazia uma crítica ao papel da universidade. “A gente vinha questionando muito a universidade, e eu peguei o conceito da Marilena Chauí, que falava um pouco sobre o conceito do que vinha a ser a universidade, e apliquei no meu curso de letras, para saber, olha: ‘O meu curso está atendendo essa especificidade do que vem a ser a universidade?’ E a minha conclusão era de que não, a gente ainda tinha muito o que avançar. Na verdade, era uma crítica mesmo na perspectiva de dar uma linha para poder avançar mais no curso. Toda a minha vida na universidade foi de militância. Não tem um dia que não foi. Todo o trabalho que eu fiz, os encontros, os seminários, eles eram todos voltados à perspectiva da militância mesmo, e da luta pela educação, da luta das mulheres”.
Gleice formou-se em 2005 e decidiu, então, não participar de nada por um tempo. “Eu queria ter uma vida normal. Pensei que era possível. Passei no concurso do estado e virei professora”. Filiou-se ao sindicato da categoria. “Mas não quis participar do sindicato imediatamente. Fui tentar estudar, fiz um curso de especialização, já me organizando, pensando em ir para um mestrado. Aqui em Dourados, não tinha mestrado na época. Se tivesse um mestrado, eu teria feito imediatamente. De 2006 até 2010, eu participei dos movimentos, mas não diretamente à frente da liderança, a não ser do movimento de mulheres. No movimento de mulheres, eu sempre estive à frente, na liderança, construindo a Marcha Mundial de Mulheres aqui em Dourados”.
Mas, em 2011, Gleice já assumiria a vice-presidência do Sindicato Municipal das Trabalhadoras e Trabalhadores em Educação de Dourados (SIMTED). “E aí foram vários movimentos, várias greves. Em 2014, eu sou candidata à presidência do SIMTED. E sou eleita, mas eu não consigo assumir porque tem seis processos judiciais. A ideia deles [da oposição] era judicializar para eles fazerem uma intervenção. Mas não deu certo, porque a gente fez toda uma luta e conseguiu garantir o sindicato”. Após um acordo, foi feita uma nova eleição e Gleice assumiu o cargo no final de 2015.
Durante sua gestão, Gleice liderou uma greve de 79 dias na rede municipal. “Foram muitas lutas. E, depois de terminado tudo isso, a gente estava num processo também dessas perdas de direitos e na luta contra o golpe de 2016 contra a presidenta Dilma Rousseff”. Gleice esteve à frente do sindicato até janeiro de 2018. Na eleição seguinte, ela fez o sucessor e ficou na vice-presidência, retornando à sala de aula.
“Eu tinha assumido um novo concurso em 2016 e tinha que terminar o meu estágio probatório. Voltei para a sala de aula porque eu tinha um projeto de me tornar candidata. E eu precisava, aqui para a base, encerrar um ciclo para começar outro. Então eu saí, voltei do sindicato para a escola e da escola eu comecei um outro ciclo, que foi o ciclo da candidatura. E esse processo de migrar da luta sindical para a política foi também muito movido pela história do golpe. Sempre as pessoas me chamavam para ser candidata. Eu sempre rejeitei essa proposta porque eu estava bem no movimento sindical. E, em 2016, quando a gente teve o golpe, eu estava no Vale do Anhangabaú [em São Paulo] assistindo aquele dia fatídico. E, naquele dia, eu tomei uma decisão: ‘Para fazer o que esses caras fazem, a gente faz melhor; eu vou ser candidata’. E eu sabia que, naquele momento, a gente ia ter uma baixa de expectativa, ia ter uma baixa no movimento, e a gente ia precisar de alguém que tivesse força para assumir uma candidatura que pudesse plantar esperança. E eu sabia que a minha história poderia ter essa perspectiva. Porque era uma história de uma mulher feminista, da escola pública, da educação, do sindicato. Eu sempre estive muito envolvida na luta do movimento indígena, enfim, dos movimentos sociais. Então eu sabia que essa poderia ser uma candidatura para garantir que as pessoas não perdessem a fé na luta e na política. E começo construindo [a candidatura] com as mulheres em Campo Grande, na capital, e dialogando com o movimento da educação em Dourados. E, depois, construindo com os movimentos sociais”.
Para Gleice, estar na sala de aula nesse período também era uma atitude política. “Porque estar no chão da escola me dava muito mais autoridade. Legitimidade para falar sobre o que eu quisesse”. Gleice lecionou para turmas do quarto ano do ensino fundamental até o ensino médio, dando aulas de inglês, projeto de vida e teatro. “Porque na reforma do ensino médio você dava aula de qualquer coisa. E aí eu dei aula de teatro também. Foi uma experiência bem interessante”.
Candidaturas
Em 2018, a candidatura de Gleice à Câmara Federal recebeu quase 13 mil votos. “Foi minha primeira campanha e foi uma candidatura muito difícil, com o Lula preso, mas a gente conseguiu o objetivo que era manter pelo menos um deputado nosso do PT, que foi o Vander [Loubet]”.
Em 2020, o objetivo era uma vaga na Câmara Municipal de Dourados. Gleice foi a quinta mais votada e conseguiu 1.762 votos, apenas dez a menos do que o companheiro petista e veterano Elias Ishy, que ficou com a vaga. “Foi por um triz. E foi tenso, porque a gente acabou disputando entre nós. Mas já superamos isso. Nós estamos na mesma base, porque a gente está muito junto na luta da educação. Eu carregava o Elias para todo lugar que eu ia. No sindicato, toda assembleia ele estava junto comigo. Era a greve, o Elias estava lá. Eu fazia um trabalho de mobilizar muito a base, a categoria, para ir para a Câmara Municipal. Então a gente sempre teve um contato muito colado no Elias durante toda a trajetória”.
Em 2022, o desafio eleitoral para Gleice era a disputa por uma vaga na Assembleia Legislativa. Ela ultrapassou os 24 mil votos e ficou na primeira suplência. A vaga ficou com o deputado Amarildo Cruz, veterano na Casa.
Votações de Gleice Jane
| Ano da eleição | Votação |
| 2018 (a dep. fed.) | 12.997 (suplente) |
| 2020 (a vereadora) | 1.762 (suplente) |
| 2022 (a dep. fed.) | 24.085 (suplente)* |
*Assumiu o mandato em 11 de abril de 2023.
A reação de Gleice diante desses resultados foi de desistir da disputa eleitoral. “Agora já tenho uma coleção de derrotas e eu vou estudar. Vou fazer o meu mestrado, que até hoje eu não consegui fazer. Eu vou tocar a minha vida, vou fazer coisas que eu quero fazer. E eu tinha tomado uma decisão de que eu não ia mais assumir nenhum cargo político. E, mesmo assim, o pessoal, me cobrando, tinha me falado: ‘Não, você tinha que assumir um cargo aqui do governo federal, o IBAMA, alguma coisa’. Então eu meio que estava nesse processo de assumir um cargo federal também. Meio sem saber se eu deveria. Daí teve um convite do Ministério das Mulheres também para eu assumir em Brasília”.
Tragédia em cadeia
Os acontecimentos que viriam a seguir acabariam por definir o destino de Gleice. Na tarde da sexta-feira 17 de março de 2023, aos 60 anos, Amarildo Cruz morreu após dois dias de internação devido a uma parada cardiorrespiratória. Estava em seu quinto mandato na Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul.
Gleice Jane, a primeira suplente, também estava hospitalizada. Depois de se sentir mal nos primeiros dias de aula daquele ano letivo, foi diagnosticada com a síndrome de Guillain-Barré, distúrbio autoimune que ataca o sistema nervoso central e toda a musculatura. “Musculatura do pulmão, do coração, do estômago, dos olhos. Onde tem terminação nervosa e músculo, ela ataca tudo. E o deputado Amarildo faleceu 11 dias depois que eu havia ficado paraplégica”.
Nesse período, outro dos três parlamentares do PT na Assembleia também ficou doente: o deputado Zeca do PT passou mal e ficou internado. “Foi um processo de muita comoção de todo mundo do PT, porque estava todo mundo doente. Inclusive, quando eu assumi o mandato [em 11 de abril de 2023], eu ainda estava muito fragilizada, ainda precisava de suporte para andar. Eu não sabia se conseguiria ficar em pé. E eu ainda demorei uns seis meses para me recuperar”. Agora, a deputada está completamente livre da doença. “É que nem cachumba. Deu, acabou, você não pega mais”.
Mas os primeiros meses foram desafiadores, em especial por sua condição física: montagem de equipe, aprendizado sobre os protocolos de funcionamento da casa legislativa e a necessidade de viajar semanalmente para Campo Grande. “Não sabia o que era uma indicação, um requerimento. Eu não sabia qual era o momento que eu podia falar e não podia falar na Assembleia. Tinha muito medo, inclusive, no começo, de fazer alguma coisa muito errada e acabava não fazendo. E a gente tinha algumas pessoas que haviam participado do mandato do Amarildo, na verdade, duas equipes juntas, com ideias diferentes, com construções diferentes. E foi um processo inicial bem tenso também. Tive que me recuperar administrando toda essa construção do que seria o mandato. Eu diria que, nos primeiros meses, a minha participação foi de compreender o cenário. Mas a equipe deu conta de fazer muita coisa legal, de trabalhar. Eles se reuniam sempre, discutiam. E aí tinha uma parte da equipe que já tinha um pouco de experiência. E foi onde as coisas aconteceram”.
Identidade
A grande virada de chave do mandato, na avaliação de Gleice, deu-se cerca de um ano após sua posse. Foi quando ela decidiu ir para o confronto em defesa de uma causa: um conflito agrário em Dourados. “A gente aqui convive muito com os conflitos agrários indígenas, com os enfrentamentos aqui dos territórios indígenas. E tinha um cenário de muita violência. E a gente fica sabendo das coisas porque os indígenas gravam, publicam vídeo nos grupos, e os grupos de WhatsApp pegam fogo. E a gente sabe que a coisa está tensa lá. Então mostra as fotos das pessoas machucadas. E, no meio de tudo isso, a gente viu que tinha um acampamento de fazendeiros de um lado e uma ocupação dos indígenas do outro. Eles estavam a 200 metros de frente um com o outro nesse enfrentamento, na luta pelo mesmo território”.
Segundo Gleice, um deputado bolsonarista, defensor de armas e dos CAC (Caçadores, Atiradores e Colecionadores), junto com os fazendeiros, incitava a violência a todo momento. “Ele fazia vídeo o tempo inteiro acusando os indígenas, incitando mesmo a violência naquele território. Então eu falei: ‘Bom, se os fazendeiros têm um deputado, os indígenas também têm uma deputada. Então eu vou lá’. E eu fui com a cara e a coragem. Nem avisei a equipe toda que eu ia, porque senão eles não iam concordar com aquilo. Eu só avisei a advogada: ‘Olha, não sei se está certo, se está errado. Nunca fiz isso, mas eu estou indo. E eu vou porque eu acho que eu tenho que ir’. Para os indígenas, essas situações representam risco de vida mesmo. É risco de conflito. E tem muitas histórias que eles somem, sofrem tortura, são baleados. Já tinha tido algumas coisas naqueles dias. E aí era um dia muito tenso. [Minha decisão] foi muito na intuição. E essa advogada também foi do movimento estudantil. Ela me conhece um pouco mais. Ela falou: ‘Então, antes disso, você manda uma mensagem para o secretário de segurança. E depois você liga para ele saber que você está indo’. E eu fiz só isso e fui”.
Gleice levou com ela duas companheiras do mandato, uma das quais para fotografar. “Nesse dia, deu uma repercussão muito grande. E passou muito essa ideia de dar uma cara para o mandato. ‘Quem é a Gleice deputada?’ A Gleice é essa que vai para o movimento, que vai enfrentar a luta, que vai nos conflitos”.
A essa altura, Gleice já estava mais fortalecida quanto à sua saúde e tinha uma leitura mais crítica do mandato também. “De saber da necessidade de que tudo ia depender um pouco de mim. Mas eu não fiz isso propositalmente, não. Eu fiz porque é do meu perfil e da luta mesmo. Aqui em Dourados mesmo, a gente já foi várias vezes em áreas de conflitos. É espontâneo. Obviamente que a gente tem outros cuidados. Nesse, a gente teve um momento mais tenso. Mas a gente sempre fez isso aqui. A gente sempre fez essas lutas. Então não tinha nada de anormal no que eu estava fazendo, era o que eu já faço sempre enquanto militante mesmo do movimento. Sempre fechei rodovia com eles. Sempre estive na luta. E continuo fazendo isso”.
“O mandato é uma tarefa do movimento”

A visão de Gleice sobre o papel dela e do mandato foi ficando cada vez mais nítida com a consolidação de sua atuação. “Para mim, o mandato é uma tarefa do movimento. Assim que eu enxergo o mandato. Eu tive muita dificuldade de fazer essa transição de sindicalista, feminista, professora para deputada. Porque existe uma concepção, principalmente aqui no Mato Grosso do Sul: a Assembleia é um lugar onde todo mundo é muito bonitinho, muito certinho. Até pouca briga tem. E isso me incomoda muito. Tive até que abandonar minhas roupas de movimento para ir trabalhar na Assembleia. Isso tudo me fez perder meu lugar, minha identidade. Porque eu tinha que ficar andando com aquelas roupas de dondoquinha. Esquisito para caramba. E eu precisei entender qual era o meu personagem lá na Assembleia. Mas agora sei que eu continuo sendo do movimento. E que o mandato é uma tarefa do movimento. Eu não estou distante do chão do movimento, distante da escola. Faço muito isso: eu vou na escola, eu faço trabalho sindicalista ainda, eu vou lá fazer campanha de filiação, vou discutir as pautas sindicais na escola, no chão da escola. Eu viajo o estado inteiro fazendo isso. Então eu continuo fazendo esse mesmo trabalho. Só que agora em uma perspectiva maior”.
Se aumentaram a perspectiva e a projeção, aumentaram também as demandas. “Com muito mais trabalho. No sindicato, eu tinha a pauta da educação. Agora eu tenho meio ambiente. Eu tenho saúde. Eu tenho um milhão de pautas para poder dar conta. E ter que entender que as pautas não são individuais. Elas são todas integradas uma na outra. Quando eu penso em mulheres, eu estou pensando em educação, saúde, meio ambiente. Estou pensando nas pescadoras. Estou pensando nas indígenas, nas mulheres do campo. Se eu penso no meio ambiente, estou pensando tudo isso também ao mesmo tempo. Estou pensando na água que eu bebo, que me traz saúde. Que a educação tem que lembrar disso. Enfim, eu entendo a política como uma coisa só. Não são coisas separadas”.
Metas
Gleice considera que seu atual mandato foi de compreensão do que é o parlamento, de compreensão das lutas e das emergências do estado. E reitera que suas prioridades continuarão sendo educação e mulheres. Por outro lado, quer ampliar sua atuação e compreensão dos temas ambientais. “Para o próximo mandato, no primeiro ano, eu tenho como meta mergulhar na pauta ambiental, nesse modelo de produção de energia que, para mim, está muito sério, porque isso intervém diretamente na nossa saúde. Aqui, no Estado do Mato Grosso do Sul, a gente tem uma situação muito delicada, que é muito agrotóxico, água contaminada. Temos um problema sério também com o fogo no Pantanal e, junto com isso, vem a seca dos rios e o desmatamento das nascentes. Eu quero me debruçar nesses temas para eu entender, para aprender muito. Obviamente que eu não vou saber tudo. Mas quero ter uma noção geral para conseguir envolver as pessoas a partir dessa luta. Colocar as pessoas em contato umas com as outras. Tem o movimento de pescadores. Mas tem o movimento indígena. Tem o movimento de luta pela reforma agrária. Esses movimentos todos precisam se ver. Se encontrar. E entender que é uma luta só. Então eu sinto que eu tenho essa obrigação. Isso, para mim, é uma pauta urgente. E urgente porque diz respeito à vida e à saúde. Os Guarani Kaiowá falam assim: ‘A terra está com febre. E, se a terra está com febre, nós também vamos adoecer’”.
Gleice quer atuar nessas frentes sem abandonar a luta pelo serviço público e por melhores condições de trabalho para os servidores, defendendo a universidade pública como estratégia de fortalecimento da ciência. Na pauta de educação, Gleice tem especial preocupação com as terceirizações no setor e com “a censura” nas escolas, segundo ela, resquício do processo de golpe que vivemos nos últimos anos. O acesso a escolas com boa estrutura é outra necessidade para atender a novas famílias que têm chegado a Dourados e demais cidades da região. “Então a gente está trabalhando muito nessa pauta. E isso eu trabalho muito com o [vereador] Elias [Ishy] também, a respeito de infraestrutura da cidade para receber mais pessoas. Tenho uma preocupação com esse modelo de desenvolvimento do estado, que é uma proposta de desenvolvimento econômico muito pautado nas indústrias de monocultura. E que destrói tudo, que contamina tudo. E que não tem um suporte de tratamento para a população. Então as indústrias chegam; as pessoas saem das suas casas, porque os aluguéis sobem muito, e vão para as favelas. Falta escola; falta saúde. A cidade se preparou para receber a indústria, mas não a população. Tem isenção fiscal para a empresa, tem tudo, mas não tem para os trabalhadores. E a gente tem feito esse debate muito seriamente, pois, na lógica do estado, os benefícios vão para as grandes empresas, e a população fica sem estrutura. Por isso, o Elias e eu temos trabalhado muito na construção de novas escolas, de moradia, na luta pela educação, no serviço público, na luta dos trabalhadores. A gente tem trabalhado muito junto nisso”.
